KONSALIK
o Mdico Da CZARINA
Ttulo original: DER L        EIBARTZ DER ZARIN

Captulo 1

Moscovo, ano de 1564...

No palcio do Kremlin ouviam-se gritos estridentes, atroando 
contra as densas muralhas, 
perdendo-se nas galerias obscuras, nas salas profundas como 
sepulcros.
Os guardas, colocados diante das baixas portas, pelas quais s 
era permitido entrar com a 
cabea humildemente inclinada, mantinham-se imveis, com os 
braos cruzados sobre o peito.
Gritos no Kremlin? Quem se preocupa com isso? O que essas 
pedras formidveis j 
tinham abafado de pragas, maldies, gemidos e de estertores de 
agonia, t-las-ia podido de h 
muito reduzir a p. Porm, construdas para a eternidade, elas 
submergiam todas as vozes.
E eram duas vozes de mulher que gritavam, uma clara, outra 
grave: "Um mdico!", 
clamavam. "Vo buscar o mdico da czarina!"
Os guardas das portas mantinham-se imveis, como que 
petrificados. No estavam encarregados 
de transmitir mensagens, deviam manter-se no mesmo stio, 
encostados s paredes, como arcanjos 
defensores dos aposentos do czar. No entanto, olhavam-se pelos 
cantos dos olhos.
"O que  isto, irmozinho?", diziam os seus olhares. "Um 
mdico? O czar j teria 
regressado?"
Julgava-se que ele estivesse algures na Litunia ou na Polnia.
- Ignora-se, paizinho. O czar parte e regressa sem ningum o 
ver ir nem voltar. Quando a 
sua sombra cai sobre Moscovo, sabe-se logo! Os boiardos 
inclinam um pouco mais a cabea, os 
comerciantes entram no Kremlin cheios de palidez, os cortesos 
tremem e os Djaki, esses 
lisonjeadores da corte, encolhem-se e ficam do tamanho de 
gnomos.
Duas criadas passaram a correr pelas baixas portas. Gemendo, 
desapareceram na sombra 
dos corredores.
- A czarina - continuou o guarda colocado  esquerda - ainda 
ontem estava de boa sade e 
danava no seu quarto, embriagada, quando me gritou, cuspindo-
me na cara: "Tu s um rapago 
rude, imbecil!" Lembras-te?
- Que diabinha! Creio que ela se aborrece na ausncia do czar! 
Est doente porque o 
sangue dela ferve e transborda...
As criadas voltavam, precedidas por um homem novo, esbelto e de 
alta estatura, vestido 
de preto, com um capote flutuando-lhe em volta dos ombros. 
Tinha uma comprida cabeleira loura 
e os seus olhos azuis fixavam os guardas que tinham cruzado as 
suas lanas diante da porta de 
entrada.
- Eu sou o mdico - disse o homem de bela 
presena. - A czarina reclama-me.
As lanas continuavam cruzadas. Os 
guardas, ignorando o estrangeiro, olhavam 
em frente.
- Deixem-no passar, imbecis! - gritou uma 
das raparigas. - A czarina desmaiou! O 
nosso 
sublime czar f-los- esquartejar! 
Deixem-no passar!
As lanas tiveram um movimento brusco de 
recuo, como uma fechadura que tivesse 
sido 
forada.

- Obrigado - disse o mdico. - Lembrem-se 
da minha cara daqui em diante, meus 
amigos, 
pois o czar ordenar que eu tenha livre 
acesso a todas as salas do seu 
apartamento. Sou mdico... 
tambm para vocs... - Baixou-se para 
atravessar o limiar e penetrou nos 
aposentos habitados 
pelo czar.
Os dois guardas trocaram de novo olhares:
- Ouviste-o, paizinho? Um novo mdico! Um 
estrangeiro, pelo que me pareceu...
- No ficar muito tempo no palcio, 
irmozinho.
- Sim, ser como o seu antecessor, que o 
nosso sublime czar mandou cegar e 
arrancar a 
lngua antes de castrar. Porqu? Por ter 
receitado ao filho do czar um p 
medicinal que provocava 
vmitos. Era um medicamento necessrio... 
Mas o nosso sublime czar julgou tratar-se 
de um 
envenenamento. Tornou-se desconfiado, o 
nosso grande paizinho, desde que a sua 
primeira 
mulher, a linda Anastsia, foi 
assassinada com uma bebida envenenada... 
Julga ver assassinos por 
toda a parte. Deus o tenha em Sua 
misericrdia! Mas este novo mdico... 
tambm no h-de 
chegar a velho.
A czarina Maria Temriouka era de uma tal 
beleza que fazia sonhar.
Ivan IV conquistara-a como se conquista 
uma fortaleza. Comeara por ser, como 
milhares 
de outras mulheres, uma presa de guerra 
cada nas mos das tropas russas quando 
da queda de 
Kazan. Aps a sangrenta derrota dos 
Trtaros, depois de um longo cerco e de 
uma grande 
carnificina, chegara a vez de o prncipe 
tcherkesse Temriouk Tcherkassky se 
apresentar diante do 
czar, acompanhado de sua filha. Baixara a 
cabea e pousara o seu sabre em frente 
dos borzeguins 
debruados a ouro do grande czar e ps a 
sua vida nas mos do sublime vencedor.
Cada um pensava ento: "Tcherkassky no 
tem qualquer possibilidade de se salvar!" 
Tinham enforcado ou cortado a cabea a 
todos os prncipes trtaros. A marcha 
triunfal de Ivan 
deixara um rasto sangrento  sua 
passagem. Na cidade de Kazan, ouviam-se 
nas ruas, dia e noite, 
os gritos lancinantes dos torturados.
Tcherkassky resignara-se a morrer. 
Esperava ouvir a breve frmula de Ivan: 
"Matem-no!" 
Mas essas palavras no foram 
pronunciadas. O czar lanou um olhar 
rpido e crtico a Maria e os 
seus olhos duros, por cima do nariz 
aquilino, cintilaram:
- Quero v-los em Moscovo, a ti e  tua 
filha
-        disse num tom breve. - Levanta-te, 
Temriouk, e agradece a Deus!
Maria ficou junto de Ivan. Em Moscovo ele 
tomou-a como esposa. Era uma mulher de 
seios opulentos, de ancas estreitas e de 
flexveis e compridas pernas finas. Os 
seus grandes olhos 
escuros, cheios de um fogo devorador, 
exprimiam um convite constante, uma 
lubricidade nunca 
apaziguada. Usava habitualmente simples 
vesturios tcherkesses, como as pastoras 
das estepes 
infinitas. Mas os seus cabelos compridos 
estavam sempre enfeitados com rosas, 
cravos, 
campainhas ou papoilas. As suas unhas, 
pintadas de vermelho, brilhavam como os 
seus lbios, 
tambm pintados, e em volta do seu corpo 
radioso tilintava uma quantidade de 
pulseiras e 
correntes de ouro. Nos tornozelos trazia 
aros, conforme a moda no Levante.

O pai tomara a precauo de a mandar 
instruir nos requintes mais extremos da 
cincia 
amorosa, segundo as tradies dos harns. 
Assim, Maria nada ignorava das magias 
orientais. Os 
seus talentos incomparveis fizeram 
capitular o grande e poderoso Ivan. Na 
primeira noite, depois 
de se ter entregue, diante dele, s 
evolues lascivas de uma dana 
tcherkesse, Maria voou para 
os braos do czar como um pssaro feroz, 
submergindo-o com carcias sbias. Como 
emergindo 
de uma mar de frenticas delcias, 
viram-no na manh seguinte sair do quarto 
conjugal com 
passos titubeantes, com o olhar cavo, 
esgotado at  medula. Lanou um olhar 
perdido ao grande 
marechal da sua corte que todas as manhs 
o esperava na antecmara.
- Ela  capaz de me matar! - declarou 
Ivan depois de uma dessas noites. - Mas 
que morte 
deliciosa!
Agora o czar encontrava-se longe de 
Moscovo:
exercia os seus talentos algures, no 
Norte, fazendo executar os seus inimigos 
ou os que 
considerava como tal, a menos que os 
mandasse cegar, castrar, sempre em 
pblico,  maneira de 
um director de grupo teatral que no 
representasse farsas mas gostasse de 
regalar o seu pblico 
com os terrores permitidos ao poder 
absoluto.
De tempos a tempos, correios traziam da 
sua parte, nas suas montadas esgotadas de 
fadiga, algumas missivas:
Para a minha esposa bem-amada; Para a 
minha rosa de Kazan;
Para a mgica dos meus amores.
Maria lia as cartas dele, rasgava-as, 
depois recebia em segredo os seus 
amantes. Havia 
passagens no velho Kremlin onde quase 
ningum se aventurava. Formavam os covis 
da raposa os 
labirintos subterrneos. Existiam ali 
salas onde se entrava para no mais se 
voltar a ver o Sol: 
permanncia das "almas mortas"... 
Brincadeira com as dimenses de Ivan IV, 
ao qual chamavam 
tambm o Terrvel.

O jovem mdico fora conduzido ao quarto 
da czarina, inclinando-se profundamente 
na sua 
frente. Atrs dela, as camareiras 
afastaram-se rapidamente. O mdico 
permaneceu na mesma 
atitude, esperando uma palavra da 
czarina.
Maria observou demoradamente aquele belo 
homem. Estendida numa grande cama, 
coberta por uma pele de urso, sobre a 
qual tinham lanado uma pele de zibelina 
negra, macia 
como veludo, ela estava vestida apenas de 
vus sobrepostos e tecidos de ouro, que 
as suas aias 
tinham habilmente adornado com flores.
- Quem sois? - A voz da czarina pareceu-
lhe como o tilintar de um sino de bronze. 
Bateu 
as mos e o mdico compreendeu que devia 
endireitar-se. O seu olhar encontrou o de 
Maria e foi 
como o entrechocar de duas lanas.
- Sou Andreas Daniel von Trottau, sublime 
czarina. Mdico cirurgio e especialista 
de 
medicina interna. Fiz os meus estudos em 
Dorpat e em Paris, fui mdico do rei de 
Frana... 
Agradou ao sublime czar nomear-me mdico 
da sublime czarina, depois de eu ter 
conseguido, na 
Litunia, curar o prncipe Kourbski de 
uma grave doena.
- Sois alemo? - De novo o olhar 
semelhante ao lanar de uma lana, mas de 
uma lana 
com o ferro ornado de rosas.
- Sim, nasci em Memel. A sublime czarina 
estar doente?
- No sei. - Maria espreguiou-se sobre a 
manta de zibelina. Com um gesto felino 
atirou 
as suas chinelinhas douradas para o meio 
da sala. A trajectria de uma delas 
passou to perto de 
Trottau que ele pde apanh-la em pleno 
voo. Aproximou-se lentamente, segurando-a 
na mo.
- Que p encantador...

A czarina sorriu. Os vus que cobriam o 
seu peito tinham deslizado, pondo a 
descoberto 
os seus seios de pele de alabastro 
translcido pela qual as raparigas da 
regio tcherkesse so 
famosas. A czarina permanecia estendida  
claridade vacilante das tochas e das 
lamparinas de 
azeite.
- Tenho atordoamentos - disse ela -, 
quando junto as mos elas ficam hmidas, 
se me 
levanto parece-me que um peso esmagador 
se abate sobre o meu corao... - 
Espreguiou-se mais 
uma vez e suspirou: - Explique-me esta 
doena, doutor. Haver um remdio para os 
meus males?
- Ser-me-ia necessrio auscultar a 
sublime czarina... - Trottau aproximou-se 
da cama. 
Teria de ser autorizado a proceder aos 
toques habituais...
- O czar e o mdico so os nicos que 
podem tocar na czarina... - Ela riu, 
afastando os 
vus que a cobriam, ficando completamente 
nua diante dele.
Um corpo como no  descrito em nenhum 
conto de fadas.
- Outrora, entre ns, furavam-se os olhos 
aos mdicos, para que eles pudessem tocar 
nas 
mulheres e ouvi-las sem ver a sua beleza. 
Que poca cruel! - Apoiou-se nos 
cotovelos observando 
Trottau. - Que idade tem?
- Trinta anos, sublime czarina.
- A idade do czar! Mas vs sois mais 
forte, mais alto, mais belo... Sois 
casado?
- No.
- Porqu?
- Em vez disso estudei, era mais 
importante. Em seguida vi-me metido em 
guerras, em 
sublevaes... Quem teria tempo de se 
casar em tais circunstncias.
- Ento nunca amou? - A czarina deixou-se 
cair novamente sobre a manta de zibelina. 
O 
seu corpo nu arqueou-se. Tal como uma 
vaga que se ergue, deslizou para Trottau. 
- Sois um 
pobre rapaz - declarou ela.
- Conheci algumas raparigas... - disse 
ele.
- Cortesas, sem dvida.
- Raparigas respeitveis, nobre 
czarina... mas
eu sou um corao inquieto, no seria 
capaz de vegetar nem de me aborrecer  
espera.
- Gosto dessa inquietao, mdico! No 
meio de uma nostalgia constante, ns 
renovamo-nos sempre,  o caminho da vida 
eterna. Sente-se!
A sua pequena mo branca, carregada de 
anis, bateu sobre a cama.
- Tem os cabelos cor de ouro. Os 
contadores de histrias de Kazan diziam 
que, certo dia, 
uma jovem aprisionou um prncipe com os 
seus cabelos de ouro, como uma aranha 
imobiliza a 
sua vtima no meio dos seus fios! - 
Agarrou na mo de Trottau e pousou-a 
sobre o corao. Do 
seu peito, como um vale quente agitado 
por movimentos profundos, subia at ele o 
perfume de 
mil rosas. - Os narradores de histrias 
de Kazan so uns tolos.  o contrrio: 
um homem de 
cabelos de ouro encerrou numa rede de 
fios deslumbrantes uma czarina...
Endireitou-se to rapidamente que Trottau 
no pde afastar-se. Lanou-lhe os braos 
em 
redor do pescoo, deixou-se cair com ele 
sobre a cama e beijou-o. Beijo que 
consumou tudo: 
respeito, fora, razo, prudncia... 
Ainda com os Lbios colados aos dela, ele 
abraou a czarina e 
deix ou-se vencer pelo seu corpo.
- Como te chamas?

A czarina, cansada e feliz, descansava 
nos braos de Trottau e enrolava os 
cabelos 
dourados do mdico nos seus dedos. As 
tochas estavam gastas. Apenas as 
lamparinas de leo 
irradiavam aiinda a sua doce claridade.
- Andreas Daniel von Trottau.
- Chamar-te-ei Andrei. - Libertou-se do 
abrao dele e saiu da grande cama. - 
Estars 
sempre junto de mim, acompanhar-me-s  
caa, nadaremos e contaremos as nuvens. 
Tiraremos 
das guas dos rios os salmes e os 
esturjes e atravessaremos as florestas 
de tren.  Andrei, 
amo-te! - Inclinou-se para o jovem homem 
e beijou-lhe os ps com uma comovente 
humildade. 
Trottau no se mexeu, temendo quebrar 
aquele encantamento.
Tinham-lhe contado coisas muito 
diferentes a respeito de Maria. Haviam-
lhe dito que ela 
era cruel, violenta, sedenta de vingana. 
Se Ivan era um monstro, Maria passava por 
ser a 
instigadora de crueldades ainda mais 
atrozes. "Deus tenha piedade da sua 
alma", suspirara o 
negociante Venovski, em casa do qual 
Trottau habitara em Moscovo antes de se 
dirigir ao 
Kremlin, no momento em que um Djak lhe 
levara, da parte do czar, a nomeao para 
o lugar de 
mdico do pai de todas as Rssias. "Ainda 
se pode conter o czar inclinando-nos 
perante todas as 
suas vontades... mas a czarina... 
irmozinho mdico, se Sata aparecesse sob 
a forma de um anjo, o 
mundo estaria perdido. Com Maria 
Temriouka ele soobrar..."
E agora, ele, Trottau, estava deitado na 
cama dela! Ela beijava-lhe os ps e 
acariciava-o 
com as suas mos macias.
- Tenho que te auscultar - disse ele.
- J me curaste, urso louro!
- O czar exige um relatrio.
- Escreve ento: "A czarina procurou o 
amor durante trs anos e eu dei-lho!"
- Ele mandar-me-ia enforcar.
- Com certeza. - A czarina riu-se e 
lanou-se de novo sobre ele. - Vs a que 
te arriscas se 
no me obedeceres... Chama-me Mariouchka. 
Depressa. Di-lo!
-Mariouchka...
- Como  bom ouvi-lo da tua boca! Oh, 
Andrei, o mundo metamorfoseou-se no 
decorrer 
desta noite...
- E que ser de ns, Mariouchka?
- Tu s o mdico, eu sou a doente e deves 
vir tratar-me sempre que eu te chame. 
Ivan 
cobrir-te- de ouro porque tu me 
socorrers; quanto a mim, encher-te-ei de 
amor, como se te 
banhasses na luz do Sol.
Quando os primeiros alvores do novo dia 
surgiram, Trottau deixou o quarto da 
czarina. 
Diante da terceira porta, as duas criadas 
de quarto tinham adormecido; em frente da 
quinta porta 
encontravam-se dois novos gigantes 
barbudos, que se inclinaram mudamente 
para o observar.
- Sou o mdico pessoal da sublime czarina
- declarou Trottau com voz forte. - Onde 
est
o marechal da corte?

Os gigantes no responderam, mas apareceu 
um guarda vindo de um recanto da sala, um 
soldado com um mosquete gigantesco que se 
ps em sentido e o precedeu. Atravessaram 
algumas 
salas onde se encontravam muitas pessoas, 
na sua maioria oficiais, funcionrios, 
mensageiros 
vindos das regies mais diversas da 
Rssia. Um criado, com largas calas 
vermelhas e casaco 
ricamente bordado, encarregou-se de o 
conduzir para uma sala onde estava um 
velho de olhos 
profundamente encovados nas rbitas sob o 
seu gorro de zibelina. Surpreendido, o 
velho 
observou aquele rapaz alto e louro, com 
um traje negro de corte estrangeiro.
-        Vens do pas dos corvos? - perguntou.
Trottau sorriu e tirou do bolso um papel 
escrito pelo czar. O velho leu-o.
- O novo mdico! O senhor est no Norte e 
tu irs juntar-te a ele amanh. - O velho 
examinou Trottau como se examina um 
cavalo desconhecido. - Um alemo! O czar 
no gosta dos 
Alemes, por que motivo te chamou ao 
Kremlin?
-        Curei o prncipe Kourbski e esta noite 
a czarina.
-        J estiveste junto dela? - Sobre o 
rosto do marechal da corte passou um 
estremecimento. Estar ela doente? Que 
Deus nos valha! Um s grito de dor da 
czarina pode 
transformar o palcio em antecmara da 
morte! O czar ama-a como ama as 
florestas, o sol, as 
flores e a neve.
-        Ela no gritar - disse Trottau. - 
Comecei um tratamento... que parece ter 
tido 
xito.
-        Que tem ela, mdico? De que precisa?
-        De ar, de exerccio, de liberdade... 
Encerrem uma guia numa enorme gaiola e 
ela 
estiolar-se-. Receitei  czarina sair 
todos os dias para as florestas de 
Boutyrki, para Sagorsk, 
para Noginsk...
- Para os pntanos? Tu s doido?
-        Ela caar gansos, cisnes e...
-        E apanhar febres. Proibo-o, mdico!
-        Se assim , enviarei um correio para o 
czar, na Litunia. Escreva-lhe. Juntarei 
uma 
carta  sua
missiva: "Um velho, de gorro de peles, 
ope-se  cura da czarina." O mdico sou 
eu!
O velho fitou Trottau com um olhar 
hostil:
-        Vocs, os alemes, logo que pisam o 
solo russo, a santa terra russa esboroa-
se 
debaixo dos vossos ps. Faz o que 
quiseres, mdico, isso custar-te- a 
cabea! To certo como 
So Paulo ter sido suspenso pelas pernas.
-        Ento nada me suceder... - Trottau 
inclinou-se ligeiramente - porque So 
Paulo 
foi decapitado!
Afastou-se do marechal da corte sem 
esperar pela resposta dele. "Todos temem 
pelas suas 
vidas", pensou. "Ivan... quem pronuncia 
este nome, suplica ou jura, mendiga ou 
chora. Quem o 
louva  um hipcrita. Meu Deus, onde eu 
me vim meter!"
Parou numa galeria e olhou por uma 
janela. L em baixo viu um dos ptios 
interiores do 
Kremlin. Um destacamento de streltsy 
fazia exerccios. Diante de uma parede 
tinham levantado 
um tabique de madeira ao qual estavam 
presas argolas de ferro. As tbuas 
estavam cobertas de 
grandes manchas vermelhas. O muro das 
flagelaes.
Trottau voltou-se bruscamente. Ouvira 
atrs de si uma tosse discreta. Um criado 
inclinou-se profundamente na sua frente.
-        Gospodiri, devo conduzi-lo aos seus 
aposentos.
Trottau respondeu com um gesto. Sentia-se 
cansado. Ansiava pelo contacto com a 
gua, 
esperava mergulhar num banho quente, 
fumegante; o perfume de rosas de Maria 
penetrara 
intimamente todos os poros da sua pele.

Assim comeou para Andreas Daniel von 
Trottau o seu primeiro dia no Kremlin.

Nessa tarde o filho do czar mandou-o 
chamar. Era o filho da primeira mulher de 
Ivan, 
Anastsia, morta por ter ingerido uma 
bebida envenenada.
O filho do czar era um belo rapaz de 
carcter benevolento, meigo e triste. 
Apertou a mo 
de Trottau como se fosse um amigo. 
Ofereceu-lhe vinho, doces com mel e 
frutos. Depois 
sentou-se num div coberto de peles e 
fitou Trottau com um olhar interrogador:
- Ela morrer?
-        Quem? - replicou Trottau.
-        Sabes o que quero dizer. Auscultaste-
a.
- No, no morrer. - Trottau inclinou-se 
sobre a taa que continha frutos, para 
esconder 
o rosto. "Todos a odeiam", pensava. "Nas 
suas oraes pedem a Deus: Senhor, livra-
nos dela. 
Ser assim to diablica? Eu vi-a de 
outra maneira, semelhante a um lago 
transparente, tpido, no 
qual nos podemos banhar."
- Est muito doente?
- No. Precisa apenas de ar puro.
- Pode haver cura no ar exterior? - O 
filho de czar olhava Trottau com 
assombro. - Seria 
um remdio bem simples e pouco 
dispendioso!
- Existem remdios muito simples que 
ningum conhece porque fazem 
estreitamente parte 
da vida quotidiana. Qualquer pode obt-
los, o mais pobre dos mujiques, o mendigo 
mais 
deserdado...
-        Excepto um czar! Era isso o que 
querias dizer! Cita-me alguns desses 
remdios!
- O sol, o vento, a neve, a gua 
corrente, uma floresta que respira.
- Achas que uma floresta respira? Tu s 
poeta, Trottau... - O filho do czar 
sorriu 
tristemente. - Uma rvore  uma coisa 
morta.
- Uma rvore  uma vida cem vezes 
multiplicada! - Trottau aproximou-se do 
filho do czar, 
olhou-o bem no fundo dos olhos, passou 
uma mo sobre o seu rosto plido e sobre 
os seus 
cabelos curtos: - Se no queres morrer 
tsico, deves, a partir de amanh, 
apanhar ar puro! e 
cavalga pelo meio das florestas e 
respira, respira. Salta para um rio e 
nada at os msculos te 
doerem. Aprende a caminhar e a parar na 
floresta, abre os braos e grita o teu 
amor por ela, pelos 
cus, pelo ar. Ningum te ouvir no fundo 
da floresta sombria e os teus pulmes 
agradecer-te-o, 
purificados de todo o veneno pela 
atmosfera livre que te rodear.
-        O veneno? - repetiu o filho do czar 
erguendo-se de um salto. - Querem 
envenenar-me? E tu sabe-lo, Trottau. Quem 
?
Trottau apoiou as suas duas mos sobre os 
ombros do filho do czar e f-lo voltar a 
sentar-se no div:
- Vs encarregais todos de vos 
envenenarem. No mais belo pas do mundo 
todos se 
Fecham atrs de paredes de pedra, 
envolvem-se ein peles quando o sol 
brilha, torram diante do 
fogo quando neva. Porqu?
-        Porqu? - O filho do czar tirou as 
mos do mdico dos seus ombros. - Devemos 
deixar-nos matar pelo ar gelado, pelo 
tempo cruel?

- Dominem-no! - Trottau dirigiu-se para 
as janelas cujos batentes empurrou: uma 
fresca 
atmosfera invadiu a sala.
O filho do czar estremeceu e puxou a capa 
para os ombros.
- Tendes frio? Como, sendo to sensvel, 
podereis vir um dia a reinar sobre o mais 
vasto 
imprio do mundo? Basta uma corrente de 
ar para vos fazer vacilar.
- Irei lanar-me de peito aberto contra o 
vento! - O filho do czar ergueu-se de um 
salto. - 
Irei rebolar-me na neve e percorrer as 
florestas. Mas se tossir, se tiver febre, 
ento tu sers 
enforcado! - Dirigiu-se para ajanela e 
ficou de p voltado para o vento que 
soprava por cima das 
muralhas do Kremlin. - No envelhecers 
em Moscovo, Trottau. O mais tardar dois 
dias depois 
da chegada do meu pai, eles cortar-te-o 
a cabea, ali, em frente daquelas 
muralhas! - 
Espreguiou-se e respirou o ar a plenos 
pulmes: - Como tencionas tratar a 
czarina?
- Por meio da gua, do ar e do sol.
"E amor", pensou Trottau, mas se tivesse 
exprimido esse pensamento selaria a sua 
sentena de morte.

Nessa noite Maria mandou novamente chamar 
o seu mdico. Trottau permaneceu junto 
dela at de manh. Depois mandaram 
preparar um carro e dirigiram-sejuntos 
para as florestas que 
rodeavam Sagorsk. At ao convento foram 
precedidos por quatro cavaleiros e 
seguidos por oito. 
Em seguida a czarina ordenou que os 
deixassem ss. Trottau acompanhou-a e 
ambos penetraram 
num bosque de btulas inundado de 
claridade.
Quando se julgou bastante distante de 
qualquer presena humana, Maria deteve-
se:
-        Beija-me - disse radianVe. - Oh, 
Andrei, acabo de renascer!
Abraaram-se e continuaram a caminhar 
enlaados como todos os pares 
apaixonados, de 
mos dadas, com o corao a bater na 
iluso enganadora de que este mundo 
poderia, pela magia 
do amor, tornar-se um paraso.
Atrs de um grupo de rvores, 
dissimuladas por arbustos que cresciam 
desordenadamente, 
o boiardo Jouri Alexandrovich Chemski 
observava a sua czarina e o mdico 
estrangeiro. Junto de 
Chemski, trs dos seus servos tinham-se 
acocorado armados de pesadas pistolas.
- Observem bem o que vem - murmurou 
Chemski. - E no esqueam coisa alguma! O 
seu 
corao batia. O cime roa-o como um 
cido. - Mandar-lhes-ei furar os olhos se 
o esquecerem! 
Vo atrs deles. Contaro tudo ao czar:
que Deus o proteja!

Captulo 2

Na Litunia, ao sul de Dorpat, onde tinha 
instalado o seu acampamento, o 
comandante-geral das tropas russas, o 
prncipe Kourbski, esperava a chegada do 
czar.
H anos que os Russos tinham de enfrentar 
os camponeses lituanos. No havia 
nenhum dia em que os combatentes russos 
no fossem atacados ou cruelmente 
mutilados. Com a 
mesma crueldade, o prncipe russo 
retribuia os golpes, fazia executar os 
refns, queimar aldeias 
inteiras at delas nada restar. Mas agia 
assim contra a sua vontade. Sem se 
desencorajar, tentava 
entrar em negociaes com os chefes 
rebeldes lituanos, encontrando-se com 
eles no fundo das 
florestas, para lhes explicar que o 
poderio de Moscovo era mais forte do que 
o desejo de um 
grande povo de ser livre. Em vo. Os dias 
seguintes eram novamente regados de 
sangue. A guerra 
na Litunia prosseguia.
Para Ivan, essa combatividade era 
equivalente a uma traio, embora no 
fosse dos 
Lituanos que ele se queixava, mas sim do 
prncipe Kourbski. "Ele negoceia!", 
gritava Ivan. "A 
nica linguagem do czar  a espada.  
preciso que seja eu a fazer tudo no meu 
imprio? 
Anunciem a Kourbski que eu vou l!"
-        Tenho medo - disse a princesa 
Kourbskaia tremendo quando o correio do 
czar lhe 
levou essa notcia. - Andrei 
Michailovich, pensa no teu filho, pensa 
em mim! Deixa Dorpat antes 
da chegada do czar!
-        Um Kourbski fugir? - O prncipe, alto, 
delgado, coberto por uma pesada pelia, 
caminhava para trs e para diante com ar 
preocupado. - Irei a cavalo ao encontro 
do czar e 
conduzi-lo-ei atravs da Litunia:  
preciso que ele veja com os seus olhos a 
regio e os homens 
sobre os quais reina.
- Mas antes disso mandar-te- furar os 
olhos!
- exclamou a princesa. - O czar no tem 
piedade, Andrei, em nome do teu filho... 
- Caiu de 
joelhos aos ps do marido: - Foge de 
Dorpat!
Kourbski inclinou-se vivamente e ergueu-
a:
- S nos devemos ajoelhar diante de Deus 
e do czar - disse com voz comovida. - De 
resto, 
no me sinto culpado. Ivan  meu amigo. 
Brincmos juntos em crianas, eu sempre 
fui confidente 
dele, ele no tem melhor amigo do que eu, 
e sabe-o.
Meia hora mais tarde o prncipe Kourbski 
partia a cavalo rodeado pelos seus 
guardas. 
Voltou-se para trs, para lanar um 
ltimo olhar  princesa que se encontrava 
a uma janela com o 
filho junto de si. Uma criana de oito 
anos, loura, com grandes olhos azuis. O 
prncipe Kourbski 
voltou-se.
"Se o czar me matar", pensou, "eles sero 
salvos pelo sacrificio da minha vida. 
Vivero." 
Depois, enterrando as esporas nos flancos 
da sua montada, lanou-se a galope 
atravs da vasta 
paisagem plana.
O local onde parou para esperar o czar 
era bem escolhido. Rodeado pelo seu 
exrcito 
lituano, que
o amava, Kourbski sentia-se em segurana. 
Mesmo que o czar chegasse com algumas 
centenas de 
atiradores de lite, uma muralha de 
homens de armas far-lhe-ia frente.
Por volta do meio-dia chegou novo correio 
montado num cavalo coberto de espuma.
- O czar encontra-se a doze verstas 
daqui, senhor! - gritou.

- Que diz ele?
- Fez-me partir com chicotadas 
administradas pelos seus streltsy - disse 
o correio, 
voltando-se.
O seu gibo estava cortado nas costas, o 
sangue atravessara o tecido e agora 
secava, formando 
largas crostas.
Kourbski mergulhou a mo no bolso, tirou 
de l uma bolsa e atirou-a ao trmulo 
correio.
- Eis um emplastro para te curar - disse 
com voz surda. - Lembra-te que  uma 
honra ser 
chicoteado pelo czar!
Ao fim de uma hora, viram avanar para 
eles o longo cortejo de cavaleiros que 
empunhavam auriflamas. As fanfarras 
atroavam os ares gelados desse dia que 
precedia a 
Primavera. O boiardo Loudenski cavalgava 
ao lado de Kourbski.
- Que vais fazer? - perguntou-lhe com voz 
rouca de emoo.
- Irei sozinho ao encontro dele.
- Sozinho? Tu s louco, Andrei 
Michailovich? Ele mandar-te- empalar!
- Se vires isso, manda tocar a atacar!
- Contra o czar?
- Contra um assassino! Eu morrerei 
inocente, todos o sabem. - O prncipe 
estendeu a mo 
a Loudenski e, sem uma palavra, avanou a 
cavalo para o czar.

Ivan continuava montado no seu corcel, 
com uma expresso simultaneamente sombria 
e 
orgulhosa. A sua atitude exprimia uma 
autoridade impiedosa. Usava uma cota de 
malha negra, 
reforada no peito com pequenas placas de 
ao. O seu capacete, obra-prima de ferro 
reluzente, 
forrado de pele, terminava em bico. De 
cada lado do seu rosto e na nuca, esse 
capacete 
chegava-lhe aos ombros, protegendo-lhe assim o pescoo. Descendo da testa, uma 
tira de ao 
protegia-lhe o nariz aquilino. E assim equipado, Ivan, o Terrvel, olhava com 
uma expresso fria 
aquele mundo que lhe pertencia, a ele, o mais poderoso dos potentados. O czar 
tinha as mos 
metidas em luvas de ferro, munidas de pequenos dardos nas falanges. Quando dava 
uma pancada 
com as mos cobertas de metal, dilacerava tudo o que se apresentava na sua 
frente, e essas 
pancadas terrveis eram, no entanto, o castigo mais benigno da sua parte. 
Suspenso da sela de 
Ivan havia, metido na sua bainha, um posoch, isto , um bordo de pastor com 
ponta de ferro. 
Ivan nunca se separava dessa arma mortfera.
Cavalgava em silncio quando o prncipe
Kourbski surgiu na sua frente e se inclinou profundamente, sentado no seu 
cavalo.
-        Longa vida ao czar, que Deus o proteja! O exrcito espera o seu chefe!
Ivan olhou-o de soslaio. As ltimas palavras de Kourbski exprimiam uma ameaa 
velada, 
envolta em submisso. O czar compreendeu-o. Puxou bruscamente as rdeas e 
contemplou a 
floresta de tendas, de bandeiras, de soldados, que se estendia na sua frente. Um 
grupo de 
cavaleiros aproximava-se lentamente. O boiardo Loudenski, acompanhado de 
quarenta oficiais, 
seguia o seu prncipe.
- Sado-te, Kourbski - disse Ivan duramente. Com um gesto brusco, tirou o seu 
posoch da 
bainha e colocou-o atravessado na sela na sua frente. - Tens alguma coisa a 
dizer-me?
- Juro pela cruz que sempre obedeci ao czar...

- Foi esse o teu juramento, Kourbski!
- Juro ainda isto: s o czar  meu amo, no reconheo qualquer outro poder neste 
mundo, 
denunciarei todos os traidores ao meu czar, mesmo que sejam meus parentes, meus 
irmos, meus 
amigos...
- Tu esqueceste as ltimas palavras do teu juramento, Kourbski!
O prncipe fitou o czar no fundo dos seus olhos frios, mortferos. Reconheceu 
esse olhar, 
sob o qual todos os seres humanos se imobilizavam de horror, e disse em voz 
alta:
- Sei que eu prprio e os meus conjurados devemos morrer se eu me opuser s 
ordens do 
czar.
-        Lembras-te bem, Kourbski!
Com uma rapidez angustiante, o posoch saiu da bainha. Kourbski viu a ponta 
aguada 
dirigir-se para ele e no procurou evit-la. Ergueu orgulhosamente a cabea e 
arqueou o peito 
perante o dardo mortal. Atrs de si o prncipe ouvia os cascos dos cavalos da 
cavalaria de 
Loudenski. "Eles vingar-me-o", pensou nesse segundo que precedia a morte. 
"Ivan, grande czar, 
enterra no meu peito o teu dardo de ao!"
A ponta do posoch deteve-se junto do peito do prncipe. Ivan segurava-o, com o 
brao 
estendido, com a mo coberta com a sua luva de ferro de garras aceradas. Os seus 
olhos frios 
cintilavam.
- s ento to orgulhoso? - perguntou sombriamente.
- A minha vida pertence ao czar: far dela o que quiser.
- Tu traiste-me, Kourbski?
- O czar decidir.
- Por que motivo ardem ainda as minhas provncias lituanas?
- O orgulho dos Russos choca-se com o orgulho dos Lituanos.
- Ento aniquil-los-emos! - rugiu Ivan. - Mas um pas morto no d colheitas. 
Enviarei 
colonos! Mandarei vir para aqui camponeses alemes. Saber reinar  abrir aos 
povos espaos 
novos.
- No ser mais importante fazer-se amar pelos povos?
-        Quem me ama ento?
-        Bastar haver um. Eu amo-o, sublime czar.
Ivan meteu o seu posoch de novo na bainha, depois tirou o capacete e atirou-o 
para trs. 
Um streltsy apanhou-o.
-        Aridrei Michailovich, tu s meu amigo - disse Ivan a meia voz. - 
Continuemos a 
cavalgar juntos.
Kourbski, surpreendido, respondeu com um baixar de cabea. Dirigiu um gesto a 
Loudenski, depois seguiu Ivan. Quando se encontraram suficientemente afastados 
para no 
poderem ser ouvidos, o czar fez parar o seu cavalo.
- Conheces o boiardo Chemski? Enviou-me um correio. Kourbski, mand-lo-ei matar.
- O correio?
- A ele... e a Chemski. Sabes o que ele afirma? Que o mdico alemo Von Trottau 
 
amante da czarina. Kourbski, tu conheces Trottau! - Agarrou o prncipe pelos 
ombros e 
sacudiu-o. - Kourbski! Tu tinhas-mo recomendado! Se ele me tirou Maria, vocs 
sero todos 
condenados. Tu conheces o meu amor escaldante por Maria. Tu, meu amigo de 
infncia, sabe-lo 
melhor do que qualquer outro. No penses na cabea, pensa apenas no teu 
juramento: Trottau 
ousa amar a czarina?

- A czarina nunca se apaixonaria por um criado.
- A czarina! Ela tem nas veias o sangue violento dos Tcherkesses. Eu estou longe 
de 
Moscovo, mas esse Trottau estjunto dela, pode tocar no seu corpo, pode v-la 
nua como s eu a 
posso ver. Kourbski, ser possvel... O cime dilacera-me, meu amigo!
Kourbski olhava o czar. "Ei-lo como um verme espezinhado que se torce", pensava, 
"mas 
se lhe digo que Trottau pode amar a czarina porque  um homem e ela  uma mulher 
radiosamente bela, de sangue quente, este verme transformar-se- num Sat 
flamejante."
-  impossvel, senhor - murmurou lentamente Kourbski -, eu conheo Trottau. Ele 
, 
antes de tudo, mdico. Se lhe for necessrio tocar no corpo da czarina, esse 
corpo ser para ele 
apenas um objecto dos mais respeitveis, aos quais se destinam os seus cuidados 
mdicos.
- Chemski mentiria ento?
- Deve mentir. Todos conhecemos Chemski,  um homem invejoso e orgulhoso que 
espera h anos um lugar de governador.
Kourbski sentia uma angstia terrvel por estar a falar assim. " a condenao  
morte de 
Chemski", pensava. "Mas quem depende de Ivan deve permanecer indiferente  sorte 
dos outros."
- Ele ter o seu lugar de governador - respondeu lvan. - Nome-lo-ei governador 
da 
cidade dos mortos! Kourbski, ficarei dois dias contigo, depois regressarei a 
Moscovo. O correio 
ser enforcado e Chemski ter uma morte lenta, terrvel.
-        Ps um brao em torno dos ombros de Kourbski e olhou-o com um largo 
sorriso, 
enquanto os seus olhos frios tomavam uma expresso quase alegre. Mas fosse qual 
fosse o 
significado dessa expresso, o seu olhar permanecia fixo num brilho de demncia.
- Meu amigo - disse Ivan muito comovido -, quero ver a tua mulher e o teu filho, 
quero 
ser feliz no meio de uma famlia feliz. Sou um pobre co, Kourbski. S tenho 
inimigos por toda a 
parte. Tu s o meu nico amigo.
Kourbski respondeu com uma inclinao de cabea. Sentia um aperto na garganta. A 
afeio era o que o czar lhe podia oferecer de mais perigoso...
Trs servos tinham posto o prncipe Chemski ao corrente dos passos dos amantes.
Chemski pensava naquele corpo radioso, na pele nacarada de Maria e no desejo que 
tinha 
dela, desejo que estivera to perto de ser satisfeito... at ao instante em que 
aparecera o mdico 
estrangeiro e a encantara com o primeiro olhar.
- Fornecerei provas ao czar - disse Chemski em voz alta. - Seis olhos vero cada 
beijo, 
cada abrao, cada carcia. O maldito mdico no me escapar.
Trs dias mais tarde os olhos desses servos eram tornados cegos e as suas 
lnguas 
tornavam-se mudas. Recordao da sublime czarina.
Chemski reclamou o seu cavalo num sobressalto de clera e partiu de Moscovo a 
toda a 
pressa para se ir esconder numa das suas propriedades ao sul da cidade.

Um correio vindo da Litunia trazia a ordem para mandar matar Chemski. Tinha 
igualmente por misso entregar dez rublos de ouro ao mdico Andreas von Trottau, 
assim como 
uma carta de Ivan, cuja ltima frase era: "Agradeo a tua fidelidade."

Captulo 3

Andreas von Trottau no soube que trs vtimas tinham j pago pelo seu amor. 
Maria manteve silncio sobre a sua atroz vingana, mas passou a chamar Trottau 
para junto de si 
apenas durante a noite, enviando-lhe uma das suas damas. Continuava a queixar-se 
de dores de 
cabea, nas costas e nas pernas.
Por vrias vezes Trottau prestou os seus cuidados  czarina na presena das 
damas 
da corte. Cheias de respeito, sentadas, em silncio, elas assistiam enquanto 
Trottau examinava a 
czarina e massajava as suas belas pernas ss com um unguento muito aromtico, 
dizendo-lhe, por 
fim: "Sublime czarina, tente caminhar!"
E a czarina erguia-se da sua grande cama, esboava alguns passos hesitantes e 
depois, erguendo 
os braos para o cu exclamava: "Posso pr-me de p! Trottau curou-me. Que 
mdico 
miraculoso. Vejam, estpidas gansas, caminho como se estivesse sobre nuvens!" E 
atravessava 
vrias vezes o quarto, de um lado para o outro, representando a cena da sua cura 
com uma tal 
perfeio que Trottau foi rapidamente considerado o melhor mdico do Universo.
 evidente que o mdico particular da czarina teve de ficar a vel-la muitas 
noites, durante 
graves doenas. Eram as horas em que se encontravam ss e durante elas a sua 
escaldante paixo 
consumia-os ao ponto de Maria se tornar histrica no decorrer desses exerccios 
amorosos.
- Que urso me pareces - dizia ela de manh ao ver Trottau envergar o seu traje 
negro. - 
Andrei, sabes que me pertences?
- Sou um mdico livre, czarina.
- Onde estiveste ontem durante todo o dia?
- No meu consultrio, na floresta, no meu jardim. Examinei dezanove doentes, 
funcionrios da corte.
- Mulheres tambm?
- Trs damas da corte.
- Quem? Mand-las-ei chicotear! - Maria saltou da cama como uma gata selvagem, 
lanando-se sobre ele com todo o seu peso, atirando-o ao cho. - Tu no tocas em 
mais ningum 
seno em mim! Entendes? Tu s o meu mdico! S em mim poders tocar!
Subitamente imobilizou-se, segurou-lhe a cara e cobriu-a de beijos. Em seguida 
chorou de 
felicidade. Trottau levou-a para a cama e acariciou o seu belo corpo at ela 
adormecer como uma 
criana a quem tivessem contado um conto de fadas.
Trs dias aps a extirpao dos trs servos, a
czarina mandou chamar o seu mdico por volta do meio-dia.
- As paredes mais espessas tm ouvidos e os mais cegos podem ver - disse ela a 
Trottau 
quando ele apareceu na sua frente com a sua maleta de mdico. - Espiam-nos, 
Andrei.
- Sejamos mais prudentes, sublime czarina. Suprimamos as consultas nocturnas.
Trottau tirou da sua maleta frascos com medicamentos. Exibia-os constantemente e 
fazia 
deles uma muralha entre ele e as suspeitas. Defesa pueril, e, no entanto, 
resultava.
- Preferia aniquilar toda a cidade de Moscovo!
- Um amante morto de nada vale, czarina.

- Todos julgam poder surpreender-nos! Que imbecis! - Atraiu Trottau para junto 
de si e 
procurou entre as espessas peles da cama uma folha de pergaminho na qual estava 
traado um 
emaranhado de passagens, um labirinto de salas, de corredores, de escadas e de 
portas ocultas. - 
Sabes o que ? A cidade subterrnea existente debaixo do Kremlin! Com estas 
passagens mal 
conhecidas, estas escadas que ningum subiu... - Passou a mo sobre o plano. - 
Tudo o que aqui 
vs se encontra debaixo de ns, no subsolo... Foram precisos dois anos para que 
dois dos meus 
servos terminassem o desenho deste plano. Eu percorri todas estas passagens. 
Sete delas 
conduzem a esta escada. Ests a v-la? E esta vai dar  sala onde costuma estar 
o czar, onde foi 
aberto um alapo no soalho... Pode-se sair do Kremlin sem se ser visto. Esta 
passagem tem uma 
sada para ojardim.  dissimulada por um grande arbusto e esta porta desaparece 
entre as ervas 
altas. - Maria rodeou o pescoo de Trottau com um brao. - Examina-o 
conscienciosamente, meu 
urso louro...  a entrada para vires ter comigo sem que ningum te espie mais!
Trottau estudou aquele plano desconcertante, dirigiu-se para o gabinete de 
trabalho do 
czar, levantou o alapo e desceu a hmida escada de pedra.
-        D-me uma tocha - disse. - Gravarei todo o caminho na minha memria. 
Sairei 
pelo jardim. Dentro de uma hora enviar-te-ei um criado.
- Se ele no estiver aqui dentro de uma hora, enviarei uma multido de streltsy 
para os 
subterrneos! - A czarina tirou duas tochas dos anis de ferro que as prendiam 
s paredes, 
acendeu-as e entregou-as a Trottau que, agarrando-as, se embrenhou prudentemente 
no labirinto. 
Embora tivesse registado na sua memria o conjunto do plano e diversos pontos de 
referncia, 
comeou a contar. Tinha j passado por trs corredores laterais, diante dos 
quais parara para 
iluminar o seu interior. Era uma passagem semelhante quela que ele seguia, que 
ia terminar num 
jardim: paredes nuas, de pedra, a escorrer humidade, das quais emanava um cheiro 
a mofo, assim 
como uma frialdade de tmulo, mergulhado num silncio esmagador.
" um tmulo gigantesco", pensou Trottau. "Quem o ter cavado?"
Prosseguiu o seu caminho. No quarto corredor lateral virou  esquerda e chegou, 
ao fim 
de exactamente noventa passos, a uma escada que ia terminar numa porta de ferro 
fechada por 
trs fechaduras. Trottau abriu-as e dando um forte empurro com o ombro 
entreabriu a porta de 
gonzos enferrujados.
Trottau viu ento a erva, um ramo, um raio de sol sobre uma florinha tmida. 
Apoiou-se 
ento com toda a sua fora contra a pesada porta, que finalmente cedeu, e 
encontrou-se junto de 
um grande arbusto na orla do jardim situado por detrs do palcio do czar.
Para fazer uma surpresa a Maria, Trottau no voltou para sua casa, mas voltou 
pelo 
mesmo caminho at  escada do gabinete do czar. Subitamente encontrou-se diante 
da czarina, 
tendo na mo as tochas meias consumidas.
- Meu urso branco! - exclamou Maria ternamente. - Encontrmos o caminho para o 
cu!
O que ela no sabia era que estavam muito mais perto do inferno.


Durante nove noites seguidas, Trottau utilizou os subterrneos para chegar junto 
de 
Maria.
Os espies do prncipe Chemski s podiam mandar-lhe dizer que a czarina 
permanecia 
sozinha e que dava a impresso de que o mdico alemo cara em desgraa.
-        Vocs devem estar cegos! - gritava Chemski. O medo apertava-lhe a 
garganta. O 
seu correio j devia ter chegado junto do czar h muito. Se Ivan voltasse, 
pediria provas das suas 
acusaes. Mas os nicos que tinham visto qualquer coisa estavam agora cegos e 
mudos. Quanto 
aos novos espies, no tinham qualquer indcio.
buri Alexandrovich Chemski adivinhava que o regresso do czar seria terrvel para 
ele. No 
seu caso, a fuga seria em vo. A Rssia era a prpria mo do czar e este sabia 
tudo o que se 
passava na sua mo...
Na nona noite, Trottau esqueceu-se de contar os corredores que davam para a 
passagem 
que ele seguia. Tornara-se demasiado seguro de si e continuava a avanar... 
Subitamente penetrou 
numa das grandes salas que ainda no vira. S ento se apercebeu de que devia 
ter seguido um 
itinerrio errado que o levara para uma parte desconhecida da cidade 
subterrnea.
Trottau cerrou os dentes e prosseguiu o seu caminho. "Caminharei sempre em 
frente", 
pensou. "Hei-de chegar a algum stio, qualquer labirinto tem sada, o infinito 
s existe para alm 
das estrelas..."
Continuou, e de repente viu argolas de ferro presas s paredes, semelhantes s 
que 
serviam para prender tochas, o que s podia significar que aquela parte dos 
subterrneos era 
habitada. Trottau projectou a sua luz sobre as paredes e viu salas cujo 
pavimento era de pedra, em 
vez de ser de terra batida.
Sentiu-se apavorado quando uma voz surda disse atrs de si: "No te mexas, 
irmozinho!"
Um ser humano! Ali, debaixo da terra. Lentamente Trottau voltou-se.
At ento, Andreas von Trottau s conhecera duas situaes que lhe tinham 
provocado 
pulsaes aceleradas e nas quais julgara encontrar-se perante uma encruzilhada 
do seu destino. A 
primeira fora aquela em que, no palcio do prncipe Kourbski, se inclinara em 
frente do czar, sem 
humildade, pois era um homem livre e Ivan dissera: "Este homem deve
estar doente, Kourbski, pois no pode baixar a cabea!" Mas o prncipe 
respondera: "Grande czar, 
 um mdico alemo."
Durante o tempo que levaria a piscar um olho, Ivan observara, com os seus olhos 
de ave 
de rapina, aquele rapaz alto, esbelto e louro, e depois comeara a rir: "Se as 
doenas tiverem 
tanto medo dele como ele teme pouco o czar, levo-o comigo para Moscovo!"
Da segunda vez Trottau ficara quase sem respirar ao encontrar-se na presena de 
Maria, a 
mais bela mulher que j vira at ento. E quando tivera licena de lhe tocar, 
sentira novamente 
esse peso no corao, que s desaparecera no dia seguinte, ao sair do quarto da 
czarina.
Mas ali, nas profundezas da terra, por baixo do Kremlin, naquele labirinto que 
cheirava 
mal, sofreu o choque mais brutal da sua existncia.

Uma mulher encontrava-se na sua frente, cabelos grisalhos, rosto acinzentado, 
onde 
brilhavam dois olhos no fundo de profundas rbitas e uma boca de lbios 
exangues. Vestia o que 
parecia ser uma comprida camisa, em forma de saco, que descia at ao solo 
viscoso. Criatura 
totalmente incolor, cadver que caminhava, falava e pensava.
A mulher fitava Trottau e este, observando-a, viu que ela empunhava um grande 
punhal 
curvo na sua mo direita.
-        Como  que veio parar a este sepulcro, mezinha? - perguntou Trottau. A 
voz dele 
ressoava surdamente.
-        Eu  que te fao essa pergunta! - A mulher barrava-lhe a passagem. O rosto 
dela 
no traa qualquer emoo. Era apenas uma mancha cinzenta onde os lbios se 
agitavam. - Vens 
do nada e desapareces no nada. J te vi aqui quatro vezes. Que queres tu?
-        Sair daqui pelo jardim ou pelas escadas que vo dar ao gabinete do czar.
-        No h escada no gabinete do czar. - A mulher ergueu o seu punhal. - Tu 
mentes! 
Que procuras aqui?
-        Ningum, mezinha, acredita-me. - Trottau prendeu a sua tocha num dos 
anis de 
ferro presos  parede. - At este instante, ignorava que no me encontrava 
sozinho neste 
subterrneo. Se me observaste, deves saber onde estive.
-        Apenas te segui at sares dos nossos aposentos.
Aposentos! Ela chamava aposentos quelas fossas sepulcrais... Aposentos! Como 
poderia 
ela viver ali? Trottau passou a mo pela testa.
-        Onde me encontro, mezinha? - perguntou com a respirao entrecortada.
-        Nos aposentos de Igor Igorovich Blattiev.
-        Onde? Numa casa? No estou debaixo do Kremlin?
-        Claro que ests debaixo do Kremlin. Ests a fazer-te de imbecil, 
irmozinho! 
Vinhas espiar-nos? Vinhas saber o que fazemos quando o senhor no tem 
necessidade de ns, no 
? Diz-lhe que vivemos muito bem, que no temos necessidade de coisa alguma, que 
somos fiis 
servidores do sublime czar, isto , os ratos mais obedientes do mundo...
-        Ns? No ests aqui sozinha, mezinha?
-        No me enganas com essas palavras! - A mulher fez um gesto com o seu 
punhal 
curvo em
direco ao corredor. Se at ento ela falara com segurana, agora a sua voz 
tornava-se tmida:
- Convence-te e vai apresentar o teu relatrio l em cima: ns no desmerecemos 
a graa 
do czar.
Trottau pegou de novo na sua tocha presa  argola da parede e seguiu pelo 
corredor 
empedrado. A mulher seguia-o, silenciosa, fantasmagrica.
-        Aonde vamos, mezinha? - perguntou Trottau. A angstia crescia dentro de 
si, 
paralisando-o.
-        Tu conheces o caminho, olhos do czar!
-        Ouve-me, mezinha. Eu no sou enviado do czar, que neste momento se 
encontra 
na Litunia. Sou alemo e vivo em Moscovo h pouco tempo. Sou o mdico da 
czarina...
-        Um mdico? Aqui, neste subterrneo, um mdico? - O espectro cinzento 
comeou 
a rir.
- Porque nos enviam mentirosos to desajeitados?
-        Sou realmente mdico, mezinha, e trato da czarina. Conhece-la?
-        No me enganas. No te responderei.
-        A czarina tem compridos cabelos negros.

-        Toda a gente o sabe, em Moscovo!
-        O seu olho esquerdo  um pouco mais claro do que o direito!
-        Ningum pode afirm-lo.
-        Quando se ri pe as mos sobre o peito.
-        E quando faz amor com o czar?
-        Isso no sei. O czar est na Litunia, neste momento, mas quando faz 
amor... - 
Trottau respirou fundo. "Isto pode custar-me a vida", pensou, "mas tenho de 
aprofundar este 
mistrio situado por baixo do Kremlin." - Quando o abraa - continuou -, atira a 
cabea para trs 
e parece planar nos braos do seu amante.
A velha encostou-se subitamente  parede hmida e escondeu o seu comprido punhal 
atrs 
das costas.
-        Isso no  verdade! - balbuciou. - Oh, Jesus, em nome das lgrimas da tua 
me... 
s realmente mdico? - Caiu de joelhos e tocou com a testa nas lajes. - Perdo, 
senhor. Castiga 
uma mulher estpida, mas d-lhe vida, a ela! Por favor!
-        Em nome do cu levanta-te, mezinha!
- Trottau inclinou-se e ergueu a mulher. Ela quis beijar-lhe as mos e ele 
repeliu-a. - Perdi-me. 
Onde estou?
-        Um mdico - balbuciava de novo a mulher, cujos olhos estavam afogados em 
lgrimas. Trottau sentia-se de tal modo perturbado com aquela cena que no 
repeliu a mulher 
quando ela se ajoelhou de novo na sua frente. - Tenho rezado, aqui debaixo da 
terra tambm se 
pode rezar. Rezei durante quatro anos. J tinha dito que era preciso tempo para 
que as minhas 
preces chegassem at Deus. As paredes so de tal modo espessas e ainda h o 
Kremlin por cima! 
Mas  preciso ter pacincia e eu coloquei-me diante dos canos por onde entra o 
ar e rezei. Deus 
do Cu, Me Santa e Tu, Filho cheio de dores, no nos esqueam! Faam com que se 
d um 
prodgio nestas profundezas! E esse prodgio realizou-se: tu s mdico...
-        Quatro anos - murmurou Trottau. - Viveste aqui quatro anos?
-        Vinte anos, senhor. Foi aqui que Igor engendrou a minha filha e que Xenia 
nasceu. 
H uma parede onde eu todos os dias assinalo a passagem de mais um dia. Podes 
fazer a conta. 
Cada trao  um dia. Vinte anos.
A velha limpou as lgrimas com as costas das mos e passando diante de Trottau 
avanou 
pelo corredor.
-        Vem! - exclamou. - Oh, meu Deus, meu Deus, um mdico! - Subitamente gritou 
num tom dilacerante que fez eco nas altas paredes: Igor! Igor! Um mdico!
O        corredor alargava-se. Depois de voltar uma esquina, Trottau parou como que 
deslumbrado. Tochas ardiam suspensas das paredes e sobre mesas de pedra a 
claridade suave de 
lamparinas de azeite irradiava reflexos vacilantes. O fumo saa por trs buracos 
abertos nos tectos 
arqueados.

No limiar da porta que dava para essa sala iluminada estava um homem, mais baixo 
que 
Trottau, mas largo como uma arca de carvalho, vestindo umas calas com pregas. 
As suas pernas 
estavam enroladas em panos. Por cima vestia uma enorme camisa de campons, 
depois um casaco 
de pele de lobo, aberto no peito. Trottau no podia distinguir o rosto dele, 
pois uma floresta de 
plos grisalhos cobria-o completamente. S os olhos brilhavam naquele emaranhado 
de plos, por 
cima de uma fenda estreita: a boca. O homem viu Trottau.
-         Igor Igorovich Blattiev, meu marido
-        disse a mulher. - Eu sou Massia Fillipovna.
No  por ser indelicado que no agradece a Deus
a sua visita. Veja os olhos dele, no pode exprimir-se: o czar mandou-lhe 
arrancar a lngua.

O boiardo Chemskijulgou tratar-se de uma visita amigvel quando viu descerem dos 
cavalos, em frente da sua casa, os prncipes Iouriev e Basmanov, acompanhados de 
um squito 
pouco numeroso. Chemski experimentou mesmo um leve sentimento de alegria, pois 
aqueles dois 
homens passavam por ser amigos do czar. Se eles iam  sua propriedade era porque 
o czar j 
recebera a sua mensagem, enviada por um correio, e iam exprimir-lhe a sua 
benevolncia 
particular.
Chemski rodeou a cintura com um cinto ornado de medalhas de ouro, suspenso do 
qual se 
encontrava uma adaga curva, e depois dirigiu-se aos visitantes:
-        Longa vida ao czar, meus amigos! - disse do limiar da porta. - Que dia 
feliz para a 
minha casa!
-        Longa vida para o czar! - exclamaram tambm Iouriev e Basmanov. Em 
seguida, 
dirigindo um sinal aos seus cavaleiros, ficaram imveis diante dos seus cavalos.
Antes mesmo de Chemski o ter compreendido, tinham-no agarrado e prendido as mos 
atrs das costas. Um dos homens arrancou-lhe o bon da cabea e o outro deu-lhe 
um soco na 
boca que lhe fez correr o sangue dos lbios.
-        Como me esto a tratar, amigos? - balbuciou ele. Nova pancada cortou-lhe a 
palavra. Cuspiu sangue e caiu de joelhos. Quatro cavaleiros levaram-no desde a 
entrada da casa 
at junto de Iouriev e Basmanov, que o esperavam imveis.
-        Como  possvel agir to estupidamente?
- perguntou Iouriev quando Chemski ficou diante dele. - Mandaste espiar a 
czarina? Desconfiaste 
da esposa bem-amada do czar?
-        Disse a verdade - balbuciou Chemski. - Meus amigos, vi com os meus 
olhos...
-        S  verdade aquilo que o czar considera como tal!
Basmanov tirou debaixo da sua capa de montar, bordada a ouro e orlada de 
zibelina, um 
pequeno rolo de pergaminho que Chemski reconheceu imediatamente: era sob essa 
forma que 
Ivan expedia as suas cartas atravs da imensa Rssia.
-        Deixem-me explicar-me com o czar - pediu Chemski. - Irmozinho, no 
desenroles 
essa carta. Leva-me junto do sublime czar.
-        Ele j falou contigo. O czar no gosta de palavras inteis. Vou ler o que 
se segue.
-        Espera! - gritou Chemski com as suas ltimas foras. - Ouam as 
testemunhas! 
Porque no interrogam o mdico alemo?
-        Pergunta-o ao czar! - Basmanov segurava a carta com as duas mos: "Em nome 
do czar, coroado pela graa de Deus, a vida de louri Alexandrovich Chemski  
entregue a Deus. 
Visto ser um homem orgulhoso, morrer de p."

Chemski comeou a tremer, caiu de joelhos, mas os cavaleiros obrigaram-no a 
levantar-se. 
Um enorme streltsy barbudo, que se conservara at ento numa imobilidade total, 
foi colocar-se 
diante de Chemski e olhou fixamente para as suas botas de couro vermelho da 
Rssia. Depois fez 
girar vivamente a sua lana e enterrou-a com toda a sua fora no p direito de 
Chemski.
Chemski no gritou. Limitou-se a ranger os dentes. O sangue que lhe corria pela 
cara 
misturou-se com suores frios. A lana oscilava na sua frente... Encontrava-se 
pregado ao solo em 
frente da sua linda casa de portadas pintadas, de telhado coberto por ripas 
azuis e vermelhas, com 
paredes enfeitadas por festes de rosas.
Os cavaleiros acenderam as tochas e pegaram fogo aos quatro cantos da casa de 
madeira, 
que comeou a arder em poucos minutos.
O prncipe Basmanov prosseguiu a leitura do veredicto escrito pelo czar:
"Ningum ser autorizado a libert-lo. Ningum se aproximar dele para o 
auxiliar. 
Ningum lhe tocar, porque isso significaria a morte."
Basmanov enrolou novamente a carta e olhou
Chemski:
-        Isto durar talvez trs dias - disse em voz baixa.
Iouriev e Basmanov montaram nos seus cavalos. O estalar da madeira que ardia 
abafou o 
rudo das patas dos cavalos que se afastavam. Alguns streltsy permaneceram no 
local. Dois deles 
faziam, permanentemente, sentinela ao condenado,  esquerda e  direita, para 
vigiarem aquele 
homem que tremia com dores, com os olhos fixos no incndio e que sentia 
lentamente, muito 
lentamente, a morte a subir pela sua perna direita.
Chemski viveu ainda dois dias e trs noites. Ardia em febre. J no era capaz de 
pensar. 
Diante dos seus olhos o mundo fundia-se num nevoeiro incandescente. J no 
sentia o sofrimento, 
mas apenas um frio glacial, apesar de estar debaixo de sol sem a menor proteco 
e de o calor 
trrido vindo da sua casa, destruida pelas chamas, chegar at ele.
Quando Chemski morreu, levantou-se vento e espalhou sobre o seu corpo as cinzas 
quentes. Desse modo a sua casa cobriu-o de uma mortalha.

-        Realizou-se um prodgio para ns - disse Massia Fillipovna abraando o 
marido. - 
Um mdico! O da sublime czarina!
Igor Igorovich Blattiev sacudiu o seu corpo macio e emitiu uns grunhidos 
horrorosos, 
mas a mulher pareceu compreend-lo, como se esses sons de ressonncias trgicas 
fossem 
verdadeiras palavras. Massia voltou-se para Trottau:
-        Ele diz que no h prodgios. Perdoa-lhe. A profisso dele endureceu-lhe o 
corao!
-        Que fazem nas caves? - perguntou Trottau, que se sentia paralisado. - Por 
que 
motivo lhe mandou o czar arrancar a lngua?
-        Foi Vassili, o grande czar. - Massia encolheu os ombros. Porque havia de 
dar 
explicaes? Tudo se passara h tanto tempo! Fora na poca em que pela primeira 
vez tinham ido 
procurar ursos, quando o czar Vassili, secundado por amigos, mandara cavar 
passagens 
subterrneas debaixo do Kremlin e tinha necessidade de um homem capaz de se 
calar para 
sempre.
A escolha recara sobre Blattiev, por acaso, mas Blattiev era forte como um 
touro e 
totalmente fiel ao czar, permanecendo assim ao ser-lhe imposta uma mudez eterna.

Desceram ento para o sepulcro de pedra debaixo do Kremlin. Nesse tempo, Massia 
tinha 
vinte e
trs anos e Igor trinta. A contar desse dia nunca
mais tinham sado desse labirinto de passagens e de salas subterrneas. Ele 
vivia  claridade das 
tochas e das lamparinas de azeite, no meio da humidade e do frio, rodeado por 
paredes cobertas 
de bolor, para realizar a tarefa de que o czar Vassili o encarregara e que agora 
continuava sob as 
ordens de Ivan e para o desempenho da qual convinha que ele fosse mudo.
"Irmozinho da Alemanha", pensava Massia, "mesmo que sejas mdico, de que serve 
contar-te?"
-         um testemunho de confiana que o honra - respondeu simplesmente Massia: 
- 
confiaram-lhe uma misso que exige silncio... - Deitou um olhar afectuoso ao 
monstro mudo e 
barbudo.
-  feliz, creia. Mas Xenia nasceu e h quatro anos que suplico ao czar que 
mande aqui um 
mdico. Mas ele no me ouve e uma vez que me lancei a seus ps continuou o seu 
caminho 
passando sobre mim como se eu fosse um degrau da escada... mas agora o senhor 
perdeu-se por 
aqui... - Olhou para Blattiev. - H milagres, Igor.
Igor soltou novamente um grito surdo, desumano, depois inclinou-se profundamente 
e 
ficou nessa atitude de total humildade, em perfeito acordo com o tmulo onde se 
esgotava a sua 
vida.
-        Ele diz que Deus lhe perdoe por no o matar, pois quem aqui aparecer, alm 
do 
czar e da czarina, deve ser suprimido. Igor esquec-lo- como se nunca tivesse 
vindo aqui!
-        Mas vim e vejo seres humanos a quem roubaram a vida!
Trottau olhou  sua volta.
Ali, as abbadas subterrneas eram diferentes das outras quej vira. Apercebera-
se do bom 
arejamento dessa sala e viu,  claridade das numerosas tochas, que se abriam 
outras a partir da 
encruzilhada em que eles se encontravam. Alcovas cujas aberturas estavam 
encobertas por 
portadas e salas fechadas com portas de madeira chapeadas de ferro. Trottau viu 
uma mesa, 
algumas cadeiras, um ba encostado  parede nua e sobre uma pequena mesa uma 
fila de vasos. 
Era a casa de um enterrado vivo. O universo do silncio de Blattiev.
-        Olha bem para mim, Igor Igorovich - disse Trottau, tocando com a mo no 
homem 
inclinado na sua frente. - Estars tu a guardar alguma coisa?  aqui que os 
prisioneiros 
desaparecem? Diz-se no Kremlin que eles se apresentam ao czar e que depois nunca 
mais 
ningum os v.
Massia fez-lhe sinal para no continuar:
-        Sois mdico, a doena  que vos deve interessar.
-        No sou apenas mdico, tambm luto contra a injustia!
Massia Fillipovna bateu as mos uma contra a outra.
-        Quanto tempo quereis viver, senhor? Vinde, acompanhai-me.
-        Para onde? Quero saber antes o que Blattiev tem por misso guardar aqui!
-        Tu vais ver.

Com um rugido, Blattiev interps-se entre a mulher e Trottau. Ergueu os braos e 
dobrou 
os dedos como garras. A sua grande cabea vacilava. Fez lembrar a Trottau um 
urso que 
balouasse a cabea atrs de uma porta munida de grades, perturbado pela 
terrvel monotonia do 
seu cativeiro.
Blattiev abriu a boca. Os sons que lhe saam da garganta eram assustadores. 
Depois 
apertou os punhos um contra o outro e rangeu os dentes. De sbito, Trottau 
compreendeu-o: "Se 
continuares a avanar, a perseguir Massia, tambm tu ficars aqui estendido por 
terra!"
Com uma fora que Trottau nunca julgara possvel naquela mulher, Massia agarrou 
o 
marido pelos ombros e sacudiu-o como se ele fosse um saco de ossos.
-        Que me importa o czar? - gritava ela. O czar ouviu-me? H quatro anos que 
lhe 
suplico: um mdico, senhor, s uma vez um mdico! Mas ele espezinhou-me e chegou 
a picar-me 
com o seu posoch. Queres ver a cicatriz que tenho nas costas? Queres v-la? V! 
V!
Afastou a roupa e mostrou as costas. Apareceu uma pele acinzentada e no ombro 
esquerdo a marca da ponta afiada da lana do czar.
Blattiev soltou um gemido rouco, tapou o ombro de Massia e, escondendo a cara 
entre as 
mos, voltou-se para a parede.
-        Venha - disse Massia a Trottau. - Venha ver. Uma me nada receia, nem 
mesmo o 
czar. A sua mezinha tambm era assim?
-        Mal a conheci, morreu nova. - Trottau aproximou-se de Blattiev e, 
agarrando-o 
por um ombro, virou-o para si.
-        Compreendo-te, tu tens medo, mas seja o que for que eu possa ver, sei 
calar-me 
como tu.
Blattiev fitou Trottau com um olhar suplicante. Sabia o perigo que representava 
para si 
uma s palavra dita a respeito do suberrneo existente por baixo do Kremlin.
"Tem piedade", diziam os seus olhos. "Na verdade, Massia  uma mulher corajosa. 
Teria 
de o ser para suportar vinte anos fechada num tmulo. Habituamo-nos a viver sem 
lngua,  luz 
das tochas, e quando o czar aqui vem baixamos a fronte e executamos as suas 
ordens como bois 
debaixo do jugo. Somos alimentados e vivemos em paz h vinte anos. Mas vai... 
segue a minha 
Massia... segue-a e ser sempre tempo de decidir a tua sorte..."
-        Tenho a confiana da czarina - respondeu lentamente Trottau, fitando o 
mudo bem 
no fundo dos seus olhos, que reflectiam todos os seus pensamentos. - Deverei 
falar-lhe de vocs?
Blattiev ergueu os braos num grito.
-        No! - exclamou Massia. - Isso seria a nossa morte, compreend-lo-s 
quando 
tiveres visto tudo. Vens ento? - acrescentou, deixando de o tratar por senhor e 
voltando a 
trat-lo por tu, acolhendo-o assim na sua comunidade subterrnea.
Trottau compreendeu-o e perdeu completamente o medo.
-        Que posso fazer aqui? - disse.
-        Ajudar-nos, irmozinho, se ainda te for possvel - acrescentou Massia em 
voz 
baixa. Percorreram juntos um corredor bastante curto at uma das portas feitas 
de grossas 
madeiras. Massia empurrou-a e afastou-se para o deixar passar.

Essa sala de paredes de pedra estava fortemente iluminada. Uma cama coberta de 
bocados 
de peles estava encostada  parede do fundo e sobre essa cama havia uma criatura 
humana que 
fixava Trottau com os seus grandes olhos azuis.
Uma criatura difana de compridos cabelos louros que lhe chegavam at ao cho. 
Uma jovem de tal modo irreal e bonita, triste e distante, que Trottau parou no 
limiar, incapaz de 
dar um passo.
-         Xenia - disse Massia. A sua voz traa um mundo de encantamento e de 
ternura maternal. - A nossa filha.

Captulo 4

Trottau foi arrancado ao seu torpor sbito pelos passos de Blattiev atrs de si. 
Sentiu o hlito dele na nuca, mas os sons desarticulados que saiam da garganta 
daquele infeliz j 
no o impressionavam. Olhava Xenia.
"Ser possvel?", pensava. "Uma flor num tmulo! Uma flor de frgil claridade 
como um floco de neve, cujos olhos vivem, o peito respira, cujos cabelos 
cintilam  luz das 
tochas, como se inmeras gotas de orvalho estivessem suspensas deles."
- Ele pede-te que examines Xenia! - disse Massia Fillipovna. - No sabes que 
prodgio representa para ns a tua presena! Nunca aqui veio um mdico. Quando 
Xenia nasceu, 
foi Igor que me ajudou. Tive a minha filha como uma rata, a um canto, sobre as 
lajes de pedra. 
Mas que bela rapariga ela se tornou! No entanto, parece doente... vive, mas  
como a luz de uma 
tocha que vai enfraquecendo pouco a pouco. Finalmente, no ser mais do que uma 
chamazinha 
prestes a apagar-se. A nossa filha, o nosso sol, vai-se consumindo, cada dia 
mais, como se se 
gastasse por ser to bonita.
Massia Fillipovna deixou-se cair diante de Trottau, de mosjuntas, e encostou o 
rosto aos 
joelhos dele.
-        Ajuda-a! - balbuciou. - Salva-nos! Que devemos fazer?
Trottau observava Xenia. Ela sorria-lhe. Era um sorriso triste, irreal, tal como 
a imagem 
de uma virgem nos icones dourados.
-        No estou doente - disse ela. Trottau teve um sobressalto. A voz de Xenia 
era 
clara e precisa, de uma sonoridade cheia de vida naquele tmulo. Era uma voz de 
tal modo cheia 
de juventude que Trottau sentiu um arrepio percorrer-lhe a espinha. - Eles dizem 
constantemente 
que estou plida. Como hei-de acreditar neles? Vejo-me ao espelho e estou sempre 
igual, mas as 
pessoas mudam quando esto doentes! A mezinha, uma vez, teve febre e estava 
muito vermelha 
e sem foras... Eu nunca estive vermelha nem perdi as foras. Ento porque hei-
de estar doente?
-        Existem outras doenas sem ser a febre - respondeu Trottau. Essas palavras 
foram 
ditas com extrema dificuldade, pois ele sentia um n na garganta.
Massia agarrou-lhe as mos.
-        Cura-a - suplicou.
Trottau ouvia atrs de si os sons roucos emitidos por Blattiev. "Tambm ele me 
suplica", 
pensou Trottau profundamente comovido. "Suplica,
este monstro sem lngua que  o pai deste anjo. S isso j  um prodgio."
-        Preciso de a examinar - explicou, com dificuldade, Trottau.
-        Deus te recompensar, irmozinho! - Massia ergueu-se. - Xenouchka,  um 
mdico famoso, o da czarina...
Um relmpago brilhou nos olhos da jovem:
resistncia, dio, curiosidade, nostalgia... Que seria? O seu rosto animou-se 
misteriosamente e 
perdeu a sua irrealidade. Ela humanizava-se.
-        Ela vai morrer? - perguntou Xenia sem prembulos.
Trottau sentiu-se novamente assombrado.

-        No!
-        Porque no est ela gravemente doente e no morre?
-         uma tolinha. No lhe ds ouvidos! - exclamou Massia antes de Trottau ter 
tido 
tempo de responder. Blattiev passou entre os dois e avanando para a filha deu-
lhe uma bofetada 
to brutal que a cabea dela foi atirada para trs.
"Ele vai mat-la", pensou Trottau, assustado. Empurrando Massia, deu um salto e 
deixou 
cair os dois punhos sobre a nuca de Blattiev.
Blattiev, porm, nem se mexeu. Se bem que Trottau no fosse fraco e tivesse 
conscincia 
da fora dos seus punhos, o monstro sacudiu a cabea como se se tratasse de 
gotas de gua 
cadas de uma fenda do tecto. Voltou-se devagar e olhou tristemente para 
Trottau. Da sua boca 
saam outra vez aqueles sons arrancados a custo  sua garganta. Massia traduziu:
-        Igor Igorovich lamenta a maldade da sua filha. Ns todos amamos a czarina. 
Era 
preciso corrigir Xenia. Devamos isso  czarina.
Trottau olhava Xenia. Ela continuava sentada em cima da cama e conservava a 
mesma 
atitude, numa imobilidade quase completa. S os seus olhos mantinham uma 
expresso 
inexplicvel que abarcava tudo e dava um significado  sua existncia.
"Que pavor eles devem sentir da czarina", pensava Trottau, "para que Blattiev 
seja capaz 
de bater to cruelmente naquilo que tem de mais querido!"
-        Deixem-me s com Xenia! - disse em voz alta. Era uma ordem que Massia no 
esperava. Hesitante, recuou um passo mas continuou no quarto. Blattiev no se 
mexeu. Encolheu 
os ombros e resmungou surdamente.
-        Porqu? - perguntou Massia.
-        Pediram-me para examinar Xenia!
-        Que o cu te recompense, irmozinho, mas permite que eu esteja presente.
-        Tenho perguntas a fazer.
-        Sero perguntas que uma me no possa ouvir?
-        Incomoda-me sentir algum nas minhas costas quando examino um doente. 
Mesmo com a czarina fico sozinho.
-        Tambm mandas sair o czar?
-        Ele ainda no esteve em Moscovo desde que eu trato a czarina, mas quando 
ele 
regressar, se quiser que eu a examine, ter de sair da sala onde ela estiver.
-        Ele mandar-te- enforcar, esquartejar, lanar-te aos ursos.
-        Que ursos?
-        J chega! - Massia fez um grande gesto e Trottau teve a impresso de que 
ela j 
dissera mais do que queria e que o lamentava. Os resmungos de Blattiev tambm se 
tinham 
tornado mais baixos e ameaadores.
"Deve haver aqui debaixo do solo um segredo maldito", pensou Trottau. "Por que 
razo 
vivem eles aqui? E por qual motivo tero arrancado a lngua a Blattiev? Para 
maior segurana?"
Olhou novamente para Xenia e fez-lhe um sinal. Aquele mistrio enterrado sob o 
Kremlin 
intrigava-o extremamente. O seu caminho subterrneo tornara-se agora uma 
pesquisa, um dever; 
queria saber a verdade a respeito daquilo em que Blattiev se ocupava e sondar a 
alma de Xenia!

Trottau pensava em Maria, que o esperava l em cima e que no podia encarregar 
ningum de o ir procurar ao labirinto, sob pena de perder a possibilidade de 
viver o seu amor 
secreto. Sem dvida corria em todos os sentidos no seu imenso quarto, iluminado 
por tochas, 
lanava-se sobre a cama de peles, ia parajunto do alapo, iluminava a entrada e 
depois 
afastava-se, torturada pela inquietao.
-        Para examinar Xenia preciso que ela se dispa - explicou Trottau com a sua 
voz 
calma de mdico.
-        Se Xenia tiver que se despir, f-lo-, mas Deus e Igor Igorovich castigar-
te-o se 
nos enganares e ao mesmo tempo enganares Xenouchka!
Massia empurrou o seu marido para fora da sala,  frente dela, e ele obedeceu-
lhe, 
limitando-se a resmungar em surdina. Trottau ficou s com Xenia.
A jovem ergueu-se da cama e pegou no vestido com as duas mos para o tirar. No 
seu 
gesto no havia vergonha nem hesitao. Porque havia de incomod-la o sentir-se 
nua? Que 
diferena havia em estar metida naquele vestido em forma de saco ou em ficar 
nua?
Xenia ignorava a impresso que um homem pode sentir  vista de um lindo corpo de 
mulher nu. Ou t-lo-ia aprendido? E como teria rido se lhe tivessem dito: 
"Xenouchka, tu s 
deslumbrante. Amo-te!" Ignorava tambm a existncia do amor, pois conhecia 
apenas o pai e a 
me.
Xenia tirou ento o vestido e ficou nua em frente de Trottau.
-        Onde estou eu doente? - perguntou, apoiando-se contra a mesa. Atrs do 
cortinado que cobria a porta,  claridade das tochas, ela via uma sombra macia. 
A mezinha 
Massia velava!
Trottau no respondeu. Olhava esse corpo maravilhoso e pensava na czarina que 
devia 
esper-lo estendida sbre a cama. Alguns metros de terra e de pedra a separavam 
dele. L em 
cima reinava a vida dos sentidos, mas ali em baixo, naquele sepulcro hmido, 
vegetava uma flor 
cuja beleza admirvel era difcil de descrever.
-        Que idade tens tu? - perguntou Trottau. Tinha dificuldade em falar com 
calma, 
sem paixo, concentrando-se apenas na doena, esquecendo que se tratava da mais 
bela jovem do 
mundo.
-        A mezinha diz que tenho dezanove anos.
-        Nunca estiveste doente?
-        Nunca.
-        Tosses?
-        A mezinha e o paizinho tambm tossem. Isso  uma doena?
-        Volta-te.
Ela voltou-se e Trottau encostou o ouvido s
omoplatas dela. O contacto com a pele dela quase
o fez desfalecer. Dos seus poros emanava um perfume semelhante ao da erva ao 
sol. Foi aquilo 
que
o comoveu mais profundamente, esse perfume de
vida no fundo de um sepulcro.
-        Respira - disse com a garganta seca. - Respira com fora!

Xenia obedeceu e Trottau apercebeu-se imediatamente, com uma preciso absoluta, 
sem 
que a menor dvida fosse possvel, desse ronco cavo, como se a morte passeasse, 
desenvolta, 
assobiando a sua cano.
"Tem os pulmes atrofiados", dizia Trottau para consigo, "esto a deteriorar-se 
neste belo 
corpo! Quanto a esta criana, no desconfia de coisa alguma. Vai estiolar-se 
cada vez mais e 
assemelhar-se verdadeiramente a essa tocha de que Massia falou: em breve no 
ser mais do que 
uma chamazinha prestes a extinguir-se."
Xenia observava-o atravs da cortina da sua luxuriante cabeleira loura.
-        Encontraste a doena, mdico da czarina?
-        Ouvi-a com os meus ouvidos...
-        E que te disse ela?
-        Disse-me: preciso de sol, de vento, de calor para me curar, e tambm do 
perfume 
das flores, do ar livre... eis o que diz a doena... Sabes o que  o Sol?
-        A mezinha falou-me dele... - Xenia encostou-se  parede e apertou as mos 
uma 
na outra. - O Sol  qualquer coisa que est suspensa do cu e que aquece e 
ilumina.
-         certo. E tu precisas de ver o cu e o Sol:
ser para ti o melhor remdio.
A pesada cortina que cobria a porta afastou-se e Massia apareceu, indignada.
-        Tu dizes disparates! - gritou. Atrs dela vinha Blattiev empunhando um 
grosso 
cajado. Trottau ergueu-se de um salto e foi colocar-se diante de Xenia para a 
proteger.
-        Sabes bem que tenho razo, Massia Fillipovna. A tua filha sufoca aqui!
-        Isso  impossvel!  o mesmo que desejar que Igor volte a ter a sua 
lngua! Que 
belo remdio: ar e sol!
-        Ela est tsica! Conheces a doena da tua filha to bem como eu, Massia!
-        Devo rodear a minha filha de tochas para substituir o Sol? Tu s um homem 
sbio. 
Encontra outro remdio.
-        A tua filha s se curar se viver ao ar livre.
-        Impossvel! - gritou Massia. - Ns devemos permanecer aqui. O czar 
proibiu-nos 
de subir  superfcie!
-        Que me importa o czar! Quero curar Xenia.
-        E curar-nos-emos se ele nos mandar extripar a todos diante do Kremlin? Tu 
s 
louco, irmozinho vindo da Alemanha. Um pobre idiota! J chega! - Massia ergueu 
as mos. - 
Vem! Vou conduzir-te at  escada que vai dar ao jardim, depois desaparecers 
para sempre, 
irmozinho! V bem o cajado que tem Igor. Atingir o teu crnio e tu cairs como 
uma rvore 
abatida!
Trottau voltou-se para Xenia. Ela permanecia sentada sobre a cama, nua, com a 
sua 
cabeleira de ouro cada  sua volta, irrealmente bela.
-        Voltarei - disse Trottau. - Mostrar-te-ei o sol e as flores nos prados.
-        No mostrar coisa alguma - gritou Massia. - O paizinho mat-lo-!
-        E eu matarei o paizinho! - replicou desenvoltamente Xenia. - Quando 
voltas?
-        Amanh, Xenia.

-        Reza pela tua alma! - Massia puxava Trottau para fora da sala, depois 
empurrou-o 
na frente dela at que de novo os corredores se tornaram mais estreitos e mais 
escuros, mais 
hmidos. Arrancou uma tocha da parede e meteu-a na mo de Trottau, dizendo: - 
Caminha 
sempre em frente!
Avanaram em silncio atravs de diversas passagens at ao momento em que 
chegaram a 
um corredor cuja abbada era mais elevada. Massia parou a e estendendo a mo 
para a direita, 
disse:
-        Por ali chegars  escada que vai dar ao jardim.
Trottau olhou  sua volta. Sabia onde se encontrava. Fez um gesto para a 
esquerda.
-        Em seguida  preciso meter pelo terceiro corredor transversal  direita,  
a que 
comea a escada que vai terminar por baixo do gabinete do czar.
-        No sei nada disso. Boa sorte, mdico.
-        At amanh, Massia Fillipovna.
-        Blattiev esmigalhar-te- o crnio!
-        No far nada disso, pois gosta tanto da filha como tu! Compreendam que 
hei-de 
curar Xenia. Amanh lev-la-ei para a luz do dia!
-        Para isso ters de me matar a mim e a Igor!
-        Talvez o faa - replicou Trottau com voz surda. - No deixarei morrer 
Xenia. Meu 
Deus, como o medo se entranhou nos vossos coraes! Ajudem-me! Trata-se da vossa 
filha!
-        No conheces o czar! - Massia agarrou bruscamente a mo de Trottau e 
beijou-a. - 
Paizinho, esquece-nos. Esquece que nos viste! Ser melhor para todos ns!

Maria acolheu Trottau com um grande grito. Atirou-se contra ele, rodeou-o com os 
seus 
braos e caiu com ele em cima da grande cama.
-        Ests vivo! - balbuciou ela. - Chorei de medo por ti, meu Andrei! Onde 
estavas? 
Porque no vieste, meu adorado?
-        Perdi-me - respondeu Trottau. - Aqueles malditos corredores... Mas acabei 
por 
encontrar o meu caminho. Oh, Maria, que noite!
Ela apertou-se contra ele e rodeou-o inteiramente com o seu calor ardente.
-        O czar vem a caminho de Moscovo - murmurou. - Cavalga dia e noite... Meu 
urso 
louro, precisamos de saborear cada instante que nos resta como uma taa de vinho 
da Hungria... 
Sinto frio no corao ao pensar nos abraos de Ivan.
A noite foi breve. A czarina nos braos de Trottau consumia-o, forando-o ao 
contacto 
com o seu corpo escaldante. Mas enquanto Trottau deixava passar sobre si aquele 
furaco de 
fogo e Maria no percebia com que tormentos ele suportava o amor dela, no 
conseguia deixar de 
pensar em Xenia.
"Dar-lhe-ei o Sol", dizia para consigo, "e a alegria de viver que ela no 
possui."
-        Meu urso louro - murmurava a czarina.
-        Mariouchka - respondeu ele, mas pensava:
"Xenia, amo-te. Levar-te-ei para a vida!"

Captulo 5

Durante todo o dia, desde a madrugada ao crepsculo, o czar cavalgava, vindo da 
Litunia e dirigindo-se para sul, para Moscovo. Dormia de noite nas mudas dos 
cavalos, de onde 
os streJtsy expulsavam os ocupantes com chicotadas, para poupar ao seu sublime 
senhor, 
abenoado por Deus, a vista do povo grosseiro. s vezes, Ivan passava a noite 
nas cidades por 
onde seguia o seu itinerrio, depois, logo de manh, voltava a montar a cavalo, 
com os olhos 
postos no horizonte onde devia ficar Moscovo, e pensava na mensagem que Chemski 
lhe enviara: 
"A czarina tem um amante."
-        Mais depressa - ordenava Ivan -, mais depressa! Quero chegar a Moscovo 
quando toda a gente me julgar ainda em Dorpat, em casa de Kourbski. Que 
despertar eles vo ter! 
J os vejo a gemer na minha frente como ces. Todos, todos ces! Para a frente!
Esporeou o cavalo e inclinou-se sobre o pescoo da sua montada  maneira dos 
Trtaros. 
Um demente, que tinha direito de vida e de morte sobre os outros, aproximava-se 
de Moscovo.
Dessa vez nenhum dos habituais mensageiros seguia  frente do monarca para 
anunciar a 
chegada do grande czar.
Normalmente tais mensageiros desempenhavam um papel de aviso: cada boiardo 
passava 
revista  sua conscincia, com receio de ter feito qualquer coisa que pudesse 
irritar Ivan. Cada 
funcionrio da corte punha os seus livros em dia e o gro-mestre da corte revia 
as suas contas, 
assim como o primeiro-camareiro mandava limpar as salas do Kremlin. S o filho 
do czar, triste e 
silencioso, como sempre, plido e metido em si mesmo, permanecia nos seus 
aposentos e se 
preparava para beijar o pai trs vezes nas faces.
Dessa vez, no entanto, as coisas passavam-se de outra maneira. Moscovo no sabia 
que o 
czar se aproximava. S um mensageiro vinha a caminho, o enviado pelo prncipe 
Basmanov, que 
levava ao czar uma carta do seu amo.
-        Chemski morreu - disse Ivan aps ter lido a missiva, que em seguida rasgou 
cuidadosamente. Olhou para os seus companheiros de viagem com uma expresso 
dura. - 
Devemos esquecer Chemski. Ele nunca viveu.
Mas aquilo que o boiardo, agora morto, afirmara, continuava a viver no corao 
de Ivan: 
era um veneno que o roa lentamente, enquanto cavalgava sem trguas para o Sul: 
pensava no 
tempo em que vira Maria pela primeira vez. Lembrava-se da guerra contra os 
Trtaros, na 
rendio do prncipe tcherkesse Temriouk Tcherkassky, no mar de sangue que 
correra sobre as 
estepes.
Fora nesse solo saturado de sangue que ele conhecera Maria. Vira-a pela primeira 
vez 
apenas como uma mulher entre centenas de outras, que, imveis e silenciosas, 
esperavam a sorte 
dos vencidos.
Nesse dia Ivan, vestido de preto, percorrera a cavalo a fila de mulheres at ao 
instante em 
que descobrira Maria, jovem e bela como ele ainda no vira outra, com a sua 
longa cabeleira 
negra. O olhar desses olhos ardentes forara Ivan a fazer parar o seu cavalo.

Tinham-se olhado em silncio e Ivan afastara-se silenciosamente. Sem que ningum 
se 
tivesse apercebido disso, ele fora vencido num duelo. Aquela rapariga 
maravilhosa no baixara os 
olhos nem inclinara a cabea. Enfrentara o olhar do sublime czar, sabendo 
perfeitamente que essa 
bravata significaria a morte. Mas Ivan no fizera sinal a nenhum streltsy. 
Chegara at a sorrir 
imperceptivelmente, um sorriso cruel, de quem apreciara a situao... depois 
continuara a avanar 
a cavalo. Ao chegar ao fim da fila de mulheres, Ivan erguera a mo direita 
coberta com a luva 
eriada de pontas de ferro. O massacre cessara. O olhar de Maria salvara a vida 
a centenas de 
trtaros.
"Comecei logo a am-la", pensava Ivan esporeando a sua montada. "Ela  a mais 
bela das 
mulheres da minha vida, a mais selvagem e a mais terna, uma mulher que  preciso 
reconquistar 
continuamente.  isso que me une a ela e me priva, a mim, o maior monarca deste 
mundo, de toda 
a minha vontade, quando estou nos seus braos. Quando o corpo dela, de pele to 
branca, est 
estendido na minha frente, perco a razo. Sei que nunca levo a melhor, que 
quando a manh 
chega, estou vacilante sobre as peles do meu leito. Mas ela est ali, coberta 
apenas com a sua 
cabeleira e eu ouo a sua voz provocante: "Ivanouchka, como a vida  bela!" E 
eu, estendido 
sobre a minha cama, apenas lhe posso responder: "Minha pomba, a tua beleza 
matar-me-!"
Ser sensato deixar sozinha durante meses uma tal mulher? Que faz ela do fogo em 
que 
arde?
O czar olhava para longe, por cima da cabea da sua montada. "O meu imprio 
pesa-me", 
pensava, "e no paro de fazer conquistas. A leste, o mundo estende-se at ao 
infinito em florestas 
atravessadas por rios gigantescos. So regies cheias de incomensurveis 
riquezas, povoadas de 
zibelinas, de martas, cheias de ouro, de diamantes, de minas de sal, de solo 
frtil... Uma regio 
digna das lendas: a Sibria. Mercadores e aventureiros, monges e pesquisadores 
solitrios tinham 
falado dela. Que regio aquela, se tudo o que se dizia era verdade! Que riquezas 
para a Rssia se 
ela fosse conquistada!
O que era, em comparao, a Inglaterra com a sua orgulhosa rainha Isabel? E 
Maria 
Stuart com a sua Esccia? E que z-nihgum esse Fernando I, esse imperador da 
Alemanha, esse 
Habsburgo! E os espanhis? Esse Carlos V fanfarro que proclamava: 'No meu 
imprio o Sol no 
se pe nunca!' Onde est ele agora? Morto num convento! E o seu herdeiro Filipe 
II, ou esses reis 
da Frana, ou ainda esses reis da Sucia... todos nulidades, que nada valem em 
relao  Rssia e 
aos seus czares!
Onde existir um pas to ilimitado, to belo, rico, novo, poderoso, como a 
Rssia? 
Precisa apenas que se lhe junte a Sibria..."
Ivan ergueu a cabea coberta por um capacete pontiagudo. "Maria ajudar-me-", 
pensou. 
"Estando a meu lado, ela aumentar o meu imprio. No voltarei a deix-la 
sozinha."
-        Mais depressa! - gritou o czar. - Mais depressa! Que caiam dos seus 
cavalos e 
morram aqueles que estiverem fatigados!

At s onze horas da manh Trottau tinha tratado os doentes do Kremlin e 
distribudo ps 
e unguentos. O filho do czar seguira os seus conselhos de respirar muito ar puro 
e encontrava-se 
constipado, por isso retirara-se novamente para os seus aposentos sufocantes.

-        Sinto-me mal, Trottau - dizia, queixoso, voltando a vestir-se depois de o 
mdico o 
ter auscultado cuidadosamente. - Parece que nasci na Rssia para o seu clima me 
matar. - 
Ofereceu a Trottau um clice de vinho da Hungria e olhou pela janela para o 
jardim do Kremlin. - 
Gostava tanto de ir a Frana! Conheces a Frana?
-        Um pouco, Ruo, Reims, Orlees, Paris...
-        Paris!  o corao do mundo!
-        O czar diz que o corao, o centro do mundo,  Moscovo! - replicou 
Trottau.
-        Moscovo! Olha  tua volta! No passa de um lugar de execuo, em que as 
casas 
parecem ter sido feitas com as ossadas dos condenados, cujas pedras foram 
cimentadas com 
sangue!  isto o mundo?
-        Deveis falar ao czar do vosso desejo de ir a Paris, senhor.
-        Meu pai nunca fala de Paris. Mandar-me-ia espancar at eu esquecer o nome 
dessa 
cidade, se eu lhe falasse dela. - O filho do czar apoiou a testa contra a parede 
forrada de seda. - 
Pai...
- murmurou muito baixo -, cada pessoa diz essa palavra com ternura e afeio e 
eu sinto frio 
quando a pronuncio. - Evitava olhar Trottau. - Podes ir, mdico. Esquece que 
falaste comigo...
-        Tenho um pedido a fazer-vos - disse Trottau. Aproximou-se do filho do 
czar; sob 
a janela, por baixo deles, estendia-se um jardim cercado de altos muros. 
Arbustos em flor, ervas 
de um belo verde, grupos de rvores, um poo com uma roldana com um parapeito de 
madeira 
esculpida. Viso quase alde, como se encontra nas margens do Dniepre ou do 
Volga, se no 
fossem aqueles altos muros de tijolos vermelhos que cercavam aquela paz e a 
mantinha 
prisioneira.
-        Poder dar-se o caso de eu poder oferecer-te alguma coisa? - perguntou 
amargamente o filho do czar. - Um pssaro na gaiola pode apenas cantar!
-        Peo a graa de poder utilizar o vosso jardim...
-        Concedo-ta! - O filho do czar riu com uma pontinha de inquietao. - 
Porque 
desejas tu esse jardim, mdico? Queres l cultivar boas plantas medicinais para 
acalmar o desejo 
de sair daqui? Se assim for, serei eu o primeiro a reg-las regularmente!
-        Quero apenas um pouco de sol, o cu e o ar puro onde ningum se aventurar 
alm de eu prprio e dos meus doentes, que precisam de ar puro para se curarem.
-        Conheo as tuas ideias loucas, mdico.
Manda os teus doentes apanharem ar, isso no me
importa. Quero apenas ver-te de tempos a tempos
e dizer-te aquilo que no posso dizer ao czar. Sers
o recipiente para onde lanarei as guas sujas.
-        No  uma m troca - respondeu Trottau inclinando-se profundamente. "Agora 
Xenia tem tudo o que precisa", pensava. "Lev-la-ei nos meus braos para o sol, 
que aspirar a 
sua doena como um orvalho cado durante a noite."

Captulo 6

Por volta do meio-dia, Trottau voltou a descer ao subterrneo. Levava consigo um 
candeeiro que dava uma claridade forte, um cesto com frutas para Massia e um 
frasco de vodca 
para Blattiev.
Dessa vez Trottau no vagueou muito tempo pelas passagens escuras. Como se 
tivesse surgido do solo, Massia apareceu diante dele. Sem dvida o seu ouvido 
apurara-se durante 
os vinte anos de recluso debaixo da terra e ela ouvia to bem como um rato e 
deslocava-se em 
silncio, como um fantasma.
-        Vai, idiota! Blattiev esmagar-te- o crnio como um ovo!
-        Venho para levar Xenia para apanhar os raios do Sol!
-        Queres tu dizer para nos condenares a todos  forca? Para continuarmos a 
viver teremos de te fazer desaparecer!
-        Mas Xenia morrer.  to certo como Igor ter a lngua arrancada!
-        Eu sei. Entre ontem e hoje decorreu uma s noite. Bastou isso para que nos 
resignssemos. No se pode fugir ao destino!
Massia voltou-se e seguiu pelo corredor inclinado.
Das paredes espessas, cheias de humidade, vinha um cheiro horrvel a podrido.
Trottau seguiu Massia e s parou quando viu que ela se detinha alguns passos 
mais 
adiante.
-        Volta para trs - disse Massia. - Ocupa-te da czarina.
-        Ela foi caar para Novo Bougetchev e s regressar  noite.
-        Porque no a seguiste?
-        Disse-lhe que precisava de tratar o filho do czar, o que fiz, pedindo-lhe 
como 
honorrios o emprstimo do seu jardim, que reservo para Xenia. Ningum a 
incomodar, nem 
sequer a vera. O filho do czar  meu amigo.
Massia envolveu-se melhor no xaile que lhe cobria os ombros.
-        Suplico-te, estrangeiro, afasta-te, no poderei impedir Blattiev de te 
matar.
Continuou a andar e Trottau seguiu-a. No se considerava muito corajoso, mas no 
tinha 
receio de Blattiev. Era mdico e havia ali uma doena  qual ele declarara 
guerra. Essa doena 
roa o corpo de uma jovem que ele comeava a amar. Esse facto impunha-se mais ao 
seu esprito 
do que qualquer ameaa.
O corredor alargava-se e comeavam as salas. Era a casa dos Blattiev.
-        Eu posso apenas rezar, rezar - murmurava Mas sia.
Subitamente Blattiev apareceu na frente deles, um pouco inclinado para a frente, 
como um 
macaco gigantesco que fosse atacar.

-        Ouve-me! - exclamou Trottau parando a alguns metros de Blattiev.  sua 
volta, as 
tochas presas s paredes emanavam um cheiro forte e estranho que penetrava na 
garganta e lhe 
fazia lembrar o cheiro dos animais selvagens. - Xenia  a tua nica filha, Igor 
Igorovich. Tu tens 
por ela uma enorme dedicao e se vires que ela se vai depauperando pouco a 
pouco, at morrer, 
o teu corao ficar dilacerado... Queres que te descreva a morte dela passo a 
passo? Ser fcil.  
um espectculo que observei muitas vezes. Vi homens fortes como rvores serem 
abatidos e 
mulheres mais fortes do que a tua Massia ficarem reduzidas a um pequeno monte de 
ossos que 
uma criana poderia carregar. Que pensas fazer por Xenia aqui debaixo da terra? 
Eu posso 
ajud-la, compreendes? Dar-lhe-ei a mo para lhe mostrar as flores, os pssaros, 
as nuvens. Ela 
aprender a conhecer o vento, a neve, o maravilhoso frio seco... e ela 
respirar, o ar puro encher 
os seus pulmes. Assim venceremos a morte, Blattiev!  assim que te devolverei a 
tua 
Xenouchka!
Trottau respirou fundo.
-        Agora mata-me, Igor Igorovich! Matars ao mesmo tempo a tua filha!
Blattiev no se mexeu. Deixou o mdico aproximar-se dele e quando ficaram um 
perto do 
outro, abraou-o e atraiu-o contra si, emitindo sons ininteligveis. Depois 
pousou uma das mos 
sobre o ombro dele e comeou a chorar.
Junto da escada que ia dar ao jardim, pararam. At ento Trottau conduzira Xenia 
dando-
lhe a mo como a uma criana e ela seguira-o sem dizer uma palavra. Agora era 
preciso prevenir 
Xenia daquilo que iria ver a seguir. Era quase como preparar uma cega para ver a 
luz do dia, que 
certamente a iria assustar e perturbar.
Antes de se separarem da filha, Massia abenoara-a e Blattiev rasgara um pedao 
de pano 
e pusera-o sobre os seus prprios olhos, gesticulando e emitindo sons roucos. 
Trottau 
compreendeu que ele temia que a claridade forte do dia fizesse mal aos olhos da 
filha e que 
achava melhor cobri-los com um pano.
- No - dissera Trottau com a voz rouca de emoo -, a tua filha no ficar cega 
pelo sol, 
prometo-te, Igor Igorovich!
Os dois jovens encontravam-se agora diante do alapo da sada para o jardim e 
bastava-lhes dar um passo para chegarem  verdadeira vida.
- Tenho medo, Andrei - disse Xenia em voz baixa.
Chamava-lhe Andrei, como a czarina, mas quando Xenia pronunciava esse nome ele 
tinha 
uma ressonncia completamente diferente. Era um murmrio tmido, triste, como se 
ela pedisse 
desculpa por o pronunciar...
Trottau rodeou com um brao aqueles ombros estreitos que estremeciam e apertou-a 
contra si.
-        Tens medo? De qu, Xenia?
-        Do sol...
-        O sol  a vida. - Pousou as mos sobre o alapo. - Vs? Empurro este 
alapo 
muito devagar. Ele vai abrir-se e a luz do Sol cair directamente sobre o teu 
rosto!
Xenia respondeu com um baixar de cabea, mas quando Trottau empurrou o alapo 
ela 
ps o leno de Blattiev sobre os olhos, ergueu a cabea e fechou os seus 
pequenos punhos.
Era como se estivesse na plataforma de um patbulo e esperasse assim o seu 
primeiro 
encontro com o dia.

Trottau foi empurrando o alapo pouco a pouco. O corao batia-lhe 
aceleradamente. L 
fora brilhava um sol quente, de Vero. Isto passava-se pouco depois do meio-dia, 
a cancula 
pesava sobre Moscovo. Dir-se-ia que a cidade era um po a torrar sobre um fogo 
de pedra.
Xenia encolheu-se.
-        Porque  que esto tantas tochas acesas? balbuciou.
-        No so tochas.  o calor do Sol.
-        Sopra qualquer coisa quente...
-  o vento.
-        Quero voltar para Junto do paizinho, Andrei
-        Falta apenas um passo para a vida, Xenia, s um passo. Vem, vou conduzir-
te e 
apoiar-te-s em mim.
Trottau rodeou outra vez Xenia com um brao. Ela atirara a cabea para trs, com 
o leno 
sobre os olhos. Subiram assim os ltimos degraus e em breve se encontraram de p 
no meio das 
ervas altas. As rvores murmuravam ao vento. Das roseiras presas aos muros vinha 
um perfume 
suave e os pssaros chilreavam por entre os arbustos, por cima deles.
-        O que  isto? - perguntou baixinho Xenia. - Estas vozes... tenho medo, 
Andrei...
-         apenas um momento, Xenia, abre os olhos... - Tirou-lhe o leno dos 
olhos, mas 
Xenia fechou as plpebras e agarrou-se a ele. Trottau ps-lhe a mo sobre os 
olhos e beijou-a na 
testa.
- Abre os olhos, Xenia - disse ofegante. - Peo-te...
- Tenho-os abertos, Andrei. - Ela tremia cada vez mais. Pela primeira vez na sua 
vida via a 
claridade da verdadeira luz. - A claridade passa por entre os teus dedos...
- Tu vais ver, Xenia... ateno! - Trottau abraou-a com o brao esquerdo. - 
Xenouchka, 
vais nascer pela segunda vez! - Tirou bruscamente a mo de cima dos olhos de 
Xenia e viu o seu 
olhar azul, os seus olhos muito abertos. Apontou com um gesto largo para tudo o 
que os rodeava: 
ervas, rvores, arbustos, flores, cu, nuvens. - V, Xenia, este mundo!
- Meu Deus - disse ela num murmrio -,  portanto assim.  belo, muito belo!
De repente dobrou os joelhos e caiu apoiando as duas mos no solo e permanecendo 
ajoelhada. Trottau no a ajudou. Ela sofria um choque que precisava de 
ultrapassar sozinha. 
Xenia acariciava as ervas e rodeava com os seus dedos curvados uma rosa.
- Isto  a erva? - perguntou. -  isto uma flor?
- Sim, Xenia. - Trottau ajoelhou ao lado dela e afastou a cortina de cabelos que 
lhe cobria 
a cara.
- Ali em baixo...  uma rvore?
- Sim. Uma btula...
Xenia inclinou a cabea para trs e olhou um grupo de nuvens que vogava 
lentamente sob 
o sopro do vento no cu azul infinito.
- E aquilo, l em cima?
-  uma nuvem. O vento empurra-a pelo cu at que ela se disperse ou se junte a 
outras 
nuvens. Ento chover...
- E o vento?
- Ests a senti-lo passar sobre a tua pele. Essa carcia invisvel...
-  bom. Gosto de sentir o vento!
Antes mesmo que Trottau pudesse impedi-la de o fazer, ela despiu-se. A sua 
nudez,  luz 
dourada do Sol, subjugou-o. Ficou de joelhos perto dela, enquanto Xenia se 
deixava cair sobre a 
erva abrindo os braos para abraar o vento.

Trottau olhou para as janelas dos aposentos do filho do czar, mas nada se via. 
Os pesados 
cortinados estavam corridos. O herdeiro do imprio russo encontrava-se 
entrincheirado nos seus 
exguos domnios.
Xenia permaneceu deitada ao sol durante alguns minutos, sem nada dizer, olhando 
o cu, 
acolhendo todas as suas novas descobertas como um conto de fadas.
- Se nos encontram aqui, enforcam-nos
-        disse ela de repente. - Mas eu no tenho medo. No se pode pagar tantas 
belas coisas nem 
sequer com a vida, Androuchka!
- Aqui ningum nos ver.
- Mas o jardim pertence ao filho do czar!
- Sim, ele emprestou-mo.
- Pode-se emprestar uma coisa to bela? E se o filho do czar disser: "Saiam do 
meu 
paraso", teremos de nos ir embora?
- Sim.
- Ento fiquemos aqui enquanto pudermos. - Xenia olhava Trottau. - Por que 
motivo ests 
todo vestido de preto, Androuchka? A tua roupa, os teus sapatos, enquanto aqui 
tudo  to 
colorido?
-  o traje dos mdicos. O czar assim o quer.
-        No vejo aqui o czar... - Pousou as mos sobre a cabea de Trottau e 
olhou-o 
rindo. - Despe-te como eu. Mostraste-me o Sol e, no entanto, pareces fugir dele. 
No disseste que 
a pele devia respirar? Tu no ters pele, Androuchka?
-Xenia... - Trottau fechou os olhos. Ela no podia adivinhar o desejo de um 
homem, 
aquele impulso que sentia para com ela, o corpo a arder que s outro corpo 
poderia apaziguar. 
Ou t-lo-ia aprendido?
- No gostas ento do Sol? - continuou Xenia. - Gabas os seus mritos, mas 
desdenha-lo.
Com as mos trmulas Trottau despiu-se. Xenia pousou-lhe a mo sobre o peito e 
apoiou 
a cabea no ombro dele.
- Tens razo - disse ela -, nada  to bom como estar ao sol.
Xenia no se defendeu quando Trottau, atraindo-a a si, a beijou. No conhecia 
aqueles 
beijos, lbios contra lbios. Olhava-o com um imenso assombro. Depois abriu a 
boca e bebeu o 
filtro desconhecido, maravilhoso, que propagava ondas por todo o seu corpo. 
Agarrou-se a 
Trottau como se estivesse a afogar-se. Xenia no sabia o que era fazer amor, mas 
durante esse 
beijo compreendeu que tudo mudara.
L em cima, encostado  janela, por detrs do pesado cortinado, o filho do czar 
observava, com os seus olhos ardentes e fixos, os apaixonados que se abraavam a 
seus ps.

Captulo 7

Aps uma hora de divino repouso, de respirao deliciosa, de sol, durante a qual 
o 
amor foi crescendo, de beijo em beijo, tornando-se cada vez mais ardente, 
Trottau levou-a de 
novo para junto dos pais, para o seu universo subterrneo.
O choque que ela sentiu ao regressar viu-se claramente. Apertou-se contra 
Trottau, encostou a cabea ao ombro dele e comeou a tremer cada vez mais  
medida que ia 
penetrando mais profundamente naquele sepulcro hmido.
O retiro dos Blattiev apareceu, enfim, no corredor que passava diante da porta 
da 
sua sala. Massia Fillipovna encontrava-se ali, grande, formidvel, sombria. 
Ouviram Blattiev 
resmungar perto dali. O seu ouvido apurado apercebera-se dos passos deles e 
pouco depois ele 
aparecia, macio, semelhante a uma montanha.
Trottau sentiu Xenia apertar-se mais contra si e a sua mo crispar-se sob o seu 
brao.
- Paizinho - disse ela, ofegante, dirigindo-se ao pai -, eis-nos de volta! - E 
como Blattiev 
se mantivesse imvel, encostado  parede, sem emitir qualquer som, ela disse, 
como que perdida: 
-        Mezinha, l fora h o Sol...
- Como foi? - perguntou com dureza Massia.
- Um sonho, mezinha.
-        No existem sonhos vividos neste mundo.
- Queria ficar sempre estendida ao sol, mezinha.
- O sol no se mostra sempre, tambm chove, o vento sopra, a neve sufoca a 
terra, o gelo 
quebra as rvores. No lhe explicaste tambm isso, mdico?
- Bastava, pela primeira vez, que ela compreendesse o que  uma flor, uma 
borboleta, uma 
ave a cantar, as nuvens a passarem no cu, a erva tpida - respondeu Trottau. - 
Ela aprender 
tambm a conhecer o Inverno e gostar tanto dele como do calor.
-  to belo! - exclamou Xenia com entusiasmo, inclinando a cabea para trs e 
fazendo 
com que os seus cabelos roassem pelas lajes, enquanto Massia a rodeava com os 
seus braos e 
ela comeava a chorar. Massia lanou um olhar irritado a Trottau.
- Mezinha, l em cima  tudo to belo - soluava Xenia.
- No. H tambm os lobos que dilaceram os seres humanos, as aves de rapina que 
enterram as suas garras na carne daqueles que no temem e h tambm o homem que 
aniquila 
tudo, o ser mais impiedoso que Deus criou.
-        Que  tudo isso quando se pode ver uma rosa a balouar ao vento! - 
retorquiu 
Xenia.
Nos olhos de Massia brilhou a hostilidade:
-        Tu estragaste-a, mdico - disse. - Em poucas horas corrompeste-a.
-        Eu curarei Xenia - respondeu Trottau. - Aqui, debaixo da terra, ela 
extinguir-se-ia...
-        Que tens tu a dizer? Quem s tu? Um alemo, o mdico da czarina! A um 
gesto 
dela tu sers pendurado na forca, em frente do Kremlin! E  o que mereces, 
grande aldrabo!
Massia apertava Xenia contra si.

-        Deixa-a em paz, digo-te eu. L em cima, ao sol, ela no se curar nunca. 
Ser 
afastada de ns. Igor, expulsa-o. Ele quer roubar-nos a nossa filha!
Blattiev soltou um grito gutural. Trottau recuou dois passos e empunhou a sua 
elegante 
espada de cavaleiro. Estendeu a lmina para a frente e exclamou:
-        No avances, Blattiev.
-        Paizinho! - gritou Xenia com uma voz dilacerante. - No lhe toques! Ele j 
me 
salvou! - Queria fugir a Massia, mas a forte mulher prendia-a solidamente.
Blattiev aproximou-se. A lmina da espada no o impressionava, nem mesmo depois 
de 
Trottau se pr em posio de combate, pronto a trespassar o seu adversrio. A 
pata formidvel de 
Blattiev foi lanada para a frente e agarrou a lmina da espada com a rapidez de 
um raio. Depois, 
com um repelo, arrancou-lha da mo e partiu-a como se fosse uma palhinha. Com 
um som claro, 
os pedaos de ao caram no cho.
Mas ento passou-se algo de perturbador. Blattiev encontrava-se muito perto de 
Trottau. 
Este, imobilizado, no tinha nada, a no ser os seus punhos, para se defender 
contra a fora 
daquele monstro. Nos olhos de Blattiev havia um brilho que no era de dio, pois 
dos seus olhos 
redondos, suplicantes, que nem mesmo a clera fazia mudar, saam lgrimas 
silenciosas. Atraiu o 
mdico contra si e beijou-o trs vezes nas faces, acariciando-lhe os cabelos com 
uma ternura de 
que no se julgariam capazes aquelas mos grosseiras, ao mesmo tempo que emitia 
sons 
incompreensveis que s tinham sentido na cabea dele.
-        Agradeo-te, Igor Igorovich - disse Trottau comovido. - Prometo-te...
-        Compreende-lo? - gritou Massia.
-        Quem no compreender um pai cuja filha se salva! E mesmo que lhe tivessem 
arrancado dez lnguas, h instantes em que um mudo fala...
-        Ele deve lev-la de novo para o sol? - perguntou Massia.
Blattiev fez um sinal de assentimento.
-        Todos os dias?
De novo o mesmo sinal.
-        Tens confiana nele, Igor Igorovich?
Blattiev aspirou profundamente: os seus lbios esboaram um movimento preciso e 
do 
fundo da sua garganta veio um som perfeitamente identificvel.
-        Sim!
Como um grito.
Xenia deitou-se aos ps de Blattiev e rodeou-lhe as pernas metidas em grossas 
botas de 
casca de rvore entranada.
- O paizinho - dizia chorando -, meu bom paizinho. Que Deus te abenoe todos os 
dias!

Comovido no mais profundo do seu ser, Trottau voltou para a sua casa, situada na 
praa 
do Kremlin. O seu criado, um prisioneiro condenado  servido, que lhe fora 
destinado pelo 
primeiro-intendente da corte, esperava-o com o almoo. Grandes fatias de carne 
assada, fria, 
estavam dispostas sobre pratos de prata, assim como frutos frescos e uma salada 
de beterraba. 
Sobre a mesa havia tambm uma garrafa de vinho da Hungria.

Trottau sentou-se num grande cadeiro de madeira, guarnecido de peles de lobo, e 
cobriu 
os olhos com as mos. Precisava daquele repouso para se encontrar a si prprio 
no seu amor por 
Xenia. Recordava o corpo dela a descansar nos seus braos e pensava no jogo 
perigoso que 
empreendera.
De dia, Xenia, que ele amava;  noite, a czarina Maria, que lhe era preciso 
amar... Se essas 
duas mulheres se encontrassem alguma vez, o mundo aniquilar-se-ia numa exploso 
sem exemplo.
-        Senhor - comeou a dizer prudentemente o servo, pois ainda no conhecia 
suficientemente o amo para adivinhar os seus humores. A experincia que tivera 
at ento 
tornara-o circunspecto. Tendo escapado por pouco a ser executado,
fora-lhe concedida a vida mas ficara privado da sua liberdade para sempre. J 
mudara de amo 
nove vezes. Todos o tinham enchido de pontaps, como a um co, cuspiam-lhe para 
a cara e 
chicoteavam-no. Quem tinha poder tratava assim os seres humanos. Um servo nem 
sequer  um 
humano. Afanasi Loukanovich Sabotkin, homem cndido vindo dos campos de rosas de 
Kazan. O 
diabo toma conta do humor dos grandes senhores... mas senta-se tambm entre eles 
e toma parte 
nos seus beberetes.
- Senhor - repetiu Afanasi Sabotkin inclinando-se profundamente -, trouxe a tua 
refeio.
- No tenho fome, Afanasi - disse Trottau com cansao. - Deixa-me s.
- O filho do czar quer falar-te, senhor.
Trottau fez sinal de que compreendera. O filho do czar, esse poltro que se 
escondia por 
detrs das grossas paredes... que ser da Rssia quando ele subir ao trono? Os 
boiardos so como 
abutres que s esperam a morte de Ivan para se lanarem sobre ele para o 
dilacerar. H o sombrio 
Bons Godounov, que nunca ningum viu sorrir, e o alegre e temvel como um tigre 
Chouiski! H 
tambm o velho Nikita Romanov e o boiardo Cheremetiev, que soube casar to bem 
as suas filhas 
que se encontra aparentado com todas as casas principescas. Diz-se que rodeia a 
sua filha Helena 
de cuidados e que a tem guardada para a casar com o filho do czar. E havia ainda 
os boiardos 
Iouriev e Basmanov que eram bem vistos pelo czar e que se apressavam a executar 
todas as 
crueldades que ele inventava.
"Que mundo!", pensava Trottau. "Que pas, que trono! S esto unidos pelo sangue 
vertido..."
- O filho do czar est doente? - perguntou.
- No. Deseja ver-te.
Ivan, o herdeiro do trono, olhou fixamente Trottau quando este se lhe dirigiu. 
As suas 
mos tremiam quando perguntou:
- Quem era essa mulher que estava no meu jardim?
Trottau percebeu imediatamente o perigo daquela pergunta. O filho do czar estava 
mudado.
- Viu-a, senhor? - perguntou.
- O corpo dela, ao sol, parecia de marfim. - O filho do czar inclinou-se para a 
frente. A 
doura de sua me Anastsia, o medo que ele sentia da ferocidade paternal, tudo 
isso se apagara. 
Parecia que ter visto Xenia mudara qualquer coisa nele. - Quem  ela?
- Uma doente, senhor?
- Mentes!
- Mentir ao filho do czar seria arriscar-me a morrer!
- , com efeito, arriscares-te a morrer! - Ivan endireitou-se. - Beija-se assim 
uma doente?
- Estou a cur-la, senhor.

- Com beijos? Carcias? Brincando com os seus cabelos de ouro? Onde aprendeste a 
utilizar esses remdios?  assim que tratas a czarina?
Trottau enfrentava o olhar do filho do czar.
O mesmo olhar que o do czar, duro como uma guia. "Poder um dia usar a coroa 
russa", pensou 
Trottau num relmpago. "No  um fraco. Toda a gente o trata como tal e ele 
acaba por se 
convencer que o e."
-  uma jovem muito doente - continuou Trottau, evitando dar uma resposta 
directa. 
Compreendia o filho do czar: quem visse Xenia, no a podia esquecer. - O sol, o 
ar, as flores, so 
a nica esperana de se curar.
- Os teus medicamentos idiotas, que me provocaram febre! O ar fresco! - O filho 
do czar 
ergueu-se de um salto e aproximou-se dajanela. Fitou intensamente o stio onde 
Xenia estivera 
estendida sobre a erva. Ainda se viam as marcas do seu corpo. - Que doena tem 
ela?
-        Tsica, senhor.
-         morte certa.
-        Se ela for autorizada a dirigir-se todos os dias para o jardim, para se 
estender ao 
sol, a doena ser extirpada dos seus pulmes!
-        Queres que ela se deite todos os dias, nua, debaixo das minhas janelas?
-        Na erva, senhor. Basta-vos apenas evitar olh-la...
-        Que me ests a pedir, idiota? Junto dela os cegos recuperariam a vista!
-        Ela precisa de repouso, senhor, de repouso absoluto, da felicidade e do 
sol que faz 
milagres.
-        No que diz respeito  felicidade, tu encarregas-te de fazer o papel de 
medicamento, se bem o compreendo. - O filho do czar voltou para o centro da sala 
e parou em 
frente de Trottau. - Amanh vais traz-la ao jardim?
-        Sim.
-        Ento irei ter com ela e beij-la-ei. No sers tu a faz-lo, mdico.
Trottau abanou lentamente a cabea.
-        Isso no ser possvel, senhor!
-        Queres opor-te? Pretendes proibir-me de agir  minha vontade? Fazeres-me 
uma 
proibio a mim, o filho do czar?
-        Desejo apenas acautelar-vos, senhor. A tsica galopante  uma doena muito 
contagiosa.
-        Sim, sim! - disse o filho do czar rindo e franzindo o sobrolho. - Queres 
dizer que o 
futuro senhor da Rssia sucumbiria  doena, enquanto um mdico alemo lhe 
resistir?
- No tem grande importncia - replicou Trottau - a morte de um simples mdico, 
mas 
seria uma tragdia para a Rssia se o filho do czar sucumbisse por culpa de uma 
rapariga!
- Detesto esta coroa! - gritou o filho do czar. - Odeio-a. Tu bem o sabes, 
mdico!
- Mas o povo tem esperanas postas em vs, senhor, acredita em Ivan V enquanto 
suporta 
Ivan IV. Espera-vos como a terra anseia pela chuva aps uma longa seca.  uma 
coroa pesada, eu 
sei.

- Uma coroa de espinhos, mdico! - O filho do czar deixou-se cair sobre uma 
cadeira e o 
seu rosto transformou-se novamente. Anastsia, a doce, sua me, que os boiardos 
tinham 
mandado assassinar para quebrar a fora do czar, acto com o qual s tinham 
conseguido o 
contrrio do que esperavam, Anastsia influenciava de novo o esprito do filho 
do czar, 
acalmando-o, tornando-o um homem reflectido, que se contemplava tristemente a si 
mesmo. O 
sobressalto da violncia devido ao sangue selvagem de seu pai extinguira-se. - 
Devo us-la, esta 
coroa?
- Sim, conforme os desejos da Rssia.
- Tu s o melhor confessor, Trottau. Eu no serei nunca um grande czar.
- Um bom czar, senhor,  melhor.
- O mundo pode suportar um bom czar? Por toda a parte h guerra. Os Polacos, os 
Lituanos, os Suecos, os Trtaros... vivemos numa ilha no centro de um oceano de 
fogo,. para que 
serve o amor?
-        No o sei, senhor. Ainda ningum tentou governar os seres humanos com 
amor.
-        Onde vive ela?
-        Quem?
-        A rapariga que veio ao meu jardim.
-        Ignoro-o. Algures, em Moscovo. Encontrei-a quando passeava. No me foi 
difcil 
diagnosticar a doena dela. Trouxe-a ao Kremlin para a examinar.
-        Apenas por ela ser bela? H milhares de doentes em Moscovo.
-        Sim - respondeu lentamente Trottau. Foi por causa da sua beleza. Ela no 
deve 
apagar-se como uma candeia, pensei. E ouso diz-lo a si, senhor. Impedi que ela 
se extinga. 
Concedei-lhe essa hora no vosso jardim. Permiti-lhe viver.
-         preciso que ela viva! - O filho do czar respirava laboriosamente. - 
Colocar-me-ei 
todos os dias diante da minha janela para a olhar, e quando tu a beijares, 
odiar-te-ei como odeio o 
meu pai. Vai-te embora, mdico, antes que eu te mande cortar a cabea pelos meus 
guardas!
Rapidamente, sem replicar, Trottau deixou os aposentos do filho do czar.

Captulo 8

Cavalgavam numa longa coluna atrs do czar. Ele precedia-os a todos, pois 
ningum tinha 
to bons cavalos como ele. Cavalgaram at o czar Ivan, a cem verstas de Moscovo, 
desmontar e 
permanecer de p junto da sua montada, coberta de espuma. Depois encostou a 
cabea  sela, 
mas s pelo breve tempo necessrio para que a sua escolta se lhe juntasse. Com 
os dentes 
cerrados, o czar foi ao encontro deles, mantendo-se muito direito: nunca o 
tinham visto cansado 
nem vacilante.
-        Mais um dia e uma noite - disse Ivan designando o horizonte que, iluminado 
pelo 
sol de Vero, brilhava como cobre. - Instalaremos o acampamento aqui e 
recuperaremos o flego.
O boiardo Loubeskoi vigiou a instalao da tenda do czar.
Um servo aproximou-se com um cavalo carregado de caixas. Em seguida trouxe o 
manto 
do monarca. Uma comprida capa trtara tecida de ouro, forrada de soberbas peles 
de zibelina. 
Trazia tambm um bon alto, bordado com prolas e orlado de arminho macio como 
veludo. Ivan 
tirou a sua cota de malha, atirou o capacete para o cho e logo a seguir as suas 
luvas de aceradas 
pontas de ferro. Esforava-se por mostrar o seu alvio, ao mesmo tempo que 
observara com um 
olhar sombrio a maneira como preparavam a sua vasta tenda redonda e iavam a sua 
bandeira 
pessoal  entrada da mesma.
Cruzara as mos sobre o peito, como para rezar, e pensava em Moscovo, em Maria, 
o seu 
grande amor prometedor de todas as delcias, e na mensagem do boiardo Chemski, 
que fora 
morto por lhe ter mandado dizer: "A sublime czarina engana-vos, grande czar!"
O prncipe Loubeskoi apareceu, contornando a tenda do czar.
-        Quando continuaremos a viagem, senhor do mundo?
Ivan sobressaltou-se, arrancado aos seus pensamentos.
-        Por que motivo o queres saber?
-        Por causa dos cavalos. Eles tm necessidade de repouso.
-        -lhes permitido carem contra as muralhas do Kremlin. At l precisam de 
galopar!
-        At mesmo as foras de um cavalo se esgotam, grande czar. - Concedei-nos 
doze 
horas de repouso... a no ser que o czar dos czares queira atravessar Moscovo 
transportando a 
sua sela s costas?
Era difcil perceber o instante propicio em que
Ivan suportava tais gracejos. Loubeskoi escolhera um bom momento. Ivan riu 
ruidosamente, com 
as mos enterradas no seu traje de seda trtara.
-        Entraremos em Moscovo frescos que nem peixinhos de gua doce. Ocupa-te dos 
cavalos, Loubeskoi. Precisamos de ser mais rpidos que todas as lnguas de 
Moscovo!
-        Chegaremos de dia ou de noite, sublime czar?
O czar olhava para a distncia onde comeava uma grande floresta, a regio de 
caa de 
Sabnrovo. Caavam a ursos e cervos e os mais belos castores num raio de 
quinhentas verstas.
"Maria engana-me", pensava Ivan. "Mas certamente que no se atrever a faz-lo 
durante 
o dia, nem na minha cama, com todas as camareiras que a rodeiam."

-        Entraremos em Moscovo de noite - respondeu. Os seus pequenos olhos 
cintilaram 
de novo, ferozes, impiedosos. -Loubeskoi... certas aves s vivem de noite.
-        O rouxinol, grande czar.
-        E a coruja, Loubeskoi, imbecil! - Ivan voltou-se para se dirigir para a 
tenda que se 
encontrava finalmente pronta. - D de beber aos cavalos! - gritou por cima do 
ombro. - E eu 
quero beber tambm!
"Beberei  minha vingana!", pensou, afastando o tapete que protegia a entrada 
da tenda. 
"Um mdico teutnico... Se uma s das suas perguntas me desagradar, Igor 
Igorovich Blattiev 
ter de se ocupar dele!
Nessa noite Trottau foi outra vez para junto de Maria e teve-a nos seus braos 
pensando 
em Xenia.
-        Amo-te, meu urso louro - disse a czarina. - Amo-te. Se quiseres deitarei 
veneno no 
vinho do czar, do seu filho, dos Romanov e dos Godounov... Suprimi-los-ei a 
todos e reinaremos 
ambos sobre a Rssia... Ordena que eu os mate a todos!
-        Eu no sou czar - respondeu Trottau com voz cansada. - Sou apenas mdico e 
amante da czarina...
-        Tu s um homem... Olha  tua volta e v se encontras homens. So apenas 
marionetas, cabeas ocas, que se podem abater sem que nada fique perdido. 
Matamos Ivan?
-        Mais sangue ainda, Maria? Neste pas no se pode amar sem matar?
-        Ivan est na Litunia. Quando ele regressar, serei forada a ver-te menos 
frequentemente. No suportarei tal coisa. De resto, j no posso suportar Ivan! 
Cuspirei com nojo 
quando ele me tocar e queimarei a minha pele onde ele me tiver tocado!
Trottau no respondeu. Tinha Maria nos seus braos, abraava-a e esperava que 
ela 
adormecesse. Quando isso sucedeu, saiu com cuidado da cama, apagou as tochas, 
excepto uma, 
que se encontrava por cima da porta, e sentou-se diante 
da janela. Afastou a pesada tapearia, suspensa de um tringulo dourado, e olhou 
para fora, para 
a clara noite de Vero. Por detrs das rvores e da igreja da coroao, com 
sinos dourados, 
estendia-se a muralha do Kremlin, encerrando os locais sagrados dos Russos.
"Dentro de algumas semanas estar tudo acabado", pensava Trottau. "Ivan ter 
voltado da 
Litunia e ser impossvel a Maria encontrar um lugar secreto onde me possa 
amar... Talvez fique 
dilacerada interiormente, ou talvez se volte a habituar em Algumas semanas, 
pensava ele...
A cem verstas de Moscovo, o czar estava justamente sentado na sua tenda e no 
podia 
dormir, de tal modo as suas dvidas e o cime o roam. Os seus olhos fixavam a 
luz vacilante do 
candeeiro de leo.
Para Andreas Daniel von Trottau faltavam apenas vinte e quatro horas de repouso.


Novamente cerca do meio-dia o czar cavalgava atravs das densas florestas de 
Sabnrovo, 
onde ningum poderia detectar a sua presena, pois s muito perto de Moscovo  
que ele sairia 
da espessura do arvoredo. Trottau foi buscar Xenia ao seu labirinto, para a 
levar para a claridade 
do dia cheio de sol. Xenia esperava-o j; com os braos abertos correu para ele 
quando ouviu os 
seus passos e adivinhou a claridade da sua lanterna.
Blattiev encontrava-se na antecmara de forma circular, com pavimento de pedra, 
para a 
qual abriam as portas dos aposentos dele. Fazia tilintar na mo um grosso molho 
de chaves. 
Massia, envolta em roupas escuras, como de costume, andava com grandes passadas 
em volta 
dele, como se assim pudesse mant-lo em respeito.
-        Enlouqueceu! - disse ela quando viu Trottau, enquanto Xenia se atirava ao 
seu 
pescoo. - Ele quer testemunhar-te o seu reconhecimento, este velho idiota! Diz-
lhe que recusas 
os seus agradecimentos, mdico!
Blattiev resmungou com fora, repelindo rudemente Massia, que lhe impedia o 
caminho, 
com tal violncia que ela foi projectada contra a parede.
-        No o sigas! - Massia estendia para Trottau as suas mos juntas enquanto 
caa de 
joelhos. - Em nome de Jesus, em nome de Deus pai, no vs com ele! Ele  doido! 
No vs ver 
aquilo, peo-te!
Um alegre riso mudo iluminou o rosto barbudo de Blattiev. Apesar de ter a cara 
coberta 
de plos, via-se bem a alegria que ele experimentava por ir mostrar o seu 
segredo ao salvador da 
sua filha. O segredo que o fazia viver h vinte anos sem sol, sem ar puro. O 
segredo que lhe 
valera terem-lhe arrancado a lngua. Fez-lhe sinal agitando o grande molho de 
chaves, empurrou 
uma porta pesada, de madeira, e avanou pesadamente diante de Trottau, depois de 
ter tirado da 
parede uma tocha acesa.
Trottau seguiu-o.
Massia ficou para trs: tinha puxado violentamente Xenia para si e segurava-a 
com todas 
as suas foras, como se tivesse medo que o Diabo lha levasse.
Blattiev, agitando as suas chaves, resmungava alegremente. Com a outra mo 
erguia a 
tocha o mais alto possvel. Uma corrente de ar passou pelo rosto de Trottau.
Uma corrente de ar corrosivo, que lhe tirou a respirao, um odor sufocante: uma 
mistura 
de cheiro de excrementos, de urina e de carne podre.
Blattiev voltou-se e com o tilintar das chaves de
ferro os sons que lhe saam da garganta tinham a magia de um canto. Seguiram um 
largo 
corredor, que ia dar a uma vasta sala. Ali o tecto era mais elevado, mantido por 
colunas, e 
terminava por abbadas. Pesados lustres de ferro forjado, com grossas velas, 
pendiam do tecto.
Essas velas no estavam acesas. Apenas duas tochas iluminavam essa grande sala, 
dando 
uma luz baa, o que conferia quela parte do subterrneo uma atmosfera 
deprimente, dificilmente 
respirvel. A isso juntava-se o odor corrosivo que aumentava  medida que eles 
iam avanando e 
que nem era diminudo pela existncia dos respiradouros, pois estava impregnado 
nas prprias 
pedras.
Blattiev deteve-se. Lanou de novo um olhar para trs de si e voltou-se, rindo, 
para 
Trottau, que o seguia hesitantemente. Quando se fechara a pesada porta que 
separava o 
misterioso subterrneo do Kremlin dos aposentos de Blattiev, Trottau teve o 
pressentimento de 
que algo de terrvel o ameaava. A expresso alegre de Blattiev tranquilizou-o 
um pouco.

Na frente deles encontrava-se uma porta com dois batentes. Era feita das mais 
espessas 
tbuas de carvalho que Trottau alguma vez vira. Largas placas de ferro, presas 
por enormes 
pregos, uniam-nas. Trottau aproximou-se de Blattiev e percebeu que era daquela 
porta que vinha 
o cheiro nauseabundo.
-         preciso que eu veja isto? - perguntou Trottau. No reconhecia a sua 
prpria voz, 
de tal modo ela estava abafada, como se o seu timbre tivesse sido absorvido por 
aquelas abbadas 
sinistras.
Blattiev respondeu com um gesto de cabea e introduziu uma imensa chave na 
fechadura, 
fazendo-a depois girar. Ouviu-se um ranger atroz, que lhe pareceu fazer parte da 
encenao, pois 
quem quer que fosse levado para ali e esperasse que a enorme porta se abrisse 
devia sentir o 
corao apertar-se ao ouvir a chave girar na fechadura. A porta abriu-se. O 
cheiro putrefacto 
atingiu Trottau como um soco. Conteve a respirao e agarrou involuntariamente o 
brao de 
Blattiev. Igor Igorovich arrastou Trottau atrs de si.
Chegaram a uma galeria, uma espcie de tribuna feita de pedras lisas sustidas na 
base por 
grandes arcos de ferro cimentados na pedra. Uma densa grade de ferro forjado 
rodeava essa 
galeria. Parecia uma jaula com degraus, ao fundo dos quais se encontrava uma 
outra porta: uma 
forte chapa de ferro que ningum poderia arrombar.
Blattiev e Trottau foram colocar-se na tribuna. Em baixo havia uma espcie de 
arena, 
quase circular. Do tecto pendiam grandes candeeiros de azeite, que ardiam 
constantemente. 
Competia a Blattiev ench-los. Para o conseguir, ele utilizava uma grossa vara 
munida de um 
gancho. Esses candeeiros balouavam na extremidade de grossas correntes. A 
fumarada hmida 
que deles saa escurecera a pedra que lhe ficava por cima, mas fugia pelas 
mltiplas aberturas que 
existiam no tecto abobadado.
Blattiev aproximou-se da balaustrada que rodeava a galeria e olhou para baixo.
A uma profundidade de cerca de quatro metros mais abaixo, em cima de uma espessa 
camada de palha, estavam estendidos trs formidveis ursos
castanhos-escuros. Sentindo a presena de seres humanos, ergueram-se, apoiando 
as suas largas 
costas s paredes de pedra e erguendo as suas grandes cabeas. Por cima dos 
focinhos 
pontiagudos cintilavam, gelados, inexpressivos, maus, na sua constante e mortal 
ameaa, os seus 
pequenos olhos de plantgrados.
-        Ursos!
Apoiados sobre as patas traseiras, os ursos erguiam-se, mostrando as garras 
curvas.
Quando Trottau se foi colocar ao lado de Blattiev, os ursos comearam a 
balouar, em 
silncio, os seus focinhos escuros. Esse ritmo exprimia uma espera 
aterrorizadora. Trottau, 
apoiado contra a grade, olhava para baixo. Vira ursos muitas vezes. Nas feiras, 
os que exibiam 
ursos eram sempre bem acolhidos. Os animais amestrados danavam ao som da 
flauta, 
executavam cambalhotas e mendigavam uma moeda. Mas mantinham-se inofensivos 
pelos 
grandes aaimos de cabedal e um anel de ferro metido no nariz pelo qual o 
domador puxava, com 
uma corda. A dor assim causada era to forte que o urso obedecia a todas as 
ordens.

Mas que eram esses ursos exibidos na feiras em comparao com aqueles trs 
monstros 
gigantescos que viviam ali debaixo do Kremlin e olhavam fixamente Trottau! Estes 
eram animais 
de grande beleza, montanhas de msculos e pelagem espessa, hirsuta.
Blattiev fez-lhes um sinal. Os seus grunhidos desarticulados transformaram-se 
numa 
espcie de linguagem ritmada. Trottau observou mesmo mudanas de tom e 
compreendeu que 
Blattiev chamava os ursos e falava-lhes  sua moda. Como estes pareciam 
compreend-lo... 
Deixaram cair as patas dianteiras e abandonaram a sua posio de combate. 
Dirigiram-se ento 
para um canto, junto da porta, onde se encontrava um alguidar cheio de carne.
-        O que  que isto... significa? - perguntou Trottau. A emoo, o cheiro, 
quase lhe 
cortavam a respirao.
Blattiev inclinou-se por cima da balaustrada e fez um gesto para baixo. Trottau 
seguiu 
com o olhar a direco desse gesto e viu o que ele apontava: alguns ossos 
rodos. Como mdico, 
conhecedor da anatomia humana, reconheceu-os imediatamente.
Trottau recuou. Tomado de mal-estar, encostou-se  parede e fechou os olhos.
- Bom Deus! - balbuciou. - Meu Deus, Blattiev...  isto a tua vida?
Compreendia, finalmente, por que motivo o czar mandara arrancar a lngua a 
Blattiev. O 
que ali se passava no devia ser conhecido nunca  superfcie...
-        Quero sair daqui - disse Trottau com voz enfraquecida. - Igor Igorovich, 
um 
mdico deve ter os nervos slidos. Mas isto  de mais! Deixa-me ir embora!
Abriu violentamente a espessa porta de carvalho chapeada de ferro e fugiu da 
tribuna. 
Correu pelo corredor at junto da segunda porta e a esperou. O cheiro ali era 
menos intenso. Os 
passos de Blattiev aproximaram-se lentamente.
Na sala central da habitao subterrnea, para a qual davam os outros 
compartimentos, 
Massia esperava-os. Enorme, sombria, monoltica, ela tinha apertado o seu leno 
da cabea de 
forma a esconder-lhe os olhos. Trottau respirou profundamente o ar frio daquela 
sala que, para os 
Blattiev, devia ser to puro como era para ele o vento a soprar num cu azul sem 
nuvens.
-        Ests satisfeito? - perguntou Massia com dureza.
Trottau abanou a cabea.
-        No - disse em voz baixa -, no, Massia Fillipovna. Onde est Xenia?
-        Mandei-a para o seu quarto.  uma criana obediente. Temos de falar 
contigo 
sobre uma certa questo, mdico!
- Deixa-me ver Xenia, Massia Fillipovna. Preciso de lhe falar... Tenho algo a 
dizer-lhe.
-        No.
-        Sei que ela espera o que eu quero dizer-lhe.

- Eu tambm o sei, mdico. Ns no somos to estpidos como nos julgas, apesar 
de no 
termos o Sol para nos iluminar. Mas  preciso que te expliques primeiro 
connosco! - Massia 
afastou uma cortina e Trottau entrou na sala onde vira Xenia pela primeira vez. 
Sobre a mesa de 
madeira mal talhada viam-se agora umas taas toscas de terracota cheias de 
vinho, e ao meio, 
num cesto de palha primitiva, grandes bocados de po escuro e um prato cheio de 
sal grosso.
- Senta-te - ordenou Massia. Trottau obedeceu e sentou-se em cima da palha. 
Blattiev e 
Massia ficaram de p em frente dele: a mesa estava entre o casal e Trottau. 
Antes mesmo que 
Massia tivesse retomado a palavra, Trottau compreendeu que chegara a hora mais 
solene e mais 
decisiva da sua existncia.
-        Amo Xenia - disse em voz baixa. - Massia Fillipovna, Igor Igorovich,  a 
verdade. 
Em nome da minha me e de tudo o que me  mais sagrado no mundo, declaro que a 
amo. Este 
amor assaltou-me como um braseiro devorador, contra o qual no podia defender-
me.
-        Ns sabemo-lo, Andrei. Igor no tem lngua, mas os olhos dele so to 
penetrantes 
como os dos ursos. Se amas Xenia, isso pode ser a maior felicidade ou a maior 
infelicidade 
imaginvel. Tu s mdico, meu filho, o mdico da czarina. Vens da superfcie da 
terra, para onde 
ns no teremos nunca o direito de voltar. Xenia tambm no... Sabes o que pode 
suceder, 
mdico?
-        Sim. Curarei Xenia da sua doena e casarei com ela.
-        Louco que tu s. A czarina mandava-te esquartejar!
-        A czarina? Nunca!
-        Ento o czar! Tu viste os ursos e isso s por si representa uma sentena 
de morte. 
Blattiev mostrou-tos porque gosta da sua filha. Tu tornaste-te, assim, um membro 
da nossa 
familia. Compreendes?
-        Sim, Massia, e alegro-me com isso.
-        s, portanto, um condenado que a partir de agora vives ao sol sem o 
poderes 
fazer.
-        Em breve sairo todos deste tmulo. Prometo-lhes.
-        Tu no podes trazer-nos o sol para debaixo da terra. Mas basta de 
palavras. Quem 
v os ursos, deve morrer. Tu s o primeiro que continua vivo depois de os teres 
visto, porque tu 
s dos nossos. Pega neste po, salpica-o de sal e bebe do
nosso vinho... Mas previno-te, Andrei, depois disto no poders voltar atrs.
-        O meu universo  Xenia, s ela. - Trottau inclinou-se para agarrar um dos 
pedaos 
de po, molhou-o no sal, agarrou com a outra mo uma das taas e olhou Massia e 
Blattiev. - 
Amo Xenia -        disse lentamente. - Deus  testemunha.
Trottau deu uma dentada no po e levando a taa aos lbios bebeu um longo gole.
-        Deus te abenoe, meu filho - disse Massia com voz trmula. - Tu 
decidiste... agora 
vai ter com Xenia...
Trottau ergueu-se de um salto.
-        Lutarei por vocs. Tenho influncia sobre a czarina!...
-        A czarina! - A voz de Massia tornou-se sinistra, trmula de dio. - Essa 
puta 
tcherkesse! No viste como Maria Temriouka assistiu da galeria, rindo s 
gargalhadas, enquanto 
os ursos dilaceravam um homem que pedia misericrdia, suplicando a Deus que o 
auxiliasse?
-        Isso no  verdade... - balbuciou Trottau. - Maria esteve aqui nos 
subterrneos? 
Espectadora do mais cruel dos crimes?
Essa mulher maravilhosa, toda amor, podia ver os ursos dilacerarem as carnes de 
um ser 
humano? Era impensvel.

-        Ela veio aqui abaixo quatro vezes. Trs delas com o czar. Ela aplaudia 
enquanto o 
boiardo Tchereniev fugia diante dos ursos, ao longo das paredes. E os ursos 
brincavam com ele. 
Eles perseguiam-no e foravam-no a fugir cada vez mais depressa, sem trguas. 
Ele gritava, 
erguia as mos postas para o czar, chorava e suplicava-lhe que o poupasse em 
nome da mulher e 
dos quatro filhos pequenos. Correu at conseguir avanar, vacilando, caindo por 
fim de joelhos e 
dirigindo-se apenas a Deus.
-        E a czarina? - perguntou Trottau com uma voz sem timbre.
-        Ela excitava os ursos. "Mais depressa! Mais depressa!", gritava ela. 
"Arranquem-lhe o corao para fora do peito!" E quando os ursos se lanaram 
sobre Tchereniev e 
o dilaceraram, ela gritou de alegria e abraou o czar. "Que espectculo!", 
extasiava-se ela. 
"Amo-te, meu Ivanouchka." Ela  assim, a czarina!
Trottau baixou a cabea. "So as palavras dela", pensou. "So as palavras que 
ela diz na 
embriaguez do amor... e atroz..."
-        Ela veio aqui trs vezes? - repetiu para dizer qualquer coisa.
-        Quatro vezes. Uma vez veio sozinha: mandou executar o amante dela, o 
prncipe 
Kataloi. Era a melhor maneira de o afastar... O prncipe Kataloi desapareceu 
simplesmente. Nem 
sequer o czar o soube. Mandou procurar Kataloi durante cem dias, prometendo uma 
recompensa 
de cem rublos... Blattiev recebeu da czarina dois mil rublos... - Massia teve um 
riso amargo. - 
Sim, mdico, somos ricos, mas de que servem dois mil rublos num tmulo?
Trottau esvaziou a sua taa de vinho.
"Maria", pensou, "ser tambm esse o meu fim? Serei dilacerado no fosso dos 
ursos, 
como o prncipe Kataloi, quando ela estiver farta de mim?"
Olhou para Blattiev, que comia tambm um pedao de po coberto de sal. "Tambm 
ele 
ser capaz de me atirar aos ursos se a czarina o ordenar? A mim, o esposo da 
filha dele?"
Massia pareceu adivinhar os seus pensamentos. Encheu de novo a sua taa e disse:
- Se for preciso morreremos juntos. No haver outra soluo se a desgraa do 
czar nos 
atingir. Agora vai ter com Xenia.
Xenia esperava-o com angstia e paixo: abriu os braos e voou ao encontro dele, 
com os 
cabelos a flutuarem como um manto dourado.
Trottau atraiu-a para si e beijou-a. Esse beijo decidiu o seu destino para 
sempre.

Captulo 9

Era meia-noite quando o czar Ivan e o seu squito atingiram as primeiras casas 
de 
Moscovo.
Um destacamento de cavaleiros tinha partido como batedores, expulsando aqueles 
que se encontravam pelos caminhos, deixando o caminho livre para a passagem do 
czar. A cidade 
de Moscovo estava adormecida quando Ivan, rodeado do crculo restrito dos seus 
boiardos 
favoritos, cavalgou na direco do Kremlin, gozando com antecipao a sua 
vingana e 
imaginando requintes de crueldade.
Mas o czar subestimara Maria. Ela possua um servio de informaes secreto que 
lhe contava tudo o que se passava em Moscovo e nas imediaes do czar.
Nessa noite, trs minutos aps a meia-noite, um mensageiro levou-lhe a notcia 
de 
que o czar chegara secretamente a Moscovo. Acabara de sair pelo alapo que dava 
para a 
passagem subterrnea.
-        Ivan acreditou nas informaes caluniosas de Chemski! - disse a czarina 
depois de 
o mensageiro ter sido benevolamente despedido. - Quer surpreender-me - acariciou 
o rosto plido 
de Trottau -, mas o surpreendido ser ele! E de maneira diferente da que ele 
espera. Deixaremos 
de nos ver frequentemente, meu bem-amado, mas Ivan no ter muito tempo para nos 
vigiar. Os 
Suecos avanam para ns, os Polacos mostram-se insubmissos e os Lituanos 
revoltam-se. Ele tem 
ocupaes suficientes no seu imprio... aperta-me com fora, meu urso louro... 
durante algum 
tempo terei de me contentar em ver-te apenas.
A palavra "urso" na boca da czarina fez estremecer Trottau. Recordou o fosso 
profundo, 
circular, e imaginou Maria a ver friamente o seu amante a ser despedaado pelos 
ursos.
-        Vai, meu bem-amado. - Julgava que a expresso petrificada de Trottau se 
devia a 
ele ter medo do czar. - Ivan esquecer todas as suas suspeitas assim que passar 
as portas do 
Kremlin. Tem confiana em mim! - Riu, beijou-o de novo e empurrou-o suavemente 
para a escada 
oculta.
Quando Trottau entrou em sua casa, Afanasi Lioukanovich Sabotkin, o seu servo, 
estava 
ainda a p. Em silncio levou ao seu amo uma grande chvena com uma tisana 
quente, com um 
cheiro delicioso.
-        Vai - ordenou duramente Trottau -, coloca-te diante da porta, os streltsy 
do czar 
viro em breve buscar-me.
Nenhuma emoo surgiu no rosto do gigante Sabotkin.
-        Bebe, meu amo - disse ele -,  uma tisana de mel. No meu pas chamam-lhe a 
bebida dos deuses, ela d-nos uma nova alma!
-         exactamente o que eu preciso. Uma nova alma! - Trottau endireitou-se. - 
A 
minha antiga alma foi completamente destruda hoje.
-        Ento bebe. - Sabotkin estendeu-lhe a taa. Lentamente, Trottau aspirou a 
bebida 
escaldante, aromtica e aucarada.
-         reconfortante - disse ele entre duas goladas. - Talvez sejas melhor 
mdico do 
que eu.
-        No  sensato ficares aqui - disse Sabotkin levando a chvena vazia.

-        Para onde hei-de ir? - Trottau sentou-se sobre a sua cama. Fugir? At onde 
iria? A 
mo do czar chega a toda a parte. E porque havia de fugir? No h provas, 
Afanasi... Tu s o 
nico a saber onde eu passei as minhas noites.
-        Senhor, eu sou uma tumba. Fugir seria disparate. Tu devias examinar o 
filho do 
czar durante a chegada do czar...
-        Tambm sabes isso?
-         importante ser o terceiro e quarto olhos do nosso amo... - Sabotkin 
sorriu. - 
Podes-me bater...
-        Dar-te-ei dez rublos! O teu conselho  bom. D-me o meu saco e a minha 
mala, 
Afanasi. Corre  frente e anuncia-me ao filho do czar!
O sucessor de Ivan tinha bebido muito nessa noite. Arrancado ao seu sono, pousou 
sobre 
Trottau um olhar fixo.
-        Quem te mandou vir?
-        A minha conscincia, senhor! - Trottau puxou a manta de pele de lobo que 
cobria 
o herdeiro do trono. - H exames que s de noite se fazem com xito. Esta noite 
 uma das que 
so propcias. Preciso de escutar o vosso corao, senhor...
Ergueu a camisa do prncipe e encostou o ouvido ao peito do filho do czar. "Fao 
isto por 
ti, Xenia", pensava Trottau. "Farei tudo por ti! At mesmo a minha fama de 
mdico deixarei que 
seja pasto do ridculo. Assim  preciso. A morte cavalga neste momento atravs 
de Moscovo."

Aps a partida de Trottau, Maria voltou para o seu quarto. Bateu num grande 
gongo, 
colocado a um canto, e quando os seus guardas entraram a correr no aposento, 
seguidos pelas 
camareiras assustadas, a czarina encontrava-se sentada sobre o seu grande leito, 
de mos postas.
-        O meu vesturio de cerimnia! - disse-lhe ela. - A minha coroa tcherkesse! 
E 
ningum se lembrou deste dia! Acordei depois de sonhar que Deus me dizia: 
"Maria, 
esqueceste-me? Foi neste dia que eu curei um paraltic e devolvi a vista a um 
cego! E tu 
dormes?" Ento acordei e chorei de vergonha. Porque esto assim  minha volta? 
Depressa, vo 
buscar os monges! Que o irmo Prokorei venha o mais depressa possvel! As minhas 
roupas de 
festa. Corram! Corram!
Enquanto o czar atravessava Moscovo ainda adormecida, os monges de um convento 
prximo da igreja da coroao reuniam-se e dirigiam-se apressadamente para o 
palcio, dirigidos 
pelo irmo Prokorei.
No quarto da czarina, um mestre-de-cerimnias e quatro criados acendiam mais de 
cem
crios colocados em candelabros de prata. Depois traziam pesados icones 
reluzentes de ouro. A 
czarina encontrava-se envolta num traje de seda largo e comprido... Os cabelos 
caam-lhe 
livremente pelos ombros. Usava a coroa trtara de Kazan, coberta de pedrarias. 
Sentara-se, assim 
paramentada, numa cadeira de prata-dourada, direita, - imvel como uma esttua, 
toda envolta 
em claridades douradas.
Ao longe ouviam-se os passos cadenciados dos cavalos. Ivan entrava no Kremlin.

-        Cantem! - ordenou a czarina. - O Glria! Desde a entrada no ptio interior 
do seu 
palcio que Ivan comeou a ouvir os coros admirveis. Deteve o seu cavalo. Que 
era aquilo? Os 
monges cantavam o Glria? Desmontou, atirou as rdeas a um escudeiro e apressou-
se a seguir 
para a entrada que dava para os seus aposentos.
Na escada Ivan deteve-se outra vez. A voz maravilhosa do irmo Prokorei ouvia-se 
por 
toda a parte.
Lentamente o czar continuou a avanar. O seu rosto plido era iluminado pela 
claridade 
das velas. A cabea estava ainda coberta pelo capacete guerreiro e calava botas 
cobertas de 
malha de ferro, apesar de usar uma capa trtara, bordada, pelos ombros. Ivan 
entrou assim na sala 
de onde provinham os cantos. Os icones de ouro cegavam-no e a czarina, numa 
posio imvel e 
cheia de humildade, rezava.
Ivan descobriu-se lentamente e inclinou-se diante das santas imagens; depois foi 
colocar-se 
atrs da cadeira dourada e pousou as mos sobre os ombros de Maria. Quando os 
seus dedos 
comearam a brincar com os cabelos negros da
czarina, esta sorriu e inclinou a cabea para a direita, de modo a roar com a 
face na mo do czar.
No corao de Ivan tudo se fundiu: o desejo de vingana, a dvida, o cime, a 
crueldade. 
Desde a infncia que era sensvel s belas vozes e gostava dos cantos dos 
monges. Muitas vezes 
fazia-os vir ao Kremlin para os ouvir a ss. Em seguida ficava sentado, perdido 
nos seus 
pensamentos, com os olhos fechados, pensando na sua infncia, que fora cheia de 
dureza e de 
maldade, de intrigas e de brutalidades, mas tambm cheia de desejos 
insatisfeitos. Nessas alturas, 
envolto em cantos, o czar no era um monarca aterrorizador, mas um homem capaz 
de chorar 
quando o cntico "Deus tenha piedade..." subia aos cus.
O czar Ivan era vtima da maior impostura alguma vez perpetrada contra ele.
Quando os cantos cessaram, Ivan inclinou-se para Maria e pousou um beijo sobre a 
sua 
testa.
-        Meu anjo, amo-te. Cavalguei dia e noite para vir ter contigo... - Depois 
acrescentou, como por acaso: - Onde est Trottau, o mdico?
-        Ignoro-o, meu bem-amado.
-        Conhece-lo?
-        Tratou-me uma vez que a minha cabea quase rebentava com dores.
-        Um bonito rapaz, no  verdade?
-        Um campons alemo! - Maria beijou a mo de Ivan. - O meu corao salta de 
alegria com o teu regresso!
Os monges recomearam a cantar "Senhor Deus, ns Te louvamos! Tu s a fora 
criadora..."
Maria recolheu-se novamente. Ivan afastou-se sem rudo e no viu que Maria o 
observava 
por entre plpebras descidas.
L fora, o czar fez sinal a um streltsy:
-        Sabes se o mdico alemo est em casa?
-        Sublime czar, o mdico encontra-sejunto do vosso filho - respondeu um 
grande 
homem barbudo que esperava na penumbra.
-        Quem s tu?
-        O servidor do mdico, grande czar.
Sabotkin inclinou-se profundamente. Sem que Trottau o soubesse, fora colocar-se 
ali, a 
fim de apagar qualquer elo visvel entre ele e a czarina.
-        Segue-me - disse Ivan com um gesto -, quero falar ao mdico.

Sabotkin correu para o preceder. Sabia que Trottau devia estar no meio do seu 
exame 
mdico. Seria um espectculo que convenceria o czar da falsidade das suas 
suspeitas. Diante da 
porta do filho do czar, o servo parou e caiu de joelhos.
-         aqui, grande czar.
Um pontap do czar f-lo cair para o lado. Outro pontap abriu a porta.
Trottau endireitou-se. Estava inclinado sobre a cama, de braos nus e massajava 
o 
herdeiro do trono.
De cabea baixa como uma guia que espreitasse a sua presa por entre as ervas 
altas, o 
czar ficou parado no limiar.
Durante um momento, que pareceu a Trottau uma eternidade, ficaram face a face: o 
czar, 
de pernas afastadas, apoiado no seu bordo com ponta de ferro, e o mdico, 
profundamente 
inclinado. Sobre a cama, o filho do czar levantava a cabea, fechava a camisa 
sobre o peito 
estreito e branco e punha os ps no cho.
-        Que Deus te abenoe, paizinho! De onde vens? Ningum te esperava!
-        Aprendi a voar, meu filho! - respondeu o czar. Estendeu o brao direito e 
tocou 
com a extremidade do seu posocb no pescoo de Trottau, que continuava  espera, 
de cabea 
inclinada. - Tu s um homem instrudo, mdico, dir-me-s que um homem no pode 
voar, mas eu 
digo-te:
fui capaz de voar. Acreditas?
-        Sim, senhor. - Trottau endireitou-se. Os seus olhares entrechocaram-se 
como 
lminas de espadas.
O czar ergueu os seus sobrolhos hirsutos. "Este homem no conhece o medo", 
pensou. 
"Estou a tocar-lhe com a ponta do meu bordo e ele olha-me com o orgulho do mais 
forte. 
Bastaria um leve gesto do meu punho, a ponta de ferro enterrar-se-ia no seu 
pescoo, e ningum 
se preocuparia mais com Trottau. Quer seja mdico ou boiardo, so todos koulaks. 
Vivem apenas 
porque eu o desejo. Seria preciso verdadeiramente enterrar esta ponta!
Mas no o fez. Baixou lentamente o posoch e apoiou-se de novo nele, enquanto a 
ponta 
de ferro trespassava o espesso tapete.
-        Respondes-me que sim? Como  que os idiotas podem tornar-se mdicos?
-        Por que motivo  que os czares no ho-de voar? No podem tudo?
-        Eis uma boa resposta. - Ivan sentou-se numa cadeira junto da cama do 
filho. - 
Sentia nostalgia de Moscovo - continuou aps alguns minutos de silncio 
angustiante. O filho do 
czar mantinha-se tambm silencioso. Conhecia o pai melhor do que Trottau e via 
cintilar nos 
olhos dele
o frio da crueldade e a alegria que deve sentir um gato que se diverte com um 
rato sem defesa. - 
Conheces o desejo, mdico?
-        Sim, sublime czar.
Trottau ficou em guarda. A conversa tomava um tom perigoso. A pergunta seguinte 
provou-o.
-        Cita-me algumas nostalgias ou desejos, mdico!
-        Saudades da terra natal, senhor.
Ivan baixou a cabea.
-         a nostalgia ancestral dos Russos... est bem, continua.
-        O desejo de paz.
-        Um sonho, mdico.

-        O desejo de ser rico.
-        Destri a pessoa humana.
-        O desejo de possuir sade.
-        Um sonho prodigioso. Existem indivduos completamente saudveis, mdico? 
Deves sab-lo: j alguma vez viste um indivduo perfeitamente so?
-        No, sublime czar.
-        Ento eu tambm estou doente?
-        Como nenhum ser humano  perfeito, um corpo pode ter tambm imperfeies.
O czar apoiou o queixo sobre o cabo do seu posoch.
-        So esses os desejos que conheces?
A armadilha estava aberta, mas Trottau no se deixou l cair.
-        So os mais importantes, senhor.
-        E o desejo de possuir uma mulher?
-        Experimenta-se, sublime czar, mas no se fala dele.
-        Bem dito, mdico, mas com demasiada ousadia! - Ivan levantou a cabea. - 
Conheces ento o desejo de possuir uma mulher?
-        Sim, senhor.
Olharam-se de novo. Nos olhos de Ivan cintilava um brilho impiedoso e o 
sentimento da 
sua fora. Trottau compreendia agora porque  que as pessoas se ajoelhavam por 
terra em frente 
do czar e como agradeciam a Deus, na maior das felicidades, se o czar se 
afastava sem deixar 
atrs de si um rasto de sangue.
-        Que mulher? Tens tambm a coragem de dizer o seu nome?
-        Chama-se Elisabeth e vive em Aix-la-Chapelle.
Foi uma resposta to clara e precisa e ao mesmo tempo to inesperada que Ivan se 
calou e 
ficou sem saber o que dizer. Como viu que o filho se ria em voz baixa, o czar 
bateu com o seu 
bordo no cho.
-        Por que motivo te tornaste mdico, diz-me, alemo? - O czar enterrou o 
posoch 
no vesturio negro de Trottau, quase a roar-lhe a pele. Trottau mantinha-se 
imvel. O mais 
ligeiro movimento poderia enterrar-lhe a afiada ponta de ferro na pele. - Um 
homem como tu 
parece-se com os loucos, pois s um louco pode dizer as verdades neste mundo. O 
facto de se 
rirem dele prova que a verdade  uma inimiga temida. At agora venci todos os 
meus inimigos, 
sabes?
-        Diz-se isso, sublime czar.
-        Sabe-se! - gritou Ivan. - De que doena sofre a czarina?
-        De solido, senhor.
-        Que imbecil! Todo o imprio russo pertence  czarina.
-        De que serve um imprio a uma mulher? A cabana mais suja pode ser para ela 
um 
bem precioso, se contiver a sua felicidade.
O rosto de Ivan modificou-se. A crueldade desapareceu dos seus olhos.
-        Maria  infeliz? - perguntou em voz baixa. - Foi ela que to disse?

-        Como  que a czarina falaria a um humilde servidor? Mas um mdico l as 
doenas 
mesmo no olhar. J Hipcrates dizia que os olhos so o espelho da alma. Quando 
estveis na 
Litunia, grande czar, ela tinha os olhos tristes.
Ivan deu um salto. O filho recuou imediatamente, com os olhos sados das 
rbitas. "Agora 
vai trespass-lo", pensava. "A Litunia e a Polnia so as preocupaes malditas 
do czar e 
Trottau ousa falar na Litunia e ao mesmo tempo na czarina! , na verdade, um 
bom mdico, mas 
um idiota! Adeus, irmozinho!"
-        Amanh hs-de examinar-me - disse lvan com dureza. - Est preparado depois 
da 
missa da manh. - Dirigiu-se para a porta e parou bruscamente! - No, amanh 
no, agora! Um 
czar tem sempre sade, sabias?
-        Vou sab-lo, senhor.
Trottau abotoou a camisa, pegou na maleta que pousara no cho e inclinou-se 
diante do 
filho do czar, imvel de inquietao.
-        Vais ver e ouvir! - Um sorriso mau apareceu no rosto do czar. - Vou 
mostrar-te 
como se cura a czarina!
Abriu a porta. Os guardas que esperavam na antecmara estavam direitos como 
rvores. At os olhos deles pareciam de madeira. O czar precipitou-se para os 
compridos 
corredores, com o seu manto trtaro a flutuar-lhe em volta do corpo magro. 
Trottau seguia-o e  
medida que se iam aproximando dos monges que cantavam, o seu corao ia-se 
crispando cada 
vez mais, dolorosamente. Julgava adivinhar os pensamentos e os planos de Ivan, 
pelos quais ele, 
Trottau, se tornaria o confidente de actos que o entregariam para sempre ao 
czar.

Captulo 10

Maria Temriouka continuava as suas oraes sempre sentada na cadeira 
cerimonial. Os monges cantavam o segundo Credo. Trs jovens novios do convento 
renovavam 
as velas. Dois gigantescos servos agitavam grandes sinos de bronze que acabavam 
de trazer. Era 
uma cerimnia de um fervor perturbador, como geralmente s se celebrava na 
Pscoa.
O czar parou no meio da sala e fez sinal a Trottau para se colocar a seu lado. A 
claridade das numerosas velas iluminava o rosto de Ivan.
- Como  bonita! - murmurou com voz rouca de emoo.
-  uma cerimnia magnfica - respondeu Trottau.
- Falo da czarina, imbecil! - Ivan atirou para o cho o seu manto bordado e 
deixou 
simplesmente cair a seus ps o bon pontiagudo, bordado a ouro. - L para fora! 
- gritou com 
uma voz to forte que cobriu todos os cnticos piedosos, que cortou como se 
fosse uma espada. 
As vozes dos monges calaram-se, afogando-se naquele grito. - Saiam todos! 
Cantareis de novo ao 
pr do Sol! O patriarca dir a missa! Quero ver  minha volta todos os popes de 
Moscovo! Quero 
beijar as cruzes consagradas! Mas agora, saiam! Saiam todos!
Os monges agarraram as pregas dos seus trajes e precipitaram-se para fora da 
sala. Os 
novios seguiram-nos com a mesma velocidade e, finalmente, tambm os dois 
gigantescos servos.
Ivan voltou-se, deu trs grandes passos e parou em frente de Maria. Com um punho 
duro 
agarrou no sumptuoso vestido de Maria e rasgou-o no peito. Arrancou-lho em trs 
puxes 
brutais, de modo que a czarina ficou nua at  cintura, imvel na sua cadeira de 
ouro, branca 
como se tivesse sido esculpida em alabastro.
-        Ela est doente! - exclamou Ivan tomado de uma violenta excitao, fazendo 
sinal 
a Trottau para se aproximar. - Vem aqui. Olha para isto.  o corpo de uma 
doente?
Obedecendo, Trottau foi colocar-se diante da czarina, cujos olhos o trespassaram 
quando 
ele se inclinou para aplicar o ouvido ao peito nu. Com um pontap Ivan atirou-o 
para o lado. 
Depois riu com um riso terrvel, demente, que gelava o sangue.
-         assim que um czar cura os males da czarina! - gritou. - V bem, mdico! 
Fica a 
e no te mexas! - Tirou Maria da cadeira dourada e empurrou-a para a grande 
cama. O que se 
passou ento foi um espectculo que ficou gravado no
crebro de Trottau como se fosse feito com um ferro em brasa, como uma marca 
infamante que 
no se podera apagar.
At de madrugada ficou de p diante da parede coberta de icones, enquanto Ivan e 
Maria, 
na vasta cama, presos de uma paixo desenfreada, faziam amor como se se batessem 
at  morte. 
Pareciam ter esquecido a presena do mdico, mas fingiram apenas.
Por duas vezes, no auge do xtase, Ivan voltou a cabea e olhou Trottau 
intensamente, 
com uma expresso de triunfo que no escondia uma ameaa que Trottau compreendia 
muito 
bem: quem viu isto, quem foi testemunha da maneira como o czar rendeu homenagem 
 czarina, 
j no  um homem, mas apenas uma coisa...

Ao fim de duas horas, Ivan soobrou e caiu da cama. Ficou estendido sobre as 
peles 
espalhadas pelo cho, meio desmaiado. Ivan estava vencido. Adormeceu, o corpo 
miservel 
curvado e dobrado s'obre si mesmo. A czarina saiu ento da cama, ajoelhou perto 
e pousou a 
cabea de Ivan sobre os seus seios.
Ps depois as mos sobre a cara e inclinando a cabea para trs recitou com voz 
cantante, numa 
lngua desconhecida, velhas frmulas que exorcitavam o czar. Maria recordava 
crenas oriundas 
da velha sia. As velas consumiam-se. S duas lamparinas de azeite iluminavam o 
grande quarto.
Os Cofres dourados cintilavam docemente e diante deles o homem mais poderoso do 
mundo 
estava estendido, quebrado por um amor que ultrapassava as suas foras. Obscuro, 
reduzido ao 
estado de sombra, Trottau mantinha-se junto da cama, pregado ao solo por esta 
revelao: se 
vivia ainda, a sua vida j no lhe pertencia.
O sussurrar montono das frmulas mgicas cessou. Maria pareceu despertar de uma 
meditao que a transportara para um outro mundo.
-        Ele ser sempre meu escravo - disse num murmrio. - Pode reinar, mas no 
me 
dominar nunca. Porque no dizes nada, urso louro?
Trottau respirou fundo. Aquilo que fora obrigado a ver afastava-o para sempre da 
czarina. 
Ela ainda no o compreendia e teria sido mortalmente perigoso revelar-lho.
-        Tivemos sorte - disse por fim. - Ele teria podido surpreender-nos.
A czarina teve um riso contido, afastou a cabea de Ivan e foi, nua, colocar-se 
em frente 
de Trottau.
-        Amou-me diante dos teus olhos - disse ela. - Fez de ti, assim, um segundo 
czar.
-        Estou aniquilado! Perdi esta noite a minha personalidade.
-        Mas conquistaste-me para sempre. No  uma boa troca?
Abraou-o e cobriu-o de beijos. Ele suportou-os, fechou os olhos, pensou na 
pureza 
celestial de Xenia e sentiu-se como que liberto do inferno quando Maria o largou 
e voltou para a 
cama.
Aos primeiros alvores da aurora - o cu de Moscovo anunciava um quente dia de 
Vero -, 
Maria enfiou um roupo leve como um vu e saiu do quarto. Trottau adormecera na 
cadeira 
dourada. Acordou em sobressalto, com um pontap.
Ivan mantinha-se na sua frente, plido, com
grandes olheiras em redor dos olhos, vacilante de fraqueza.
Trottau ergueu-se de um salto e inclinou-se.
-        O czar deseja alguma coisa?
-        Tu no deves dormir, velhaco!
Ivan inclinou-se, gemendo, pegou no seu manto trtaro e p-lo nos ombros, depois 
pegou 
no seu comprido bordo com a ponta de ferro afiada e reuniu todas as suas foras 
para o enterrar 
no forte soalho de madeira. Por fim recuou um passo e sorriu, com dio. O grande 
bordo 
vibrava entre eles, transformado numa arma mortal.
-        Arranca-o! - ordenou o czar. -  o teu destino!
-        Bem o sei, senhor. - Trottau pegou no posoch, arrancou-o do cho, ergueu 
os 
braos e enterrou a comprida ponta de ferro profundamente no solo, de maneira 
que ela no 
vibrou mais.

Com os seus pequenos olhos de plpebras franzidas, Ivan olhara-o.
-        A fora no  nada - declarou. - O poder  tudo!
A czarina reapareceu. Vinha sozinha e trazia nas mos uma bandeja de laca 
chinesa sobre 
a qual estava colocada uma grande tigela de ch com um aroma delicioso. Pousou a 
bandeja sobre 
a cama, dirigiu-se para as janelas e puxou as cortinas, para deixar entrar o sol 
matinal, ainda 
plido. Depois voltou, fez deslizar o roupo e serviu nua o ch ao czar.
Ivan apertou os punhos. Com um repelo brutal
arrancou-lhe a bandeja das mos e mergulhou-lhe os dedos na cabeleira escura, 
que lhe flutuava 
em volta dos ombros, e atraiu-a para si.
-        Queres matar-me, diabinha? - gritou. - Que fazes de mim? A tua beleza 
consumir-me-!
Endireitou-se. Via-se que estava tenso; de sbito estendeu o punho fechado para 
a frente e 
deixou-o cair com fora no alto da cabea de Maria.
A czarina vacilou, tentou manter-se direita enquanto um sorriso lhe passava 
pelos lbios e 
estes esboavam algumas palavras. Trottau adivinhou o que ela queria dizer: "Tu 
s o senhor. 
Bate outra vez, Ivanouchka! Sinto-me feliz, senhor dos senhores!"
Depois caiu.
Ivan voltou-se para Trottau:
-         assim que um czar cura as doenas das mulheres! - concluiu, satisfeito. 
- Agora 
 a tua vez, mdico. Acorda-a... beberemos o ch matinal num alegre 
entendimento.

S mais tarde  que Trottau foi autorizado
a voltar para a sua casa na praa do Kremlin.
O criado Afanasi Loukanovich Sabotkin esperava-o. Preparara-lhe um banho quente 
numa
grande selha de madeira, tendo tambm  mo as
toalhas quentes e dois baldes com gua fria.
-        Isto far-te- bem, senhor - disse ele. - No meu pas dissipamos as fadigas 
da noite 
com gua fria e quente alternadamente...  uma coisa que expulsa os maus 
espritos do corpo!
-        Tens aspecto de seres uma pessoa razovel, Afanasi! - Trottau despiu-se e 
sentou-se na gua quente. Sentiu como que um choque e o sangue comeou a pulsar-
lhe nas 
artrias. Em seguida levantou-se de um salto, como se tivesse sido picado por 
uma tarntula, 
quando Afanasi lhe lanou para cima do corpo um balde de gua gelada.
- s doido? - gritou Trottau.
-        O diabo foi-se embora, senhor! - Sabotkin sorria largamente. - Mais uma 
vez gua 
quente, em seguida fria... ento ficars capaz de domar um garanho!
Sem esperar o consentimento de Trottau, empurrou-o para dentro da selha com gua 
quente. Como Sabotkin era um gigante, Trottau no tinha possibilidade de se 
defender. 
Mergulhou na gua quente e voltou a sair de l rapidamente quando um segundo 
balde de gua 
fria caiu sobre ele como um punho de ao.

-         preciso notar, grande diabo, que me sinto fresco como nunca! - exclamou 
Trottau quando, por fim, se embrulhou na grande toalha quente. - Onde est o 
garanho que me 
prometeste, grande barbudo?
Sabotkin sorriu com ar contente. " um bom amo", pensava com uma ternura quase 
paternal. " o primeiro que no me bate, nem me cospe na cara, nem me d 
pontaps, nem me d 
pauladas nas costas... Trata-me como um homem..."
Caiu de joelhos, agarrou na mo direita de Trottau e beijou-a apaixonadamente:
-        Senhor, eu sou apenas um miservel e estpido palafreneiro, mas por ti 
deixaria 
que me cortassem a cabea!
-        Porqu, Afanasi? Ainda preciso da tua cabea. Arranja-me qualquer coisa 
para 
comer, uma tisana quente, e diz a todos que perguntarem por mim que sa a 
cavalo.
Sabotkin inclinou-se profundamente.
-        Ela j est deitada ao sol - disse.
Trottau sentiu-se como se tivesse sido trespassado por uma flecha. Ergueu 
vivamente a 
cabea barbuda de Sabotkin:
-        O qu?
-        Xenia Igorovna.
-        Que sabes tu de Xenia, demnio?
-        Quando o amo se mostra imprudente, convm que a sua sombra o proteja. Eu 
encontrava-me no jardim,  espreita, enquanto o meu amo l se encontrava.
-        Como sabes o nome dela?
-        A sombra  filha do sol. Qual  o filho que no sabe o nome da me?
Trottau largou Sabotkin. Era intil fazer-lhe outras perguntas. No serviria de 
nada ficar a 
saber como Sabotkin se pusera ao corrente da situao. O importante era que o 
criado se 
encontrasse sempre junto dele, pois Trottau sabia que s estaria em segurana 
sob a sua 
proteco.
-        Vou imediatamente ter com ela - disse Trottau. - Depressa! Prepara-me um 
ch e 
traz-me roupas!
-        Tens tempo, senhor. - Sabotkin pegou na grande selha, levou-a at  janela 
e 
despejou o seu contedo para fora. - O guarda pessoal do filho do czar tornou-se 
meu amigo - 
continuou Sabotkin. - A primeira camareira da czarina ser minha amante... O 
segundo guarda da 
porta dos aposentos do czar  da minha terra. Meu amo bem-amado, saberemos tudo 
o que se 
passa no Kremlin. Mesmo as suas muralhas mais fortes estaro cheias de orificios 
para ns...

Captulo 11

Sabotkin era um homem avisado e vigilante. No entanto, havia algum que ele no 
vira e 
que se encontrava justamente no jardim privado do filho do czar e que andava de 
arbusto para 
arbusto, escondendo-se e aproximando-se cada vez mais do stio em que se 
encontrava Xenia, 
que de nada desconfiava e que estava estendida sobre a relva oferecendo o seu 
lindo corpo nu  
carcia do sol.
Toda a gente em Moscovo conhecia o prncipe Semion Ivanovich Pritchev. Gozava de 
grande favor junto do czar, caava com ele nas florestas, porque, na poca da 
morte da primeira 
czarina, Anastsia, fora ele que lhe arranjara muitas das mais belas raparigas 
de Moscovo e da 
Rssia branca, at ao dia em que ele encontrara aquela que seria, 
simultaneamente, o seu grande 
amor e a sua maior infelicidade, Maria Temriouka.
Seguidamente afastara esse amigo da sua presena, porque Maria o exigira, mas 
no o esquecera. 
Oferecera a Pritchev um grande e belo domnio, com dois mil servos, e nomeara-o 
cavaleiro da 
Virgem. Quando das recepes oferecidas no Kremlin, Pritchev tinha o direito de 
ficar de p atrs 
do trono de Ivan, com uma lana na mo. Quando das execues pblicas dos 
traidores do czar, o 
prncipe tinha a honra de fazer cair a primeira cabea ou de trespassar um 
condenado com a sua 
lana.
Sucedera que dois dias antes Semion Ivanovich Pritchev, espreitando pela janela, 
enquanto percorria os aposentos do filho do czar, vira Xenia nua, deitada ao 
sol. O homem que se 
encontrava junto dela no interessava a Pritchev. Os homens ligados a belas 
mulheres nunca o 
tinham inquietado: ou eles fechavam os olhos ou ento fechavam-lhos para sempre. 
Era processo 
simples que Pritchev no tinha necessidade de contar a ningum. Ser amigo do 
czar era como 
encontrar-se envolto nas pregas do manto de Deus.
O filho do czar no se encontrava na sala quando Pritchev vira aquela linda 
rapariga 
estendida ao sol, e o prncipe nada lhe dissera quando Ivan, o herdeiro do 
trono, aparecera. Mas 
no dia seguinte Pritchev observara o banho de sol de Xenia oculto atrs de um 
arbusto, onde o 
vigilante Sabotkin no o pudera ver, do stio onde se encontrava, que era a 
janela do quarto do 
prncipe, para onde o seu amigo, o guarda, o levara.
O prncipe Pritchev cerrara os dentes ao ver Trottau e Xenia abraarem-se 
ternamente. O 
desejo de possuir aquele corpo de sonho, o mais belo que ele j vira, tornara-se 
to forte que ele 
decidira aniquilar aquele homem, fosse ele quem fosse.
Nessa manh Pritchev tivera sorte. Ajovem encontrava-se sozinha. Como de costume 
estava deitada sobre a relva, nua, ao sol. O prncipe conseguira chegar em 
silncio junto de uma 
rvore que o ocultava. Apenas uma curta distncia o separava de Xenia e o sangue 
latejava-lhe 
nas tmporas.
Lanou-se sobre Xenia como uma ave de rapina, tapando-lhe ao mesmo tempo a boca 
para sufocar o grito dela.
Foi nesse instante que Trottau saiu do subterrneo e apareceu no jardim. No 
mesmo 
instante Sabotkin saltou da janela baixa onde estava de guarda, rosnando como um 
lobo.

Xenia lutou desesperadamente contra o corpo forte que pesava sobre si, 
defendendo-se 
com pontaps e mordendo a mo que lhe cobria a boca; conseguira mesmo voltar-se 
para gritar. 
Foi, no entanto, um grito dbil, logo sufocado, pois Pritchev enterrara-lhe a 
cara no solo e 
apertava-lhe o pescoo com as duas mos.
 - Meu cisne louro - dizia ofegante -, pretendes resistir a Pritchev? Nenhuma 
rapariga da Rssia 
que me tenha agradado ousou faz-lo. Acaba com isso ou aperto-te o pescoo at 
pedires 
misericrdia. Quando se  to bela como tu, pertence-se a Pritchev!
A sua respirao ofegante e bestial e os gritos abafados de Xenia no deixaram 
ouvir o 
rudo dos passos de Trottau, que se aproximava. O mdico corria, com os braos 
estendidos, e foi 
chocar com toda a fora com Pritchev, que largou imediatamente Xenia e se voltou 
para o 
recm-chegado, gil como um gato, enquanto Trottau se punha de joelhos. Com as 
pernas 
afastadas, a cabea enterrada entre os ombros, o boiardo fitava o seu 
adversrio. Tirou 
bruscamente do cinto um punhal curto, um pouco curvo na extremidade, com o cabo 
coberto de 
diamantes, e sorriu malevolamente.
- O apaixonado! - disse ofegante. - Vejam isto, anda todo vestido de negro, como 
um 
funcionrio. Sem dvida  o que tu s! Um escrevinhador, talvez? Ests 
autorizado a lamber as 
botas ao czar e alimentas-te de percevejos, no ? Sai da minha frente, 
koulak!
Trottau levantou-se. Xenia estava 
estendida sobre a erva, quase desmaiada, 
com grandes 
marcas vermelhas no pescoo. Chorava, com 
o rosto escondido nas ervas, com as mos 
a taparem 
os ouvidos, tremendo de medo.
- Ignoras quem eu sou? - perguntou o 
prncipe Pritchev.
- Isso no me interessa! Atacaste 
Xenia... basta para que eu te mate...
- Vejam l que prospia! - Pritchev 
apertou com mais fora o cabo do seu 
punhal. - H em 
Moscovo trs amigos do czar: eu sou o 
primeiro!
Com estas palavras saltou sobre Trottau, 
mas este adivinhara o seu ataque e 
desviara-se.
O golpe mortal foi desferido no vcuo.
O boiardo girou sobre si mesmo, com os 
olhos a brilharem de raiva e de vergonha. 
Trottau no estava armado. Para que havia 
de usar espada para ir ter com Xenia ao 
jardim? Nas 
horas reservadas ao amor apenas era 
preciso o corao. Alm disso, aquele 
jardim pertencia ao 
filho do czar. Ningum tinha a chave da 
pequena porta aberta no muro e a
sua fechadura enferrujada parecia no ser 
aberta h anos. Trottau no podia 
perceber como 
aquele boiardo entrara no jardim. Mas 
bastava que ele l estivesse. Trottau 
sabia que s um dos 
dois antagonistas sairia dali com vida. 
No havia outra soluo. A vida de Xenia 
e de todos os 
seus dependia do resultado daquele 
combate.
Pritchev preparou-se de novo para saltar. 
O filho do czar fora caar com o pai e a 
czarina. 
Quase todos os boiardos os tinham 
acompanhado. Um grupo numeroso cavalgava 
nesse momento 
pelas 'florestas  procura de ursos, de 
linces, de castores. Cinquenta batedores 
iam  frente, 
munidos de tambores e de cometas, de 
sinos, empurrando a caa na direco do 
czar.
-. Pritchev sabia tudo isso e estava 
certo da sua vitria.
? - Reza, funcionariozinho. Reza. Ests 
perdido!
Atacou novamente e mais uma vez Trottau 
conseguiu evitar o seu punhal no ltimo 
minuto.

O boiardo rangeu os dentes de raiva, mas 
quando avanou para Trottau, com o brao 
erguido, foi 
atingido nas costas por uma pedra. 
Pritchev voltou-se. Atrs dele 
encontrava-se Afanasi Sabotkin, 
o servo de Trottau, com um largo sorriso 
no rosto barbudo. Dirigiu um sinal a 
Trottau.
- No sujes os dedos em contacto com este 
co fedorento, senhor! - disse em voz 
baixa. 
Abandona-o ao teu escravo.
- De joelhos! - gritou Pritchev. - De 
joelhos, percevejo! Sou o boiardo 
Pritchev. No 
tremes?
- Estou todo a tremer.
Sabotkin aproximava-se lentamente. O 
punhal estendido de Pritchev no lhe 
metia medo.
- O czar vai ficar com menos um amigo. 
Pobre czar que est to s... ir ficar 
ainda mais 
s!
- Vai-te embora, Afanasi - disse Trottau. 
Isto no te diz respeito!
Xenia deitou-se aos ps do seu apaixonado 
e abraou-lhe as pernas. Nos seus grandes 
olhos azuis transparecia um verdadeiro 
pavor.
- Andrei - balbuciou ela. - Morramos 
juntos...
- Para trs! - rugiu Pritchev dirigindo-
se a Afanasi. Agora a voz dele revelava 
medo. 
Estendeu o seu punhal, mas Sabotkin no 
recuou. Apenas a sua mo descreveu um 
semicrculo e 
se abateu sobre o pulso do prncipe. 
Houve um estalar de ossos.
- Mas que ossinhos! - disse Sabotkin, 
surpreendido. - Um frango tem mais fora 
do que 
tu!
Pritchev batia em retirada. Agora estava 
desarmado.
- Sers enforcado! - disse.
- No o creio...
O gigante aproximava-se.
- Sers esquartejado, decapitado, pregado 
ao solo!
Pritchev voltou-se, mas no viu qualquer 
possibilidade de fugir.  sua volta s 
havia 
paredes. Numa delas viam-se duas janelas. 
Eram dos aposentos do filho do czar, que 
fora  caa. 
Mas uma dessas janelas estava aberta e 
nela debruava-se um guarda, o novo amigo 
de Sabotkin.
- Chama a guarda! - gritou-lhe Pritchev 
desesperado. - Tu conheces-me bem!
O guarda assim interpelado inclinou-se na 
janela e gritou em resposta:
- Que o meu amigo Afanasi te mate sete 
vezes! Sete vezes para que nada reste de 
ti! 
Lembras-te de Varvara, a criada de Ivan 
Prokovdevich Tchitin? Era minha sobrinha. 
Tu dormiste 
com ela e mandaste-a enforcar na 
floresta... Afanasi, mata-o sete vezes!
- Nada receies, irmozinho! - rugiu 
Afanasi batendo com as enormes mos uma 
contra a 
outra. - Quando eu o largar, estar 
irreconhecvel!
- Guarda! - gritava Pritchev. - Guarda! - 
Comeou a correr, mas era-lhe impossvel 
saltar 
os altos muros que cercavam o jardim. 
Sabotkin seguia-o lentamente, com uma 
expresso parada.
Trottau ajoelhou-se junto de Xenia. 
Apertava-a Contra si e escondia-lhe o 
rosto entre as 
roupas.
- No olhes para l, no ouas... - disse 
em voz baixa - e esquece tudo o que se 
passou 
hoje aqui.

O boiardo e o servo estavam agora frente 
a frente. Pritchev no tinha qualquer 
possibilidade de escapar. Ele sabia-o e 
um brilho de angstia aparecera-lhe no 
olhar, enquanto o 
suor lhe corria pela cara. Depois fez 
algo que nunca pensara fazer.
O prncipe Pritchev ajoelhou-se em frente 
do escravo e ergueu as mos.
- Mil rublos de ouro - balbuciou.
- Reza, prncipe, reza - respondeu 
Sabotkin. - Ser melhor.
- Trs mil rublos de ouro...
- Pai celeste, tem piedade de um pobre 
pecador... - replicou Sabotkin, que 
cantava uma 
orao  maneira de um pope.
- Pedirei ao czar que faa de ti um homem 
livre! Sers um senhor! - gritou 
Pritchev.
Os olhos quase lhe saam das rbitas. 
Sabotkin agarrou-o pela gola do casaco e 
p-lo de 
p.
- Ele tem uma alma,  Pai eterno - voltou 
a cantar Sabotkin.
O boiardo soltou um grito dilacerante. 
Trottau apertou mais o rosto de Xenia 
contra o seu 
peito e tapou-lhe os ouvidos com as mos. 
Ele prprio baixou a cabea e fechou os 
olhos. 
Apeteceu-lhe gritar: "Deixa-o viver!", 
mas era impossvel: com esse gesto 
generoso mataria 
Xenia, os pais dela, Sabotkin, o guarda 
do filho do czar e a si prprio...
Sabotkin agarrou o boiardo pelas roupas 
cobertas de bordados preciosos e levou-o 
at 
junto do muro que rodeava o jardim. 
Depois, tomando impulso, atirou-o com 
toda a sua fora 
contra esse muro.
Foi uma morte rpida, mas mesmo antes que 
ela tivesse ocorrido Pritchev j morrera 
cem 
vezes de medo.
O que restava dele foi piedosamente 
recolhido por Sabotkin, que o levou para 
o fundo do 
subterrneo para o entregar a Blattiev. 
Trottau caminhava  frente, com Xenia, e, 
de longe, antes 
mesmo de chegarem junto dos seus velhos 
pais, ela gritou-lhes:
- Paizinho, mezinha, eles salvaram-me a 
vida! Ele lanou-se sobre mim como um 
lobo...
Blattiev abraou Trottau, beijou a testa 
de Sabotkin e cuspiu sobre o cadver.
- Quem era? - perguntou Massia.
- O prncipe Pritchev.
- O amigo do czar! Que infelicidade!
- Depende de vocs faz-lo desaparecer 
para sempre - respondeu Sabotkin. - Ele 
no deve 
ser encontrado. Agimos assim por causa de 
Xenia.
Blattiev abanou a cabea, pegou no morto 
e levou-o. Trottau sabia o caminho que 
Blattiev 
seguiria. Voltou-se, estremecendo.
Os ursos...
No deixariam grande coisa de Pritchev. 
Os poucos OSSOS que restariam seriam 
postos 
de lado por Blattiev, como fizera com os 
ossos daqueles que tinham sido 
dilacerados ali, nas 
profundezas da terra, sob os olhos do 
czar.

Captulo 12

O czar ficou dois dias e duas noites no 
meio das florestas com o seu squito. 
Dormia em 
isbs feitas de madeira e de panos 
pintados em cores vivas pertencentes a 
dois dos seus boiardos. 
No segundo dia tomou uma refeio em casa 
do herdeiro da mais rica famlia da 
Rssia, o 
comerciante Stroganoff. O czar recebeu 
como presente um casaco de lontra que lhe 
chegava aos 
ps, de uma cor estranha, castanho-escuro 
quase preto, brilhante como seda. Ivan 
elogiou os 
Stroganoff e recebeu deles a promessa de 
um emprstimo de trinta mil rublos para 
combater o seu 
inimigo, o rei Segismundo Augusto da 
Polnia.
Quando ficaram ss no quarto pomposo de 
Bons Stroganof, depois desse acordo, 
Ivan abraou Maria com uma paixo 
frentica.
Sentia-se forte, o czar. Acabara tambm 
de matar um urso com a sua lana, um urso 
gigantesco. 
Ivan trespassara-lhe o corao com a 
ponta acerada da sua lana, quando o 
monstro se erguera 
para se lanar sobre ele. Maria, rodeada 
por um crculo protector de streltsy 
armados, batera 
palmas e considerara o marido o homem 
mais corajoso que vivia debaixo do Sol. 
Agora tornava-o 
duplamente feliz, desempenhando nos 
braos dele o papel de apaixonada 
submissa.
- Tu matas-me, Ivanouchka! - balbuciava, 
ofegante. - Estou partida... Oh! O mais 
maravilhoso de todos os homens... tu s 
capaz de vencer o tornado da estepe.
No entanto, ao pronunciar estas palavras, 
a czarina pensava no mdico alemo. 
Durante 
uma hora, de olhos fechados, suportara 
todos os beijos, todas as carcias do 
czar, mas ele, o urso 
louro, era o nico motivo do ardor do seu 
corpo. E no fora ele que a vencera, mas 
Trottau, o 
seu Andrei. Era ele que, na sua 
imaginao, a abraava, despertando nela 
delcias supremas.
S por meio de tal iluso  que ela 
suportava Ivan. Quando Maria abriu os 
olhos e viu o 
czar, com a sua cabea de pssaro com 
bico de falco, a sua barba pontiaguda e 
os seus olhos 
cruis, com as pupilas agitadas pela 
loucura, percebeu que na sua vida s 
tinha amado e s amaria 
um nico homem, o belo, o orgulhoso jovem 
mdico que, como um segundo Sol, 
aparecera no 
seu cu.
A felicidade metamorfoseara o czar. Para 
agradecer a Bons Stroganoff, legou-lhe 
por 
testamento gigantescos domnios para alm 
dos Urales, que s tinham um 
inconveniente: faltava 
ainda conquist-los e explor-los. Era 
preciso penetrar nos espaos infinitos 
que se estendiam por 
detrs da barreira rochosa e explorar as 
imensas riquezas
encerradas nos pntanos e nas antigas 
florestas. Alguns cavaleiros, monges 
viajantes diziam 
maravilhas dessa regio. Mas era ainda um 
solo virgem e trs grupos de 
pesquisadores enviados 
por Ivan nunca tinham regressado... A 
Sibria engolira-os.
Um czar muito feliz regressou a Moscovo 
ao lado de Maria. Nem mesmo as notcias 
vindas da Livnia e da Polnia, da 
Alemanha e da Hungria, puderam alterar o 
seu humor.

- Ns venc-los-emos - disse aos seus 
ministros. - Preparem os caixes para 
eles. Um para 
o rei da Polnia, um outro para o 
imperador da Alemanha, um terceiro para o 
rei da Hungria e o 
quarto para o chefe da sublevao da 
cavalaria livnia! Levarei esses caixes 
nas minhas 
expedies punitivas e no descansarei 
enquanto aqueles a quem so destinados 
no estiverem l 
deitados. Quero ver esses caixes amanh: 
sero colocados na escada vermelha!
"A escada vermelha" e a sua entrada em 
Granovitaia Palata... Ivan tinha o hbito 
de descer 
essa escada do palcio dos czares quando 
se dirigia a uma das igrejas para ouvir 
missa, os coros 
dos monges e ser abenoado pelo 
metropolita. Junto dessa escada vermelha 
devia haver um lago 
de sangue, se no houvesse o cuidado de o 
limpar todos os dias.
O marechal da corte encarregou-se de ir 
arranjar esses quatro caixes. Os 
ministros 
desapareceram como sombras ao sol, 
felizes por encontrarem o czar com uma 
disposio to 
benigna. Aproveitaram o seu bom humor 
para desaparecerem do seu campo visual. 
Conheciam 
Ivan demasiado bem...
- Estou cansada - disse Maria, que fora 
para os seus aposentos. - Esta longa 
cavalgada, a 
tua paixo devoradora... j no sinto o 
meu corpo. E tenho uma terrvel dor de 
cabea. V, 
Ivanouchka, tenho os olhos a lacrimejar!
Conseguiu verdadeiramente extrair 
lgrimas dos olhos. O czar olhou-a, 
limpou-lhe as 
lgrimas com as costas da mo e pegou 
nela como se fosse uma criana para a 
levar para a cama.
- Chama o mdico - gemeu ela.
Ivan parou como que fulminado. A antiga 
desconfiana ressurgia. "Que  isto?", 
pensava. 
"Mal regressamos a Moscovo ela geme e 
pede a presena desse lourinho! Sofre da 
cabea? Existe 
um bom remdio para curar esse mal e para 
isso no  necessrio mdico: corta-se a 
cabea 
doente, muito simplesmente! Mas ela tem 
uma cabea to bonita e que ser do mais 
belo corpo 
sem ela?"
Inclinou-se para Maria, arrancou-lhe a 
roupa  altura do peito, puxou-a para 
baixo e 
quando a czarina ficou toda nua, 
estendida na sua frente, foi at  porta 
e gritou para o corredor:
- Chamem o mdico!
Voltou-se. Maria estava deitada sobre a 
cama, imvel, com as mos apertando a 
cabea, 
como se no pudesse suportar os seus 
sofrimentos.
- O mdico, o carrasco e o embalsamador 
so os nicos homens autorizados a ver a 
czarina nua
- disse Ivan lentamente. - Trs homens 
que nunca ficam velhos. Que idade tem 
Trottau?
- No sei, Ivan!
Maria torcia-se. Simulava muito bem os 
seus sofrimentos, mas, na realidade, 
consumia-se 
com desejos de sentir na sua pele o 
contacto das mos
de Trottau. S v-lo bastava para a 
tornar feliz. "Em que  que esse 
indivduo me poder 
interessar?", exclamou. "Ele no conta."

Trottau entrou no quarto da czarina e 
inclinou-se profundamente. Com um olhar 
apreciou 
a situao. O czar encontrava-se entre 
ele e Maria. Era uma formidvel mistura 
de poder e de 
desconfiana. Ivan usava um cafeta 
bordado a ouro, preso na cintura por um 
cinto incrustado de 
pedras preciosas, do qual estava suspenso 
por duas correntes de ouro um punhal 
curvo com 
bainha de ouro incrustada de diamantes. 
Tinha na cabea um bon cnico, cuja base 
era um 
diadema de pedrarias multicolores e de 
prolas de um brilho mate. Tinha na mo o 
seu posoch, 
que se tornara o smbolo do seu poder 
ilimitado. A comprida ponta de ao do 
bordo arranhava o 
espesso tapete.
Estendida na cama, Maria ergueu 
prudentemente a cabea. Ivan no viu 
isso, pois 
observava Trottau e no reparou tambm no 
sorriso que Maria dirigia ao mdico, com 
os lbios 
espetados como que a pedir um beijo.
- Que Deus abenoe o sublime czar e a 
sublime czarina! - disse Trottau. - Vi o 
urso morto 
pelo czar. No deve existir outro to 
forte como aquele!
Ivan ficou perplexo. Aquelas palavras 
desarmavam-no.
- A czarina est doente - respondeu 
secamente e com indeciso. - A cabea... 
Cura-a e 
explica-me que doena tem ela!
Trottau inclinou-se de novo. Enquanto o 
czar ficava de p no meio da sala, ele 
subiu os 
trs degraus que davam acesso  enorme 
cama e inclinou-se sobre Maria. Os olhos 
dela brilharam 
e murmurou baixinho:
- Amo-te.
O czar no pde ouvi-la. Ia e vinha em 
frente da cama.
- Que tem ela, mdico? - perguntou o czar 
depois de Trottau ter virado o rosto da 
czarina 
para um lado e para o outro, enquanto um 
suor frio lhe emanava dos poros com 
receio de que o 
czar ouvisse as palavras ternas que ela 
no deixava de lhe murmurar.
- A czarina no est habituada a estas 
longas cavalgadas - respondeu Trottau. - 
Os seus 
nervos foram demasiadamente postos  
prova...
- Que fazer?
- Vou administrar  czarina um p 
calmante:
ela vai dormir com um sono profundo, mas 
no  uma cura duradoura.
- E que julgas tu ter um efeito durvel 
no caso dela?
- Um conselho, grande czar. A sublime 
czarina devia acompanhar-vos mais vezes  
caa 
ou nas visitas que fazeis aos vossos 
domnios, ou ainda passar revista s 
vossas tropas... enfim, 
por toda a parte! Suportar as fadigas  
uma questo de habituao. Permiti  
czarina que tome 
parte na vossa vida quotidiana fora deste 
quarto e notareis como o seu estado 
melhorar!
Ivan olhava Trottau com ar surpreendido.
- Eis uma boa ideia! - declarou, 
satisfeito. - Vou pensar nisso. - E com 
um gesto, ainda 
com o posoch na mo, acrescentou: - D 
esse p  czarina e vai-te.
"Ele no , portanto, amante dela", 
pensava Ivan, satisfeito. "Qual  o homem 
apaixonado 
que envia a sua amante para longe? O que 
faria era arranjar mentiras para a 
conservar perto dele! 
Trottau, pelo contrrio, aconselha-me a 
levar Maria comigo..."
Trottau aproximara-se de uma mesa e 
misturava vinho doce com um p medicinal. 
O czar 
endireitou-se, dirigiu-se para Trottau, 
ps-lhe os braos em redor do pescoo e 
beijou-o na face 
esquerda.
- Quando beijar a tua face direita, farei 
de ti um prncipe- ou mandar-te-ei cortar 
a cabea!
O teu futuro depende da tua conduta.

Saiu deixando Maria e Trottau ss. A 
czarina esperou que o marido se 
afastasse, depois 
saltou da cama e tirou das mos de 
Trottau a taa de vinho que ele lhe 
estendia.
- Sabujo! - exclamou, furiosa.
-  preciso ter pacincia, Maria. O czar 
tem muitas desconfianas sobre ns.
- Ento matemo-lo! No sabes o que sofri 
durante estes dois dias e duas noites!
- Bem sei. - Acariciou-a com a ponta dos 
dedos e ela estremeceu com esse contacto.
Maria atirou-se novamente para cima da 
cama.
- Isso no te chega? - disse ferozmente. 
- No te basta para o matares? Tens p 
suficiente... e ele gosta de vinho 
aromatizado. No desconfiar de coisa 
alguma!
- O assassnio no  soluo...
L fora ouviu-se o bater de ps 
caracterstico dos guardas que se punham 
em sentido para 
saudar o czar.
-        O czar! - exclamou Trottau.
Maria tapou-se rapidamente e fingiu 
dormir, enquanto Trottau colocava sobre a 
mesa a 
taa que continha a mistura e comeava a 
procurar algo na sua maleta de mdico.
O czar entrou apressadamente no quarto.
- Que est ela a fazer?
- A sublime czarina dorme profundamente. 
Amanh estar restabelecida.
Ivan olhou Maria. Respirava calmamente.
O czar enterrou ento a ponta do seu 
posoch no cho.
-        O prncipe Pritchev desapareceu! - 
exclamou com voz rouca. - H dois dias 
que 
ningum o v! - Esperava uma resposta de 
Trottau, mas este limitou-se a apertar as 
correias da 
sua maleta.
- No conheces o prncipe Pritchev?
-        No, grande czar.
-  o meu melhor amigo. - O czar deixou-
se cair numa cadeira. - E agora 
desaparece sem 
deixar rasto! Enviei cavaleiros aos seus 
palcios e s suas terras. O meu melhor 
amigo... s haver 
traio por todos os lados? Ningum 
gostar de mim neste mundo? Porque me 
odeiam, Trottau? 
Eu s quero o bem dos Russos... Mas 
ningum o compreende... Eu sangro-os para 
que me 
compreendam melhor... Trottau, o meu 
melhor amigo abandonou-me... Agora 
preciso de ti! Tu s 
tambm meu mdico! D-me um remdio 
contra a traio!
Nesse instante Trottau teve piedade do 
czar e sentiu vergonha a ponto de ser 
capaz de 
cuspir sobre si mesmo.

Captulo 13

Durante uma semana inteira procuraram em 
Moscovo, nas florestas, em todo o pas, o 
boiardo Pritchev.
Ivan ofereceu uma recompensa de mil 
rublos. Deu ordens para que a corte 
pusesse luto. 
Ele prprio se vestiu de preto e mandou 
que os monges entoassem cnticos 
fnebres. Cado sobre 
o trono real, conservava os olhos 
fechados. S uma vez se tinha visto o 
czar to profundamente 
triste com um luto: quando a sua primeira 
mulher, Anastsia, morrera subitamente. 
Permanecera 
trs dias e trs noites perto do caixo 
aberto sem que fosse possvel arranc-lo 
de junto da morta. 
Dormia junto dela e s o metropolita de 
Moscovo fora capaz de afastar Ivan da 
defunta esposa, 
para que ela pudesse finalmente ser 
enterrada.
O desgosto que o czar teve pelo 
desaparecimento de Pritchev foi sincero. 
Nem sequer 
Maria conseguia distra-lo. Subitamente, 
a magia daquele corpo radioso esgotou-se. 
Ao tomar 
conhecimento dessa situao, horrorizou-
se. Quando uma mulher no conseguia 
despertar os 
sentidos do czar, isso significava que o 
fim dos seus favores estava prximo. Mas 
Maria 
Temriouka no estava disposta a abandonar 
o seu lugar e a deix-lo a outra. O poder 
que ela 
adquirira com os seus encantos importava-
lhe mais do que tudo. O poder! Era um 
sentimento de 
indizvel supremacia que merecia que se 
acumulassem mentiras, crueldades, sangue.
- Desapareceu - disse ao fim de cinco 
dias Massia Fillipovna a Trottau, no 
subterrneo. - 
Igor dispersou os ltimos ossos...
Blattiev fez um sinal com a cabea 
concordando com essa afirmao e ps-se a 
resmungar 
de tal maneira que se compreendia muito 
bem a que ponto os ursos tinham destrudo 
todos os 
vestgios do boiardo Pritchev.
O rosto de Trottau no denotou qualquer 
emoo. Por amor de Xenia habituara-se a 
no 
se horrorizar com coisa alguma. Blattiev 
no podia ser diferente do que era. A sua 
filha, a sua 
mulher, os seus ursos, eram tudo o que 
ele tinha no mundo. Adorava Xenia, a 
mulher era uma 
companheira fiel e, finalmente, gostava 
dos seus ursos, pois por causa deles 
perdera a lngua, o ar 
puro, o sol, a verdura e a neve.
Depois da morte de Pritchev, Trottau 
acabara com as curas de Xenia ao sol. 
Procuravam 
tambm o desaparecido no interior do 
recinto do Kremlin. Foram passados a 
pente fino todos os 
jardins, mesmo o do filho do czar. Mas 
Sabotkin tivera o cuidado de fazer 
desaparecer todos os 
vestigios do combate. Nada encontraram e 
o filho do czar foi queixar-se a seu pai 
de que 
desconfiavam que ele tivesse escondido 
Pritchev.
Ivan ouviu o filho sem nada dizer, com os 
olhos baixos, a boca crispada. O seu 
bordo 
abateu-se sobre os ombros e as costas do 
jovem. Como o jovem no se mexesse e se 
contentasse 
em dizer: "Mate-me, paizinho, tenho mais 
vontade de ir para junto da minha me do 
que de 
continuar a viver contigo!", Ivan comeou 
a chorar.
Uma vez que ele tinha sado para um 
passeio a cavalo de duas horas, para 
assistir ao 
interrogatrio dos servos de Pritchev, 
nas terras do desaparecido, a czarina 
aproveitou para pedir 
um p calmante. Quando Trottau chegou 
junto dela, ela puxou-o para a cama e 
beijou-o com 
ardor.

Depois o czar voltou abatido, esgotado, 
coberto de poeira e torturado pelas 
alucinaes 
da demncia.
- Trottau - disse em voz baixa -, co 
alemo, invejo-te, tu s mdico, curas as 
pessoas, 
enquanto eu preciso de as suprimir! Tu 
podes viver dos teus conhecimentos, 
enquanto eu preciso 
de usar uma coroa to pesada que me 
enterra no solo! Como est a czarina?
- Espera-vos, grande czar!
- Poderei dirigir-me neste estado para 
junto dela? - Ivan endireitou-se. O seu 
rosto de 
pssaro estava sulcado por profundas 
rugas e os olhos quase lhe desapareciam 
nas rbitas. - Essa 
mulher mata-me tambm, Trottau! Lentamente, muito lentamente, 
com uma suavidade mortal, ela 
vai-me aniquilando. Existir maneira de vencer uma mulher como Maria? Para a 
vencer sempre? 
Mandar-te-ei enforcar, Trottau, se no conheceres!
- Existe um meio, nobre czar - respondeu Trottau, pensativo -,  o repouso...
O czar olhou-o.
- Trottau, tu s um idiota! O repouso! Como se um czar tivesse tempo de 
descansar, a no 
ser no tmulo!
- Vs tendes os vossos domnios, senhor, palcios, fortalezas no campo por toda 
a Rssia. 
At agora s haveis pensado na Rssia. Pensai um pouco mais em vs!
- Eu sou a Rssia! - respondeu o czar com voz sombria.
- Uma Rssia fatigada, coberta de p, sem foras...
- Estou rodeado de traidores! - gritou Ivan saltando da cama. Os seus olhos 
duros, frios, 
cintilavam. - Quando eu era criana, os boiardos quiseram assassinar-me. Agora 
atingem-me de 
outra maneira: enchem o meu corao de suspeitas a respeito da czarina, matam os 
meus 
melhores amigos... Querem esvaziar-me interiormente, Trottau, querem esfomear-me 
a alma. E eu 
iria sair de Moscovo? Isso pareceria uma fuga.
- No, senhor! Isso galvanizaria a ideia de Trottau, nascida da necessidade, 
surgira-lhe 
agora como uma possibilidade de mudar a existncia de Ivan. - Deixai Moscovo 
amaldioando os 
boiardos e o povo cair de joelhos e adorar-vos-!
Ivan fitou demoradamente o seu mdico com um olhar penetrante.
-        Tu s um verdadeiro Satans, Trottau - disse a meia voz. - Reflectirei no 
teu conselho.
Depois pegou numa sineta de prata, atirou-a contra a parede e apareceram 
imediatamente seis cortesos.
-        O meu banho! - gritou. - Roupas novas! O barbeiro! Depressa! - Fez sinal a 
Trottau, que queria afastar-se depois de se ter inclinado profundamente. - No. 
Tu ficas, Trottau! 
Preciso de um homem em quem tenha confiana.
Trottau sentiu-se de novo torturado pelos remorsos. Cada um dos poros da sua 
pele estava ainda impregnado do suave perfume de rosas que emanava do corpo 
quente e 
ardoroso de Maria.


Trottau permaneceu junto do czar enquanto este se mantinha sentado numa 
banheira de prata, em forma de assento, e um criado o ensaboava e lhe deitava 
gua por cima. O 
barbeiro fez a barba e cortou os cabelos ao czar; em seguida Trottau massajou-
lhe as costas e o 
peito, friccionando-lhe o couro cabeludo com movimentos circulares.
Este continuava sentado no seu banho de gua quente, com os olhos fechados, 
uma expresso mais calma. Experimentava pela primeira vez a revelao calmante 
de uma 
massagem  cabea e sentia-se todo invadido por uma sensao de
bem-estar.
-        As tuas mos possuem magia, Trottau, continua.
- Isto basta, senhor. - Trottau afastou-se da banheira-cadeira de prata. - At 
agora era um 
tratamento. Se eu continuasse, far-vos-ia mal!
Ivan ergueu-se e saiu da gua quente. O criado correu para ele para o secar, 
envolvendo-o 
em espessas mantas de l aquecidas.
-        Trottau - continuou o czar com voz triste quando ficaram de novo ss -, 
logo que 
sair deste quarto encontrar-me-ei entre os ratos. Eles esperam-me l fora, os 
boiardos, e so mil 
splicas, mil queixas, mil mentiras... A Rssia assassinou Anastsia, assim como 
o meu pai, o meu 
av, os meus irmos e irms, mas eu no ajoelharei diante deles! Sobreviverei a 
todos! Todos! 
Serei o maior dos czares da Rssia. Ajudar-me-s, Trottau?
-        Sim, grande czar, se puder.
-         um auxlio perigoso que reclamo de ti, Trottau. Ningum saber nunca 
coisa 
alguma. No se falar de ti nos anais escritos do meu tempo, nenhum escritor te 
conhecer e tu 
morrers na mesma altura em que eu morrer...
-        Bem o sei, senhor.
Trottau inclinou-se. Sentia uma intensa sensao de frio porque, com a 
conscincia que 
tinha de viver intensamente, tinha a impresso de ter j perdido a vida.
Era monstruosamente cruel. No lhe restava outra sada seno a fuga. Mas fugir 
para 
onde? A Rssia era imensa e at ele atingir as fronteiras com a Polnia ou com a 
Alemanha, os 
rpidos cavaleiros do czar apanh-lo-iam. Para fugir teria de levar Xenia.
-        Que devo fazer? - perguntou.
-        Vai ter com a czarina e administra-lhe um p que acalme os seus ardores e 
a deixe 
meia adormecida. Dentro de uma hora irei ter com ela... quero conquist-la sem 
ficar eu prprio 
esgotado. Trottau, desejo apaixonadamente essa mulher maldita, maravilhosa...

No se falou mais do plano de Trottau, segundo o qual o czar devia parecer 
deixar 
Moscovo com resignao, enquanto prepararia um golpe mortal contra os boiardos e 
venceria a 
grande batalha destinada a conquistar o amor do povo. Ivan observava os que o 
rodeavam com 
mais desconfiana do que nunca. O nmero das execues aumentou de modo a causar 
vertigens. 
Uma s palavra bastava para que uma pessoa ficasse com a cabea cortada.
No entanto, para Trottau nada mudou. Ouvia durante horas as queixas do czar, 
tratava de Maria, que sofria de pretensas caibras nas pernas, suportava os 
excessos da sua paixo 
selvtica, quando Ivan ia caar, a cavalo, e continuava a ser o confidente do 
filho do czar, sempre 
plido e triste.

Mas por volta do meio-dia, Trottau descia para Os subterrneos, para levar Xenia 
para a luz do dia. Estendia-se ento com ela sobre a erva do pequeno jardim e 
nesses momentos 
era o homem mais feliz do mundo.
- Eu no sabia como era bom viver - disse ela uma vez. - J me tinha resignado a 
morrer...
 - Tu no morrers, Xenouchka.
Trottau auscultava todos os dias a respirao dos pulmes dela e esperava que a 
doena capitulasse, destruda pelo sol e pelo ar puro. Ao fim de seis semanas 
parecia que Xenia 
respirava mais livremente, sem ser to frequentemente assaltada por ataques de 
tosse. Ousava 
respirar cada vez mais fundo e no deixava de cobrir o seu companheiro de beijos 
quando a 
terrvel tosse no a agitava.
- Eu respiro, Andrei! Meu Deus, respiro verdadeiramente!
O filho do czar renunciara a espiar secretamente Trottau e Xenia. Ivan 
Viskovati, 
chanceler da Rssia, arranjara-lhe uma amante, a primeira, uma rapariga astuta, 
sada do povo, 
filha de um curtidor instalado nas margens do Moscva. Tinha conscincia da honra 
que 
representava ser ela a iniciar o filho do czar nos segredos do amor, e 
desempenhava-se to 
perfeitamente da sua misso que o jovem no tinha outro desejo, entre os 
festins, as cavalgadas e 
as cerimnias, do que encontrar-se junto daquela rapariga de corpo macio e 
branco.
-        O teu tratamento com sol e ar puro  um monumento de estupidez! Um homem 
como eu vive de amor! Porque no mo disseste? - disse o filho do czar a Trottau.
-        Achava-o demasiado novo, senhor. - Trottau olhava para a cama do jovem 
onde 
Irina Grigorievna se encontrava deitada sob a manta de seda. A rapariga ia 
comendo um cacho de 
uvas pretas e ia cuspindo as grainhas para o cho.
-        Se o meu pai morresse agora, eu no seria considerado novo de mais para 
reinar! - 
replicou o filho do czar com voz sombria. - Trottau, eu s vivo h trs semanas.
"Ele fala como Xenia", pensou Trottau. "Tambm a ele o amor liberta dos 
malefcios do 
Kremlin e do czar. Tanto um como o outro se refugiam num mundo de sonho e no 
vem que 
apenas esto a cercar o inferno de rosas...
-        Que posso fazer por vs, senhor? - perguntou.
-        Nada, mdico. Quero apenas que saibas que podes guardar sem receios a tua 
ave 
loura: eu no a quero. Agora, de resto, j no preciso de mdico. Vai-te embora!
Trottau inclinou-se e saiu dos aposentos do herdeiro do trono. Desceu para 
debaixo da 
terra e foi comer po de milho com os Blattiev. Em seguida ajudou Igor a 
alimentar os ursos, pois 
ia-se habituando a pouco e pouco a esses gigantes peludos como s onomatopeias 
de Blattiev, 
assim como se habituava ao medo, esse companheiro fiel, o medo de que o czar 
tivesse 
conhecimento do amor do seu mdico por Xenia.
-        Ele nunca viu Xenia - disse uma vez Massia. - De cada vez que aqui vinha, 
ns 
escondiamo-la, pois ele levaria Xenia.  impiedoso!
-        Em breve o czar se afastar de Moscovo - disse Trottau num tom consolador 
- e 
ento o Kremlin ser vosso!
Rodeou com um brao os ombros de Xenia, que lhe sorriu; s pensava nele. Depois 
pousou a cabea sobre o ombro dele.
-        Amo-te!  uma grande felicidade.
-        No existe grande felicidade - resmungou Massia. - Pressinto uma grande 
infelicidade e tenho medo. Ns no nascemos para ser felizes.


Captulo 14

O Inverno chegou durante a noite. A tempestade de neve chegou, uivando, vinda de 
leste. 
Moscovo sufocava debaixo da neve. No Kremlin, os servos corriam em todos os 
sentidos para 
acenderem as lareiras nas chamins. Colocavam braseiros cheios de carvo de 
lenha nos quartos, 
suspendiam tapearias em frente das janelas, calafetavam a mais pequena fenda.
Seguindo o conselho do seu mdico, Ivan comeou a dar grandes passeios de 
tren com Maria, ia para as florestas caar renas, arminhos, martas, zibelinas, 
raposas prateadas. 
Mas essas excurses terminavam muitas vezes da maneira mais conveniente para 
Ivan: mandava 
chicotear os camponeses mais ricos, depois de inspeccionar os seus domnios, 
porque - como ele 
percebia rapidamente - eles entregavam muito pouco das suas colheitas. Dois 
grandes 
proprietrios foram assim chicoteados at  morte.
Calmamente, por vezes com os olhos a cintilar, Maria assistia a esse 
espectculo.
- Agrada-te, minha pomba? - pergunta Ivan.
E ela respondia:
- Sim, meu bem-amado. No se diz que bom czar  um czar severo? Tu s o maior , 
Ivanouchka...
Mas essa felicidade foi de curta durao. O po derio de Ivan diminua. Os 
Polacos saam 
vitoriosos; na Litunia e na Livnia, no se restabelecia a calma e pouco antes 
das cerimnias do 
final o czar recebeu a notcia de que o seu amKourbski, o voivoda da Litunia, 
concluira acordo 
secreto com os inimigos da Rssia. Foi um choque que abateu o czar como se 
tivesse apanhado 
uma pancada com uma maa de armas no crnio.
Durante horas ficou sentado a meditar, nos aposentos, escreveu uma carta a 
Kourbski, 
entregou-a, e escreveu-lhe outra em que lhe explicava o poder absoluto do czar. 
Era um caso 
nico: o czar tentava justificar-se perante quem o trarra. Reflecte bem nisto: 
resistir a quem est
acima de ti  resistir a Deus. E se te comportas assim, s um desertor, o que 
constitui o maior dos 
pecados", escreveu Ivan com mo trmula. "Este pas  governado pela graa 
divina e por ns, 
monarca, e no por juizes e vovoidas. E se se d o caso de ns aniquilarmos os 
nossos voivodas 
por mltiplas maneiras de causar a morte, no deixamos de conservar, com a ajuda 
de Deus, 
grande quantidade de outros voivodas que no so traidores! Depende de ns 
castigar os nossos 
escravos e recompens-los..."
Quando, pouco depois, o czar leu esta missiva a Trottau, chorava. Por fim disse:
- Quando  que j se viu isto, Trottau? Um czar que sela as suas cartas com 
lgrimas? 
Kourbski morrer, ele e toda a sua famlia. Tudo o que se chamar Kourbski neste 
mundo ser 
aniquilado... Mas estas lgrimas, Trottau, estas lgrimas so as que Cristo 
verteu sobre a cruz...
Trottau no respondeu: olhava o czar e verificava que o esprito deste comeava 
a 
soobrar. Um demente ocupava o trono da Rssia.

A carta seguiu para Dorpat, na Litunia, levada por um cavaleiro, mas este era 
acompanhado por um destacamento de homens armados encarregados de matarem o 
prncipe 
Kourbski e a sua famlia.
Obedeceram conscienciosamente. Os streltsy trespassaram com as suas lanas o 
corpo do 
filho do voivoda, com nove anos de idade, e a princesa foi abatida com golpes de 
sabre.
Quanto a Kourbski, no foi encontrado. Confiante na promessa do czar de que 
pouparia a 
sua famlia, entregara esta nas mos de Deus e fugira.
Entretanto, passava-se em Moscovo algo de inimaginvel: o czar deixava o 
Kremlin.
- Se o teu conselho for bom, Trottau - disse ao encontrar-se com o seu mdico -, 
dentro 
de quinze dias serei o monarca mais poderoso do universo! Se for mau, perecers 
comigo.
Na cidade, soube-se ento de factos desconcertantes. Uma imensa coluna de trens 
encontrava-se estacionada em frente do palcio dos czares e numerosos servos, 
carregados de 
baixelas de ouro e de prata, de icones, de cadeiras, de camas, de tapetes, de 
todo o contedo da 
sala de armas, assim como com o tesouro dos czares, ia depositar todas essas 
riquezas sobre esses 
trens.
Com grande aparato guerreiro, os dignitrios da corte esperavam diante da escada 
vermelha. Tinham levado mulheres e crianas que se encontravam tapadas na palha 
quente dos 
trens. Os cocheiros, cobertos por espessas peles de lobo, encontravam-se 
sentados nos seus 
lugares. Servos, servidores, ministros, reuniam-se, preparados para partir. Os 
monges apareceram 
cobertos com os seus espessos trajes hibernais, tendo  frente o metropolita. 
Pareciam todos 
excitados e transbordavam de questes.
A Praa Vermelha, diante do Kremlin, encontrava-se cheia de gente. O povo ainda 
no 
compreendia o que se passava debaixo dos seus olhos e quando interrogavam um 
streltsy, 
recebiam sempre a mesma resposta: "Ningum sabe nada. So ordens de czar!"
Por volta do meio-dia, meia Moscovo estava na Praa Vermelha. Todos tinham os 
olhos 
postos na gigantesca fila de trens. De sbito, a massa dos cortesos que 
esperavam animou-se.
- Dirijam-se para a Catedral Ouspenski! - gritavam os mensageiros do czar. - 
Todos para a 
catedral! O czar vai dirigir-se para l!
Meia hora mais tarde, o metropolita celebrava a mais bela e a mais misteriosa 
das missas. 
A igreja estava de tal maneira cheia de fiis que mal se podia respirar e o coro 
dos monges 
cantava de uma maneira to sublime como nunca se ouvira. Quando o metropolita 
recitou as 
oraes, o czar ergueu-se. Inteiramente absorvido pelos seus pensamentos, caiu 
de joelhos diante 
do Santo Sacramento e rezou com as mos postas.
Tratava-se da comdia mais conseguida alguma vez imaginada por um ser humano. 
Trottau, que se encontrava colocado um pouco mais atrs, sabia exactamente os 
pensamentos que 
agitavam o czar naquele instante. No era de modo algum o amor de Deus, mas sim 
o projecto de 
aniquilar completamente os boiardos.

O czar assistiu, como um mrtir, ao santo sacrifcio da missa e recebeu a bno 
como um 
moribundo. Mas, de sbito, levantou-se de um salto, empurrou o metropolita 
assustado e, 
voltando-se para o grupo de boiardos cobertos de peles preciosas, exclamou no 
meio do silncio 
paralisador:
- Como s tenho traidores  minha volta, como todos me detestam, vou para o 
fundo das 
florestas! Governem, portanto, sozinhos, Moscovo e a Rssia!
Ajudou Maria a sair do seu banco e deu-lhe a mo para a conduzir para fora da 
catedral. 
L fora, na Praa Vermelha, saltou para o seu tren aquecido por pedras quentes, 
ergueu as mos 
e gritou:
- Avante! Sigam-me! Nunca mais quero voltar a ver Moscovo!
Os olhares tristes da multido seguiram-no. Apesar de tudo, o povo compreendeu 
imediatamente que estava entregue sem qualquer proteco  nobreza. Mesmo sendo 
o czar um 
senhor severo, no se limitava a mandar enforcar a gente do povo, mas tambm os 
boiardos e os 
grandes proprietrios.
O czar semeara o terror por toda a parte. Nunca houvera nenhum que lisonjeasse o 
povo. 
Tradicionalmente o czar estava sempre armado de um chicote, mas aquilo que o 
povo tinha em 
perspectiva, o reino dos boiardos, a luta sem merc pelo poder, que se 
desencadearia entre eles, 
ultrapassaria tudo o que a Rssia j suportara.
O metropolita exprimiu isso em voz alta:
- Senhora - gritou na catedral, aps a partida de Ivan -, devolve-nos o nosso 
czar!
Os boiardos no se mexiam, perplexos, desconfiados, amedrontados. Estaria Ivan a 
ser 
sincero? No voltaria nunca? Ou aquela partida seria apenas uma comdia?
Os boiardos decidiram esperar. Um Ivan Rurik no abandonava a partida sem lutar.

A setenta verstas de Moscovo, no centro de florestas gigantescas, encontrava-se 
o grande 
domnio de Alexandrovskaia Sloboda. Servia por vezes ao czar de residncia de 
Vero. Durante o 
Inverno dormitava sob espessas camadas de neve. Nunca um czar visitara aquelas 
terras naquela 
poca
do ano.
A coluna de trens corria velozmente atravs das plancies geladas, dos pntanos 
de neve
brilhante e slida, dos rios cobertos por uma camada de gelo e das florestas que 
os streltsy 
precorriam como batedores, abrindo caminho entre o matagal. Nos pntanos os 
cavalos ficavam 
por vezes atolados e a neve continuava a cair, incansavelmente...
Ivan viajou perto de dois dias para chegar  sua casa de campo. Quando chegou 
estavam 
ainda a limmpar as imediaes da residncia. Os primeiros criados que puderam 
entrar no seu 
interior acenderam as lareiras, colocaram pedras aquecidas nas camas do czar e 
da czarina e 
desenrolaram espessos tapetes sobre os pavimentos gelados.
O czar desceu do seu tren e ajudou Maria a sair debaixo das mantas de peles.
- Este domnio ser a partir de agora o novo corao da Rssia! - declarou Ivan 
em voz 
alta. - Govern-la-ei daqui! Escondam-se como ratos nos vossos retiros, 
boiardos! Daqui eu 
criarei uma nova Rssia!
Depois lanou um olhar  sua volta, como se procurasse algum.

- Onde est Trottau? - perguntou.
Maria olhou-o.
- Em Moscovo. Ele no viajou connosco.
- Porqu?
- Porque viria, Ivanouchka? No passa de um mdicozinho estpido...
- Tem de vir! Imediatamente! - Ivan bateu com o punho no tren esculpido. - 
Quero ver 
Trottau! Tragam-me o mdico!
Dez cavaleiros voltaram para Moscovo a galope e Maria, a czarina, sorriu 
imperceptivelmente quando, pelo brao de Ivan, penetrou na sua nova residncia.
A partir desse momento comeou a partida em que estava em jogo o poder do amor.

Captulo 15

O Kremlin encontrava-se ao abandono. Tinham permanecido ali apenas alguns 
guardas do 
palcio e os monges, no sombrio mosteiro contguo  igreja. Trottau atravessou 
as galerias, as 
salas desertas, envolto numa grande capa forrada, como se passasse em revista a 
destruio do 
domnio russo. Era notvel verificar at que ponto um s homem conseguira dar o 
seu rosto a um 
reino to gigantesco e como isso se esvaa como um mau quadro mal ele se 
afastava de Moscovo.
Que sucederia se Ivan morresse? Que seria da Rssia sem essa mo formidvel? 
Uma mo que s distribuia crueldades e que, no entanto, quando se retirava, 
fazia falta. O 
czarzinho, que era to andino como sua me Anastsia, viria a ser um bom czar? 
Ou sucumbiria 
em poucas semanas torrente de dio dos boiardos, esses prncipes que no 
recuavam perante 
nenhum crime na sua nsia de se apoderarem do poder?
Aquilo que Ivan IV acabava de tentar era uma espcie de prova de fora geral; tinha 
apenas um defeito: a presena do czar era ainda evidente em tudo, ele estava vivo e eram de 
esperar todas as surpresas enquanto ele respirasse.
Pela primeira vez Trottau visitava todo o Kremlin. At ento entrara apenas em certas 
partes do palcio, nos aposentos da famlia do czar e nos subterrneos onde vivia Blattiev.
Percorria agora todas as galerias, deitava um olhar para o interior de certas salas cuja 
desordem evocava a partida desordenada dos seus ocupantes. Sentou-se na sala do trono onde 
Ivan recebia os embaixadores estrangeiros.
E Trottau teve de sbito a impresso de que um peso enorme se abatera sobre os seus 
ombros.
- Que felicidade eu ser mdico! - disse Trottau ao metropolita que encontrou no 
Kremlin.
O santo personagem passeava sozinho pelo palcio abandonado, talvez assombrado 
pelos mesmos 
pensamentos que Trottau. E houve como que um sinal do destino no facto de esses 
dois homens 
solitrios se encontrarem no oratrio do czar.
Um sacerdote, um mdico: dois homens que acompanham o czar at ao seu fim. Dois 
homens sem os quais nenhum czar podia passar, mesmo que odiasse tudo e tudo 
destrusse  sua 
volta. Sacerdote e mdico poderiam figurar nos brases da Rssia.
O metropolita respondeu com um baixar de cabea: a sua abundante barba branca 
chegava-lhe  cintura do seu traje bordado.
- O czar voltar? - perguntou Trottau.
- Ignoro-o. O povo est desamparado, os boiardos perturbados... As igrejas esto 
cheias 
de fiis que rezam e os comerciantes querem enviar uma deputao ao czar para 
lhe pedir para 
regressar. A incerteza ri-nos. O pas divide-se...
Trottau viu afastar-se pelas grandes galerias aquele que era a mais alta 
entidade religiosa 
da Rssia. Era um velho que j no compreendia o mundo...

 tarde, o mdico procurou um tren cheio at acima de palha tpida e deu cinco 
rublos ao 
cocheiro. Era um pagamento de tal modo principesco que o homem caiu de joelhos e 
beijou a orla 
da capa de Trottau, que lhe deu ordem parajuntar uma manta de pele  palha e esperar por ele na 
porta norte do Kremlin. Em seguida dirigiu-se para junto de Xenia e dos pais, ao 
seu labirinto 
subterrneo, e disse-lhes:
- Quando viram Moscovo pela ltima vez? Vou passear convosco pela cidade!
Massia defendia-se com todas as suas foras.
- Vo matar-nos! - gritava ela. - Se o czar voltasse e encontrasse os seus ursos 
sem 
vigilncia! O mundo l de cima no nos diz respeito.
- O czar est longe. Dentro de trs horas estaremos de regresso - respondeu 
Trottau, 
tranquilizador.
- Trs horas! Para furar os olhos a um homem bastam trs segundos e furar-nos-o 
se ns 
tentarmos ver o mundo l de cima!
Blattiev resmungava, corria para todos os lados. Em seguida tirou as botas de 
palha 
entranada e calou outras de cabedal, forradas de pele. Finalmente enfiou um 
casaco de pele de 
lobo e achou-se no dever de pentear a barba com os dedos afastados.
Xenia apareceu, por sua vez, coberta de peles, com os cabelos entranados 
enrolados em 
volta da cabea como uma coroa dourada. Os seus olhos claros brilhavam  
claridade das tochas.
- Neva l fora, tudo  branco e silencioso. A neve  maravilhosa, mamouchka.
Alguns dias antes Xenia vira a neve pela primeira vez, pois Trottau envolvera-a 
em peles e 
levara-a at ao jardim. O sol atravessara as nuvens e os cristais de neve 
irradiavam a sua cintilao 
azulada.
No dia seguinte, ao nevar de novo, Xenia apanhara os flocos de neve com as mos 
para os 
beijar.
- Como  bom viver - dissera ela a Trottau. - Andrei, eu queria no morrer 
nunca!
- Vivers como qualquer outra pessoa, Xenia. No prximo Vero teremos vencido a 
morte.
No se tratava de uma mentira piedosa. Quando Trottau ouvia os seus pulmes, o 
seu 
silvo mal era perceptvel. Xenia podia respirar fundo sem tossir. E ao fim de 
uma hora de sol ou 
de frio hibernal, o seu rosto plido ficava rosado.
"Ela desabrocha", pensava Trottau, comovido. "Um ser doente pode reflorir como 
uma 
planta." Ele sabia que assistia a um prodgio, um prodgio que podia ser, 
talvez, apenas obra do 
amor.

Atravessaram Moscovo de tren, muito lentamente, com guizos a tilintarem nos 
arreios da 
trica, metidos na palha acolhedora, cobertos com peles de animais. Ningum 
reparou neles. Os 
ocupantes dos trens com quem eles se cruzavam
tinham pressa de ir para casa, para junto do calor, e os transeuntes nas ruas 
ainda mais.
Os Blattiev iam de espanto em espanto.
- Tantas belas casas construdas de novo. Como so ricamente esculpidas! E como 
esto 
pintadas de belas cores! Igor Igorovich, lembras-te que h vinte anos apenas 
havia aqui umas 
cabanas miserveis. Repara naqueles telhados cobertos com vigas vermelhas! 
Antigamente s os 
boiardos as podiam ter. Como as pessoas enriqueceram!

Blattiev ia sentado na palha, com a barba coberta de neve e de pedaos de gelo, 
e o seu 
hlito gelava formando pequenos cristais. Resmungava incessantemente e mais 
tarde, quando 
entraram nas grandes ruas largas, enquanto os cavalos relinchavam, lembrou-se 
dos tempos da 
sua juventude e comeou a chorar.
Ao fim de trs horas voltaram ao Kremlin. Quando as torres surgiram ao longe, 
assim 
como o palcio sombrio, o mosteiro, as altas muralhas, os Blattiev esconderam-se 
debaixo da 
palha. Os prodgios ficaram para trs, abafados na neve levantada pela corrida 
do tren.
Um instante depois encontrar-se-iam de novo no terrvel mundo subterrneo, nos 
corredores hmidos, sufocados pelo cheiro das feras. A recordao de trs horas 
de liberdade 
seria o que restaria aos dois guardas daquele mundo sombrio.
Blattiev bateu com os punhos nos lados do tren e uivou como um lobo perdido. 
Massia 
chorou em silncio abraando Xenia como se fosse subir ao cadafalso, e quando o 
tren parou no 
porto norte s Trottau saiu do monte de palha e de peles e saltou para a neve 
que cobria a terra.
- Enquanto o czar estiver ausente, ns daremos todos os dias um passeio de duas 
horas - 
disse. - Amanh iremos  floresta, depois de amanh  Igreja da Virgem Sangrenta 
e o czar estar 
ausente muito tempo.
Os Blattiev olhavam-no, assustados, como se ouvissem falar uma criana.
- Todos os dias? A floresta? Passear pelos campos, tendo por cima das nossas 
cabeas o 
cu da Rssia?
Saltaram do tren, abraaram o cocheiro, beijaram-no nas duas faces, beijaram as 
narinas 
fumegantes dos cavalos, o tren de madeira pintado de cores vivas, depois foram 
de mos dadas 
em direco ao Kremlin e desapareceram por detrs de uma porta oculta que dava 
para as 
profundezas da terra.
S Trottau ficou para trs: tencionava escrever uma carta ao czar.

Pouco aps o regresso dos Blattiev, os mensageiros do czar chegaram a Moscovo. 
Galoparam pelas ruas que conduziam ao Kremlin e mandaram chamar o mdico Von 
Trottau.
O chefe da guarda do palcio que ali ficara disse ter visto o mdico dirigir-se 
para o 
mosteiro, onde, de resto, Trottau se encontrava ocupado a fazer uma operao 
cirrgica. 
Lancetava um enorme furnculo na nuca de um monge.
O oficial, petrificado pelo frio, sentiu-se envolvido em vapores no calor sbito 
da 
enfermaria.
- Ordens do czar! - gritou ele sem se importar com a operao que se estava a 
efectuar. -
O mdico alemo deve dirigir-se imediatamente a Alexandrovskaia Sloboda!
Trottau prosseguiu tranquilamente a sua tarefa, como se nada tivesse ouvido. 
Limitou-se a 
recomendar:
- Levante mais a bacia, irmozinho, mais para perto da nuca. O pus vai agora 
sair!
Pegou no bisturi e cortou o furnculo que se formara. O monge estremeceu e 
rangeu os 
dentes, mas nada disse. Os irmos, reunidos  volta dele, comearam a murmurar 
oraes. Da 
ferida aberta corriam pus e sangue.
- O mdico saber montar a cavalo? - gritou o emissrio, da porta.

Trottau continuou sem lhe dar resposta. Limpava a pele em redor da ferida com um 
pedao de linho molhado em vinho. Em seguida tirou a bacia das mos do monge que 
o ajudava e 
deu alguns passos para o oficial que chegara. Com um gesto brusco aproximou a 
bacia do nariz 
dele. O oficial empalideceu e voltou a cara.
- Se conseguires juntar-te a mim com o teu cavalo antes de chegares a 
Alexandrovskaia 
Sloboda - declarou Trottau com voz forte -, ters o direito de me atirar  cara 
o contedo desta 
tigela, sob os prprios olhos do czar! Se no conseguires, o prprio czar te 
forar a beb-lo!
O oficial engoliu em seco, deitou a Trottau um olhar cheio de dio e saiu com 
passos 
pesados.
- Por que motivo  que o czar te chama? Estar doente? - perguntou o 
metropolita, 
sentado numa cadeira, um pouco afastado dos outros monges.
- Ignoro-o. - Trottau voltou-se para o operado. Monges enfermeiros estavam 
ocupados a 
fazer-lhe o penso. - Que dizem os boiardos?
- Oh, esto ainda a fazer conjecturas. - O metropolita juntou as mos. - O povo 
quer ir em 
peregrinao a Alexandrovskaia Sloboda para suplicar ao czar que volte. Apesar 
de Ivan reinar 
fazendo correr sangue, ele reina! E os Russos sem o seu czar sentem-se perdidos.
Trottau no desejava prosseguir aquela conversa com o metropolita e saiu. Antes 
de 
montar a cavalo precisava de falar com os Blattiev.
Mas isso foi impossvel. Diante do mosteiro esperava-o o destacamento de 
cavalaria 
enviado pelo czar.  Todos os homens tinham mudado de cavalo. Uma bela gua negra 
esperava 
Trottau. A sua modesta bagagem encontrava-se j amarrada a um cavalo de carga. 
Loukanovich 
Sabotkin, o seu criado, estava j montado num cavalo ossudo.
- A caminho! - rugiu o oficial.
Trottau hesitou. Pensava em Xenia. Ela esper-lo-ia em vo e morreria de medo. 
Precisava de a ver. Quis dizer, para arranjar um pretexto, que lhe faltava a sua 
pelia de pele, mas 
j Sabotkin lha entregava.
- Idiota! - murmurou Trottau, furioso. - Vamos, grande fanfarro! - disse em 
seguida 
voltando-se para o oficial. - Aquele que se apresentar primeiro diante do czar 
ganhar! Avante! 
Da vai! Da vai!
Cavalgou ao lado de Sabotkin e disse-lhe com voz cortante:
- Impediste-me de ver Xenia...
- No tinhas tempo, senhor. De resto, revelarias tudo com o teu comportamento. 
No te 
deixariam um s minuto, meu amo. Mas Xenia foi prevenida, foi-me possvel dar-
lhe parte da 
nossa partida enquanto aqueles brutos voltavam a casa de pernas para o ar.
- Hei-de resgatar-te, Sabotkin. Hei-de pedir a tua liberdade ao czar. Sers um 
homem 
livre!
Trottau viu a expresso de alegria no rosto de Sabotkin e soube que se no 
estivessem 
ambos a cavalo ele se ajoelharia na sua frente.
- Conheces o caminho para Alexandrovskaia Sioboda?
- Sim, senhor.
- A dez verstas do fim, descreve-mo claramente. Quero ganhar a corrida! Na 
ltima muda 
arranja-me um bom cavalo.

- O melhor, senhor! - Sabotkin pousou uma mo sobre o corao, depois ambos 
esporearam as suas montadas e partiram a galope envoltos em poeira de neve.

Depois da ltima muda, em que Trottau recebeu um alazo soberbo de pernas longas 
e 
poderosas, o mdico do czar fez sinal ao oficial.
- Ainda te sentes com foras suficientes para iniciares a corrida? Parece-me que 
cavalgas 
como um cordeiro degolado!
- Cavalga-se com o traseiro, no com a garganta - respondeu o oficial.
- Nesse caso, vamos! - Trottau soltou uma grande gargalhada. Sabotkin 
descrevera-lhe o 
caminho a seguir e certo atalho atravs de uma floresta e de um pntano. O 
pntano estava gelado 
e com um bom cavalo quase se poderia voar sobre ele.
Durante uma grande distncia o oficial e Trottau cavalgaram a par, depois o 
alazo do 
mdico comeou a distanciar-se; por fim, ficaram afastados um do outro e Trottau 
aproveitou a 
passagem por um bosque para fazer voltar o cavalo para a direita e dirigir-se 
para a floresta 
seguindo o caminho indicado por Sabotkin. Quando o oficial chegou ao ponto para 
onde Trottau 
se desviara, comeou a rir, bateu com o dedo indicador na testa e continuou a 
galopar.
"No chegar nunca!", pensava o oficial da guarda. "Perder-se- nos pntanos ou 
os lobos 
devor-lo-o!>)
Trottau cavalgava sem descanso. J h muito tempo que perdera a orientao. A 
paisagem 
era sempre igual. Um campo de neve e por cima um cu de chumbo.
Mas o seu cavalo sabia o caminho, pois percorrera mil vezes aquele percurso 
entre a 
estao da muda e Alexandrovskaia Sloboda. Sentia a aproximao dos seres 
humanos e mexia as 
suas compridas pernas para transportar Trottau sobre o pntano gelado.
No encontrou lobos, ouviu-os apenas. Ouviu tambm, a certa distncia, uma 
matilha de 
ces.
Com o rosto coberto de suor, que logo gelava no seu rosto, Trottau surgiu da 
floresta e 
viu os edifcios rodeados de paliadas da nova residncia do czar. Soldados que 
formavam uma 
muralha viva protegiam-na por todos os lados. Nos campos ardiam fogueiras por 
entre as tendas.
- Deixem passar o mdico da czarina! - gritou Trottau ao passar pelo porto, a 
galope.
Deixem passar o mdico da czarina!
Chegando ao ptio interior, desmontou. Apareceram imediatamente criados, que se 
apressaram a segurar as rdeas do cavalo trmulo. Um escudeiro, vindo dos 
aposentos privados 
do czar, trazia uma manta de zibelina aquecida. Trottau reconheceu-a. Aquela 
manta costumava 
estar na cama da czarina.
Seguiu o escudeiro. Uma vaga de ar quente bateu-lhe no rosto, como um punho. 
Ouviu l 
fora chegar o oficial da guarda. Devia considerar-se o homem mais infeliz de 
toda a Rssia!
- Diz ao oficial - ordenou Trottau ao escudeiro - que modere a sua fanfarronice 
e que de 
futuro procure no me encontrar!
Viu duas camareiras aparecerem no vestbulo.
- Onde est o czar? - perguntou Trottau.

- O czar foi caar para a floresta. - As duas mulheres caram de joelhos. - A 
czarina sofre 
tanto que geme!
Maria estava sozinha: vestira sobre o corpo nu um vestido de seda trtara.
- Meu urso louco! - exclamou com voz rouca, atirando-se para os braos de 
Trottau. - 
No penses no czar. Ele s voltar  noite. Eu morro de solido. Como vivi eu 
todos estes dias 
sem ti? Mas tu, creio, passaste bem sem mim? Confessa, tratante, confessa! Diz-
me isso 
olhando-me bem de frente! Oh! Monstro sem corao... No sabes o que  amar e 
estar  
espera...
O czar voltou  noite. Sobre um tren encontravam-se os corpos dos lobos que ele 
matara.
Trottau viu, da suajanela, Ivan saltar do tren e mostrar uma das grandes peles 
ensanguentadas a Maria.
"Ele no pode agir de outra maneira", pensava Trottau. "Precisa de sangue  sua 
volta. S 
se sente alegre quando v sangue. Rssia, que ser de ti?"
Durante a refeio da noite, Ivan disse, entre um gole de vinho e um pedao de 
po:
- Trottau, mudarei completamente a Rssia! Ela ter uma outra alma! As cabeas 
dos 
boiardos vo rolar como pedrinhas nas margens do rio! - Estendeu a sua taa de 
ouro a Trottau e 
fez-lhe sinais encorajadores: - Bebe, amiguinho, bebe da taa do czar! Nunca 
ningum foi 
autorizado a faz-lo, nem mesmo Maria... Que idade tens?
- A vossa, sublime czar!
Trottau bebeu um pequeno gole e devolveu a taa a Ivan.
- A minha idade! - O czar soltou uma gargalhada. - No creio que morramos 
juntos, 
Trottau! Quero ser o ltimo a beber por esta taa. Eu, no tu! Que dizem os 
velhos russos que se 
fecham em casa quando o czar passa a cavalo pelas ruas? "Aquele que o olhar do 
czar fixar ser 
reduzido a poeira!"
"Fugirei", pensou Trottau. "Correrei esse risco! Preciso de voltar a Moscovo, 
levarei 
Xenia comigo, depois tentarei chegar  fronteira polaca. No tenho qualquer 
desejo de me 
transformar em poeira sob os olhos de Ivan!"

Captulo 16

O filho do czar desejava voltar a Moscovo e dava como razo ao pai o facto de 
no poder 
suportar os grandes frios. Sentia-se gelado at aos ossos, mesmo de noite, e 
acordava 
transformado num bloco de gelo.
Ivan mandou chicotear os criados encarregados do aquecimento dos aposentos do 
filho. 
Colocaram por toda a parte braseiras cheias de carves ardentes, assim como 
foges de cobre 
com rodas. Sufocava-se quando se visitava o filho do czar.
O suor saa de todos os poros. Mas o jovem continuava plido, tinha o olhar 
velado, e se algum 
perguntava pela sua sade, respondia laconicamente: "Tenho frio."
- O meu filho  idiota! - gritava Ivan. - E um tal bruto deve herdar um to 
vasto reino! 
Trottau, vai v-lo e examina-o. Conheo um bom remdio contra o frio: trata-se 
simplesmente de 
lhe resistir! Se continua a bater os dentes, ponho-o a dormir numa tenda de 
Vero, em pleno 
campo!
O filho do czar recebeu Trottau como amigo. No lhe ocultou as verdadeiras 
razes da 
sua doena.
-        Derreto-me literalmente por excesso de calor - confessou-lhe. - O meu 
quarto  
um forno. Mas suporto tudo porque quero regressar a Moscovo!
Trottau sorriu, compreensivo. "Tambm eu gostaria de ir ter com Xenia", pensou, 
"mas o 
czar no abandonar to depressa o seu retiro... certamente nunca antes da 
Primavera."
-        Moscovo encontra-se deserta - respondeu Trottau. - O Kremlin  uma caverna 
glacial. Que fareis l, senhor?
O filho do czar aproximou-se da janela e olhou para fora. Nevava de novo. Tudo 
se 
encontrava afogado sob a neve, que sufocava toda a vida debaixo da sua massa 
branca.
-        Tenho saudades de Irina - disse em voz baixa.
Trottau lembrou-se. Irina era a bela rapariga astuta e atrevida que ele vira 
deitada na cama 
do jovem czar, a filha do curtidor de Moscovo que lhe fora arranjada pelo 
chanceler Ivan 
Viskovati para fazer daquele sonhador um homem.
- Era apenas um brinquedo, senhor - replicou Trottau. - Os brinquedos um dia 
partem-se...
- Quero voltar a v-la! Sinto falta do amor dela!
- Arranjar-vos-emos outra rapariga aqui, em Alexandrovskaia Sloboda...
- Quero Irina! - gritou ojovem. - s apenas mdico do corpo? No sers capaz de 
tratar 
tambm a alma? A no ser que te limites a tratar as doenas imaginrias da 
czarina. A minha alma 
sofre, Trottau, e para ela existe apenas um remdio:
Irina!
Trottau olhava para o cho coberto por espessos tapetes. Transpirava 
terrivelmente. O 
calor irradiado pelas lareiras e pelos braseiros de carvo era insuportvel. Se 
o filho do czar 
suportava essa provao h dias, o seu desejo pela pequena moscovita loura no 
poderia ser 
apaziguado seno por ela mesma. A ameaa de Ivan de obrigar o filho a dormir 
numa tenda de 
Vero, no meio de uma tempestade de neve, no teria tambm qualquer efeito.
"Os meus sentimentos sero diferentes dos dele?", pensava Trottau. "Xenia no 
est 
constantemente presente para mim?"

- Falarei ao czar - disse pensativamente -, mas com uma condio, senhor.
- Dar-te-ei mil rublos.
-        Dinheiro, no! Sejamos cmplices na mesma conspirao!
O jovem voltou-se:
- Contra quem? Contra o czar?
- Sim.
- Ests louco, Trottau, para me confessares isso?
Trottau riu, divertido.
-        No se trata de roubar a coroa, nem de tirar a vida a quem quer que seja! 
Eu 
gostaria tambm de voltar a Moscovo. Nada mais. Persuada o czar de que eu devo 
permanecer 
junto de vs at descobrir a sua doena. Partiremos juntos e poderemos ajudar-
nos mutuamente.
- Trata-se tambm de uma mulher?
- Sim.
- A bonita loura do jardim, no  verdade? E essa no  um brinquedo que se 
parta?
-        Esse amor no se quebrar nunca.
-        Ousas falar de Irina como de uma bola que se recebe e se atira de novo?
-        Vs sois o filho do czar e as raparigas como Irina so apenas flores que 
perfumam 
o vosso quarto e murcham em seguida. A futura czarina ter uma beleza muito 
diferente!
-        Quem se arrisca a pensar nisso, diabo de homem! - O filho do czar deu uma 
palmada amigvel na face de Trottau.
-        Fiquemos com a tua imagem: Irina perfuma ainda o meu quarto e eu quero 
voltar a 
v-la! Desse modo, aceito tomar parte na tua conspirao e partiremos os dois 
para Moscovo!
Foram necessrios ainda seis dias para persuadir o czar da necessidade do 
regresso de seu 
filho ao Kremlin. Seis dias cheios de medo, pois o czar poderia num momento de 
fantasia enviar o 
filho para o meio das tempestades de neve, em pleno campo, ou, como ameaara, 
mandar colocar 
a cama dele em cima de seis braseiros para expulsar o frio do corpo desse 
aborto!
-        Que filho! - gemia Ivan no sexto dia. Encontrava-se sozinho com Trottau. A 
czarina dormia ainda. Ela dormia muito agora e comia constantemente montanhas de 
doces, 
bolos, tartes ou carnes nadando em molhos e cremes que acompanhava com um vinho 
licoroso, 
dourado. Engordava e o seu rosto mantinha incessantemente a sua expresso de 
avidez sensual. 
Mas o pior era a sua crueldade crescente, o prazer que sentia em infligir 
tormentos. Picava as suas 
camareiras com compridas agulhas e quando elas gritavam e caam de joelhos, 
suplicantes, Maria 
dava-lhes pontaps e erguia-as puxando-lhes pelos cabelos. Ao mesmo tempo ria e 
a sua voz 
erguia-se, rouca e area, ao mesmo tempo traindo todos os mistrios do mundo 
oriental, onde 
Ivan a fora buscar para a instalar no Kremlin.
-        Ela h-de matar-me, Trottau! - gemia Ivan. - O corpo dela  um vulco. No 
o 
domino e no o dominarei nunca. Poderei conquistar o mundo inteiro, mas essa 
maldita mulher 
nunca ser vencida. No ters meio de a amansar?
-        No, sublime czar - respondeu Trottau com toda a franqueza. - No existe 
remdio para esse estado, que est em relao com os humores internos do seu 
corpo. Paracelso 
diz que o ser humano  dominado pelos seus humores...

-        Porque no podes fazer nada, Trottau? - Ivan apoiava suavemente a ponta da 
sua 
lana no corpo de Trottau. O ao penetrou no tecido do casaco e parou a um 
milmetro da sua 
pele. O mdico do czar deve ser o mais sbio do mundo. No falta quem faa 
pilulas e qualquer 
barbeiro sabe lancetar uma ferida. Pensas que Maria ter demasiados humores 
amorosos?
-        Pode-se dar-lhe esse nome, sublime czar...
-        Ento tira-lhos do corpo! - gritou Ivan. - Nem sequer s capaz de 
conseguir isso?
-        No.
O czar deu um salto.
-        Ela , portanto, incurvel na sua violncia amorosa! Trottau, ajuda-me... 
J no 
consigo refrear os desejos de Maria!
Nessa manh, juntando-se s preocupaes derivadas pela lubricidade de Maria, 
havia a 
doena do jovem czar, uma doena inexplicvel que Trottau descreveu nestes 
termos: "Dir-se-ia 
estar numa mina onde se teria aberto uma galeria; se deixar de a explorar, ela 
desmoronar-se-... 
A alma humana est cheia dessas galerias invisveis..."
-        E o regresso a Moscovo seria benfico? - perguntou Ivan.
-        Assim o espero - afirmou Trottau.
-        O meu filho  um atrasado! A coroa russa destinada a um cretino! Trottau, 
que 
terei de sofrer mais? - O czar atirou a cabea para trs. O seu rosto estreito, 
com nariz adunco 
como o bico de uma guia, estava vivamente iluminado pela chama vacilante do 
candeeiro a 
azeite. Estava ainda escuro l fora, o sol no atravessara as nuvens baixas, 
pesadas de neve.
Ivan quis reunir o seu conselho s dez horas e s onze os chefes das suas 
tropas, mas no 
sentia desejos de o fazer. Pensava nos boiardos de Moscovo, nos seus enganos 
dirios, nas 
mentiras, nas hipocrisias que tinha de admitir e na Rssia que amava. Mas esta 
retribuia o seu 
amor com medo e com dio, porque tudo o que se passava era feito em nome do 
czar.
-        Os boiardos mataro o filho do czar! - clamou Ivan com voz estrangulada.
-        Eu acompanh-lo-ei e velarei por ele.
-        Tu? - Ivan voltou vivamente a cabea. - Tu s o mdico da czarina e o meu. 
Tu 
ficas!
-        Trata-se de guardar ojovem czar para a Rssia.
-        E eu? Ficarei s, nu! Todo nu! - O czar percorreu a grande sala 
ansiosamente, 
como um animal cativo. - No terei mais ningum com quem falar, como um ser 
humano 
razovel! Tu s o nico com quem isso acontece, Trottau! E Maria? Esqueces a 
czarina? - Ivan 
parou e escondeu-se atrs de um dos grandes foges de cobre como um co 
escorraado.
"A sua demncia  cada vez mais evidente", pensou Trottau. "Mas  uma demncia 
grandiosa.  o crepsculo de um homem genial que se consumiu a si prprio. Nunca 
o 
compreendero. No futuro s se falar de crueldades, do terror incompreensvel 
que ele espalhava 
 sua volta. Mas ningum desconfiar da sua profunda solido, da sua fuga 
contnua para escapar 
a si prprio, nem sobretudo da convico que o levou at  demncia, com a qual 
ele ama a 
Rssia, precisando de a governar com sangue.
-        Amo Maria - disse o czar atrs do fogo cheio de brasas ardentes -, mas 
tenho 
medo dela.

-        A deciso relativa ao vosso filho depende apenas de vs, grande czar. - 
Trottau 
dirigiu-se para a porta. - Aqui, em Alexandrovskaia Sloboda, o vosso filho perde 
a sua alma.
-        Onde queres chegar? - perguntou Ivan correndo atrs de Trottau. - No me 
vais 
deixar agora sozinho, co?
- Preciso de ir ver a czarina, que todos os dias me pede um p.
- Tu ficas junto de mim, Trottau. Nunca encontrarei um mdico como tu! E a 
qualquer 
momento posso engendrar um novo pequeno czar!
Trottau inclinou-se e saiu dos aposentos do czar.
Nessa manh administrou a Maria, que se encontrava ainda na cama, um p de tal 
modo 
calmante que ela ficou rapidamente num estado de semi cons cincia.
- Abraa-me - disse ela antes de o medicamento agir completamente. - Meu urso 
louro!
Vivi        dez dias sem ti. Como pude viv-los? Este maldito tempo impede Ivan de 
caar. Vem, 
estende-te ao p de mim. Prokoffia e Maroussia ficaro de guarda diante da 
porta.
Trottau obedeceu; sabia que o seu p agiria imediatamente. Pousou os lbios 
sobre os 
lbios grossos da czarina, acariciou os seus cabelos e o seu corpo at que o 
sono provocado pelo 
p se apoderasse dela. Ento cobriu a czarina com as macias peles de zibelina e 
saiu rapidamente 
do quarto. Prokoffia e Maroussia, que guardavam a porta, nem queriam crer no que 
os seus olhos 
viam.
O czar voltou-se vivamente quando Trottau reapareceu nos aposentos dele. 
Apontou-lhe 
imediatamente a sua lana. Sempre e por toda a parte Ivan receava a traio, o 
atentado. Estava 
constantemente preparado para defender a sua vida.
-        Todos me traem! - exclamou ele. - Todos! Tu tambm. Tu s um co astuto... 
Mas 
tambm te hei-de confundir, Trottau! No existe ningum que no nos engane!
- A czarina adormeceu - respondeu Trottau colocando sobre uma mesinha um pequeno 
saco
de cabedal. - Experimentei um novo p... ao qual ela reagiu imediatamente. Se 
todas as manhs se 
misturar no acar, com uma bebida quente, duas doses deste p, ela ficar calma 
como um 
cordeiro!
Ivan guardou imediatamente o saco no seu cafeta.
- Eis um bom remdio, Trottau... No deixarei de a fazer tom-lo regularmente.
Depois da refeio do meio-dia uma pequena coluna de cavaleiros saiu da 
fortaleza de 
Alexandrovskaia Sloboda. Quarenta cavaleiros da guarda, cinquenta cavalos de 
carga, dez trens. 
Em resumo: uma escolta modesta. O filho do czar regressava a Moscovo. Com o 
rosto corado, os 
olhos brilhantes, fitava o horizonte de uma brancura uniforme. A seu lado estava 
Trottau, envolto 
em peles de lontra. No tren seguinte seguia Sabotkin, o criado, o nico a quem 
aquele regresso 
desolava. Comeara um namoro com Pietka, uma ajudante de cozinha, uma avezinha 
de caracis 
negros. Estava acabado, para sempre, pois Sabotkin sabia que no voltariam a ver 
Alexandrovskaia...
"Moscovo", pensava Trottau quando os trens se lanaram em correria pela 
floresta. 
"Dentro de dois dias estaremos de novo em Moscovo, voltarei a ver Xenia, a sua 
incrvel doura, 
a sua beleza...

Xenia! Atravessaremos novamente Moscovo! Deslizaremos atravs das florestas no 
meio 
de nuvens de neve erguidas pela trica, animados pelo tilintar dos guizos. 
Iremos ao convento de 
Sagorsk,  Igreja da Trindade,  Igreja da Virgem lacrimosa e eu pedirei ao 
metropolita que nos 
case em segredo nos degraus que do para a parede dos icones, onde s se 
ajoelham o czar e a 
czarina. Xenia Igorovna, dentro de dois dias estaremos em Moscovo!"
O cu deixava cair sobre os trens montanhas de neve. Dentro de dez dias 
festejar-se-ia o 
Natal.

Captulo 17

Blattiev correu pelos corredores hmidos, emitindo sons roucos, com os braos 
abertos para acolher Trottau. O seu ouvido excessivamente sensvel fizera-lhe 
perceber os passos 
ainda distantes de Trottau. Atrs de Igor apareceram Massia e Xenia, que, quase 
ao mesmo 
tempo, se atiraram ao recm-chegado para o abraar, quase o magoando na alegria 
de o verem. 
Depois Blattiev ergueu o mdico nos seus braos hrcleos de urso das cavernas, 
colocou-o 
sobre os ombros e levou-o para casa dele. Coisa estranha: apesar da penumbra 
constante daquele 
sepulcro gigantesco cheio de humidade que se sentia nos ossos e do cheiro dos 
ursos que fazia 
daquele local um dos stios mais sinistros da Terra, Trottau teve a sensao de 
voltar ao lar.
Encontrava-se junto de Xenia e pouco importava o que os rodeava. Ela fitava-o 
com os seus grandes olhos brilhantes de felicidade e de amor. Ah! Os seus 
cabelos de ouro, os 
seus lbios plidos que s sabiam dizer: "Chegaste!" Era mais do que todas as 
riquezas que se 
pudessem comprar.
Massia pousou sobre a mesa de madeira tosca um frasco de gorelka, aguardente 
escaldante da qual Blattiev recebia dois frascos de oito em oito dias. Depois 
trouxe um espesso 
caldo de milho e de leite de burra coalhado. Em seguida ps um tacho ao lume 
para cozer ovos.
Blattiev, que se afastara, voltou trazendo na mo uma flauta de cana.
- A sua szo urna! - exclamou Massia batendo as palmas. - Tu toca-la to bem, 
Igor! Jesus 
Cristo, h quanto tempo no a tocas tu? Quando foste baptizada, Xenouchka, ele 
estava sentado 
naquele banco e tocava a cano do cavaleiro feroz... Depois disso escondeu a 
sua szourna. Que 
belo dia! - Massia comeou a chorar, deixou-se cair perto da lareira e limpou a 
cara com uma 
ponta do avental.
Os grossos dedos de Blattiev pousavam sobre os orifcios do instrumento rstico 
que ele 
tocava num ritmo lento, como se estivesse perdido nas recordaes do tempo da 
sua juventude, 
quando ainda podia falar e dizer a Massia: "Meu pequeno cisne, escuta-nos,  
minha szo urna e a 
mim, pois temos ambos muito a dizer-te!"
- Podes imaginar - dizia entretanto Trottau a Xenia, depois de a ter beijado 
como se 
tivesse de viver um ano das carcias dela -, podes imaginar-te a viver sem ser 
debaixo da terra e 
fora da Rssia?
Ela no respondeu e perguntou:
-        Tu... tu vais deixar a Rssia?

-        Depois do Natal a Rssia ter mudado de aspecto. O czar quer arrancar o 
pas  influncia 
dos boiardos, quebrar o poderio dos grandes proprietrios de terras, quer ter 
toda a Rssia nas 
suas mos. Est a organizar um novo exrcito em Alexandrovskaia Sloboda... e 
tambm um outro 
exrcito composto de espies e de carrascos. Sero os opritchniki, do nome das 
antigas regies 
dos czares Opritchnina, de que nasceu a Rssia! A partir do prximo ano, os 
opritcbniki 
cavalgaro aos milhares atravs de toda a Rssia e mataro todos aqueles que no 
vivam segundo 
a vontade do czar. O amigo do czar, o prncipe Skouratov, tomar o comando desse 
exrcito de 
carrascos. Quanto s regies que rodeiam Moscovo, at Vadimir Ouglich e 
Kostroma,  o jovem 
boiardo Bons Godounov que os comandar. O czar quer mergulhar a Rssia em 
sangue.
- Quer aniquilar os boiardos? - perguntou Xenia, ofegante.
- Totalmente! Criar uma nova nobreza com os camponeses livres, que dependero 
do 
czar e no tero nenhum direito hereditrio como os boiardos. Em Alexandrovskaia 
Sloboda o 
czar contempla da sua janela os campos cobertos de neve e no pensa noutra 
coisa. Sonha com 
um imprio onde s Deus e ele reinaro.
- Mas por que motivo precisas de te ir embora?
- Sei demais, Xenia. Fui testemunha de tais cenas, como ainda nenhum homem viu e 
ouviu 
o czar comportar-se assim. Encontro-me de tal modo  merc dele que me pode 
torcer o pescoo 
com um dedo. E um dia f-lo-. Sendo assim, o melhor  eu fugir.
-        Para onde, Andrei?
- Atravessando a Polnia at  Alemanha. Serei o primeiro a saber quando 
Skouratov e 
Godounov inundarem o pas com os seus opritchniki. Partiremos a cavalo um dia 
antes. Na 
embriaguez da sua vitria o czar esquecer-me- e ns chegaremos rapidamente  
fronteira com a 
Polnia. Nessa altura no poder apanhar-nos.
- Ns? - repetiu Xenia, baixinho.
- Vou levar-te, Xenia. Falei com o metropolita. Ele casar-nos- antes da 
partida.
Subitamente ela comeou a chorar e agarrou-se a ele:
- Fica aqui, Andrei! Esconde-te aqui. Debaixo da terra ningum te procurar... 
Andrei, 
essa Alemanha desconhecida! Como hei-de viver sem a Rssia, sem a mezinha e sem 
o paizinho?
A cortina que substituia a porta foi brutalmente afastada. Massia entrou de 
rompante no 
compartimento. Ouvira a conversa deles como todas as mes naquela situao.
- No lhe ds ouvidos, meu filho!  uma idiota! Cala-te, Xenia!  o teu homem e 
tu 
segui-lo-s para onde quer que ele v. No fiquei eu com o teu pai? No troquei 
a minha bonita 
casa de Temrieianka por esta caverna suja? Me dos Cus, que juventude esta! s 
mulher dele e 
vivers com ele, nem que fosse nas neves eternas! Vamos, desaparece daqui!
Agarrou na filha e deu-lhe um empurro que a fez sair do aposento. Trottau 
tinha-se 
levantado, mas Massia agarrou-o e forou-o a sentar-se de novo.
- Fica sentado, tratante.  preciso dar-lhe uma
boa sacudidela! Isso torna as coisas mais fceis. Claro que ela partir contigo 
e ns 
abeno-los-emos e rezaremos por vocs todos os dias. Mas uma me tem sempre, 
sempre, 
perguntas a fazer.
-        Diga o que quer saber, Massia Fillipovna!
-        Poders curar completamente a doena de Xenia?
- Sim.
-        Ela viver muito? E tu am-la-s sempre?

-        A minha vida sem ela seria apenas meia vida. Voltarei antes do Natal a 
Alexandrovskaia Sloboda para observar a organizao dos opritchniki. Quando 
Skouratov e 
Godounov receberem ordem de matar, eu virei imediatamente buscar Xenia. - 
Trottau levantou-se 
e pegou nas mos de Massia, gastas pelo trabalho. - Dois cavalos a mais no 
seriam qualquer 
impedimento para os meus projectos. Partam connosco, Massia!
-        Blattiev sem os seus ursos? Que dizes tu? Ele sacrificou a sua lngua por 
causa dos 
ursos. Ficar sempre com eles e eu com Igor. A nossa filha veio ao mundo aqui 
mesmo e 
damos-ta. Mas no esqueas que Deus te castigar com a lepra se a tornares 
infeliz!
Puxou Trottau para si e deu-lhe um beijo na testa.
- Quando voltas a Alexandrovskaia Sloboda? - continuou Massia.
- Dois dias antes do Natal. Quero surpreender o czar com a minha presena.
Trottau preparou a sua fuga nos mnimos pormenores. Comprou quatro cavalos e uma 
trica, que foram colocados numa cavalaria dos arredores de Moscovo. Esses 
valentes cavalos 
deviam comer aveia  farta, pois precisavam de estar fortes e resistentes. Mas 
todos os 
preparativos pareciam inteis.
Com apenas dois trens e quatro cavaleiros como escolta, o czar voltou 
secretamente a 
Moscovo. No primeiro tren, toda envolta nas suas peles espessas, a czarina 
vinha sentada ao 
lado de Ivan. Estremecia de clera contida.
Ningum reparou nesse pequeno grupo de viajantes que chegou a Moscovo. Um tren 
por 
entre mil trens, cavaleiros entre outros cavaleiros...
Ivan alegrava-se. Os seus olhos penetrantes de ave de rapina 
brilhavam. "Um czar entra 
em sua casa de outra maneira", pensava. 
"Mas assim, annimo aos olhos de todos, 
v a verdade."
Mas Ivan no via os olhos brilhantes de 
dio da czarina.

Captulo 18

A pequena coluna do czar parou diante de 
uma das portas escondidas do Kremlin. Os 
quatro streltsy que montavam guarda 
nesse ponto, e que enregelavam, 
precipitaram-se para o 
portal com as suas lanas em riste. 
Depois reconheceram o czar e os seus 
rostos abriram-se num 
sorriso: largaram as lanas e ajoelharam 
na neve.
-        Voltaste, paizinho! Jesus Cristo seja 
louvado! No nos esqueceste!
- Levem-nos - disse Ivan, impvido, 
fazendo sinal aos seus cavaleiros. - 
Eles nunca me 
viram. Eu no estive em Moscovo!
Sem uma palavra, os cavaleiros puxaram 
os streltsy ajoelhados, amarraram-lhes 
as mos 
atrs das costas e levaram-nos. Nunca 
mais foram vistos. Mas quem se inquieta, 
na Rssia, com 
quatro servidores desaparecidos?
Os trens penetraram no ptio ao fundo 
do palcio e pararam diante da escada da 
igreja 
do palcio. Era por essa escada que Ivan 
descia habitualmente para se dirigir 
mais depressa s 
cerimnias.
O czar desceu do seu tren e olhou para 
a igreja. As torres terminavam em forma 
de 
cpulas douradas que brilhavam com a 
fria claridade reverberada pela neve. 
Diante da entrada do 
palcio no havia ningum, no se viam 
rastos na neve. A solido que reinava no 
Kremlin era 
pesada.
- Queria rezar - disse subitamente Ivan.
- Agora? - perguntou Maria com voz 
sombria.
- Agora, sim, agora! - O czar encostou-
se ao tren. - Ah! Como gosto de 
Moscovo! 
Como lhe senti a falta! O meu corao 
dilacerou-se ao percorrer estas ruas. E 
tudo isto por culpa 
dos boiardos! Eles roubaram-me a minha 
juventude, envenenaram a minha mulher, 
fizeram do 
meu trono um patbulo ensanguentado. 
Sugaram o sangue da Rssia como vampiros 
e 
submeteram o povo  sua vontade. Mas eu 
massacr-los-ei a todos, aniquil-los-ei 
com mulheres 
e filhos! E o povo deve assistir a essa 
carnificina, ver como eu livro a Rssia 
deles! - O czar 
apoiou as duas mos sobre os olhos. - 
Preciso de pedir a Deus que me perdoe o 
banho de sangue 
que irei provocar no pas. No deve 
levar a meu descrdito as almas que 
aniquilo. Um czar deve 
ser duro ou ser aniquilado por este 
grande, este radioso pas.
- Vai  tua igreja e reza tambm por uma 
alma que eu quero destruir.
Uma claridade crepuscular banhava a 
vasta nave vazia e rutilante de ouros. 
Velas sempre 
acesas brilhavam diante do icone da 
Virgem.
- Deus - comeou Ivan com voz trmula -, 
meu Deus, no me abandones, perdoa-me 
todos os meus pecados. Estou rodeado de 
inimigos e apenas me protejo. Protege 
tambm o teu 
humilde discpulo... Tenho medo, meu 
Deus, tenho medo de todos os meus 
sbditos e da minha 
maravilhosa terra russa...
Caiu de joelhos e arrastou-se ao longo 
da nave central at junto dos icones 
dourados. 
Quando chegou aos degraus que davam para 
o altar viu na sua frente, alto, 
poderoso, envergando 
vestes sacerdotais bordadas a prolas, 
Filipe, o metropolita de Moscovo.
-        Quero confessar-me, paizinho - 
balbuciou Ivan.

- Os ouvidos de Deus esto por toda a 
parte.
- Vou matar os meus sbditos aos 
milhares, paizinho. Serei seguido por 
legies de mortos.
- Deus far a conta, meu filho.
- Aniquilarei os boiardos.
- Faremos tocar os sinos e rezaremos 
pelas suas almas.
- Talvez mate tambm o mdico da 
czarina. Ele sabe demais sobre o meu 
corao.
O metropolita ergueu as duas mos. O seu 
rosto estava impassvel como o mrmore 
no 
qual estavam esculpidos os santos 
encostados aos pilares dos locais 
sagrados.
-        Ser uma conta bem grande para Deus 
fazer, meu filho.
O czar concordou com um baixar de 
cabea.
- E tu tambm sers morto, paizinho 
metropolita de Moscovo. s amigo do 
prncipe 
Kourbski.
- Eu te abenoo, meu filho.
O czar caiu com o rosto por terra. Ficou 
estendido ao comprido diante dos cones 
e seria 
fcil enterrar-lhe um punhal nas costas 
para lhe trespassar o corao. Mas nunca 
at ento um 
czar fora assassinado numa igreja.
L fora, entretanto, o segundo tren era 
despejado. Um homem amarrado foi tirado 
do 
meio da palha e das mantas de pele. O 
seu rosto estava desfigurado pelas 
chicotadas.
- Ouam-me! - gritou ele. - Enganaram o 
sublime czar! Skouratov e Iouriev querem 
apenas os meus domnios e Bons Godounov 
 um demnio disfarado! Eu no tra o 
czar!
Maria desceu do tren.
-        No se queixe, prncipe Loumansovski
-        disse com uma calma assustadora. - O 
czar
tem necessidade de um exemplo de 
vingana.
A escolha recaiu sobre si. Devia 
orgulhar-se
disso!
-        Concedam-me cinco minutos com o czar!
-        rugiu Loumansovski. - Por que motivo 
no me ouve ele? Porque acredita em 
Skouratov e 
Godounov?
- No se pergunta porqu ao czar. - A 
czarina contornou o prncipe, parou 
junto dele e 
atraiu-o para si, agarrando-lhe as mos 
amarradas. - Que farias se eu te 
trocasse por um outro? -
        perguntou.
- Tudo, sublime czarina, tudo! Lavar-
vos-ia os ps com a minha lngua. 
Adorar-vos-ia!
- Isso no tem nada de novo! - replicou 
a czarina, glacial, e os seus olhos 
tiveram um 
brilho de tal modo selvagem que 
Loumansovski conteve
a respirao. - Matarias aquele por quem 
eu te trocasse?
- Imediatamente, sublime czarina!
Maria fez sinal aos guardas a cavalo.
- Vo procurar o mdico. Vo busc-lo a 
casa e levem-no para a sala onde o czar 
reune o 
conselho!

Em casa do mdico encontraram apenas o 
criado, Sabotkin, que se aquecia junto 
do fogo 
depois de ter almoado bem. Trottau 
estava nos subterrneos, junto dos 
Blattiev. Logo aps o 
Natal evadir-se-iam. A trica e os 
cavalos estavam prontos e Sabotkin seria 
ento um homem 
livre, pois o amo prometera resgat-lo.

"Que vida, meus irmozinhos", pensava 
sonhadoramente Sabotkin, quando os 
guardas do 
czar entraram pela casa.
- Onde se encontra o mdico? - gritaram. 
Antes que Sabotkin pudesse responder, 
atiraram-no ao cho e comearam a dar-
lhe pontaps nas costas.
- Fala, verme! - gritou um dos guardas 
batendo selvaticamente em Sabotkin de 
modo a 
partir-lhe os ossos.
"Assim no, amiguinho", pensou Afanasi. 
Calou-se, de dentes cerrados, lembrando-
se do 
sbio religioso, na sua ptria, que lhe 
dissera, h muito tempo, que uma pessoa 
no sentiria o 
sofrimento se se recusasse a senti-lo. 
Assim, Sabotkin mantinha-se imvel e 
calado, deixando que 
o guarda se esfalfasse a bater-lhe.
Espancaram o silencioso Afanasi 
Sabotkin, deixando-o quase morto e 
banhado pelo seu 
sangue,
e foram procurar o mdico ao palcio. 
Mas no o encontraram.
Entretanto Maria esperava, no quarto 
vazio e gelado, embrulhada num espesso 
casaco de 
zibelina, plida de clera e com os 
olhos faiscantes. Mas no foi Trottau 
quem entrou, mas sim o 
czar Ivan.
- Onde est Loumansovski? - perguntou. - 
Confessei todos os meus pecados ao 
Senhor. 
Agora quero ver morrer Loumansovski!
- Est  espera, aqui ao lado.
- Depressa, para os ursos! - Ivan fechou 
os punhos. - Quero ver Trottau. Ele 
conhece a 
minha alma, mas ainda no viu os ursos! 
Vai v-los. Quero que ele esteja a meu 
lado quando 
Loumansovski for dilacerado... Trottau 
deve saber tudo de mim. Tudo!
- Tenho uma graa a pedir-te - disse a 
czarina com voz calma. Observava o 
marido h 
muitos dias. A demncia que se via 
surgir nele a espaos, como relmpagos 
num cu radioso, 
apoderava-se agora visivelmente dele e 
distraa-lhe a razo.
- Primeiro vamos aos ursos! - gritou o 
czar. - Com Loumansovski comear a nova 
era da 
Rssia. A morte dele ensinar os 
boiardos a terem medo!
- D-mo, Ivan!
O czar imobilizou-se. Os seus pequenos 
olhos de pssaro fitaram Maria.
- Queres que te oferea Loumansovski 
como presente?
- Quero troc-lo por Trottau.
- O mdico? - Ivan reflectiu, pensando 
de
onde viria esse dio sbito. - Ns ainda 
precisamos dele.
- Eu agora estou bem.
- Nunca se est completamente bem.
- Se puder agarrar a cabea dele, 
segurando-a pelos cabelos, nunca mais 
estarei doente.
- O czar encolheu os ombros. Sentia 
frio, apesar da pesada capa de peles.
-        Fazes-me estremecer, Maria - disse 
ele com voz rouca. -  teu mdico, mas 
tornou-se o meu nico confidente, a 
parede diante da qual alivio o meu 
corao, diante do qual 
choro e grito, rezo, suplico... enquanto 
ele permanece mudo. Tenho necessidade de 
Trottau.
-        E quando tencionas mand-lo matar?

- Quando a Rssia se tornar o mais 
poderoso reino deste mundo. Pouco 
importam os 
mortos, farei da Rssia um paraso 
exemplar e ningum ter o direito de 
medir o sangue que eu 
terei de verter para cimentar essa 
edificao! No! - Ivan abanou a cabea. 
- Ainda preciso de 
Trottau.
- Ele  meu mdico! - replicou Maria 
duramente.
- Ento tiro-to!
- D-me Loumansovski em troca!
- M troca! Preciso de um boiardo para 
matar!
- Mata Bons Godounov!
- Necessito dele para realizar a "grande 
limpeza". Mostra-se especialmente 
expedito na 
arte da chacina.  a sua paixo.
- Um dia chacinar-te- a ti mesmo...
- A mim? - O czar soltou uma gargalhada 
estridente. - S Deus me matar e... tem 
tempo! 
- Voltou-se e dirigiu-se para a porta 
que dava para o seu gabinete de 
trabalho. - Para qu falar 
tanto? Negociei com Deus a morte do 
prncipe Loumansovski, tenho o direito 
de o matar e quero 
gozar a morte dele para me fortificar. 
tendo em vista os meses durante os quais 
a Rssia gritar e 
chorar, rezar e morrer at que surjam 
os novos tempos.
Empurrou a porta. Loumansovski 
encontrava-se em frente do alapo 
aberto. Dois 
streltsy estavam j na escada, com as 
tochas na mo.
- Misericrdia! - gritou Loumansovski. 
Sublime czar, Deus  testemunha de que 
eu 
sempre vos fui fielmente dedicado. 
Skouratov mente. Godounov mente.  vossa 
volta s h 
mentirosos, senhor. Misericrdia! Ficai 
com as minhas terras perto de 
Novgorod...
- J me pertencem - disse o czar, 
impassvel. - A partir de agora pertence 
tudo ao czar! 
Como  que os boiardos ainda o no 
compreenderam? Vamos! - Deu a mo a 
Maria e desceu as 
escadas com ela. Um streltsy iluminava o 
caminho diante deles, o outro empurrava 
o prncipe na 
sua frente.
-        Onde vamos, sublime czar? - perguntou 
o primeiro streltsy. A voz dele tremia 
de 
ansiedade.
-        Eu  que irei  frente!
Ivan pegou numa tocha e desceu para a 
obscuridade viscosa, podre.
"Est louco!", pensava Maria. "Serei em 
breve sua viva, a mulher mais poderosa, 
mais 
rica do universo! "Colocarei o corpo de 
Trottau, como uma oferenda, sobre o 
caixo de Ivan, mas 
conservarei a cabea dele, ir na minha 
frente, como uma coroa! - Como eu o amo, 
esse urso 
louro! E ele mergulhou-me na 
inconscincia, por meio de um p, para 
fugir de mim!"
Atrs dela, Loumansovski comeou a rezar 
em voz alta. A sua splica ressoava 
contra a 
obscuridade e ia quebrar-se contra as 
abbadas:
-        A tua piedade  grande,  Senhor, mas 
no esqueas o que disseste: Eu sou um 
Deus vingador...
Chegaram  parte do subterrneo onde as 
abbadas eram mais altas, onde o cheiro 
das 
feras j se impunha.

Captulo 19

Trottau estava sentado junto de Xenia, 
no recanto que ela considerava como o 
seu quarto. 
Cosia um pedao de tecido que serviria 
de leno para Massia pr na cabea.
Tinham passado uma hora ao ar livre, no 
pequeno jardim coberto de neve; depois 
Trottau 
levara-a para baixo, fatigada pelo ar 
forte, sonolenta, enrolada em trs 
mantas. Ao fundo de um 
corredor, Blattiev tocava a sua flauta 
de cana. Devia ter estado a limpar a 
fossa dos ursos, pois 
era o nico que l podia entrar. Dava-
lhes at de comer  mo, conhecia todas 
as suas 
disposies, esbofeteava-os se eles 
resmungavam ou deixava cair o punho 
fechado sobre o 
focinho sensvel dos animais, quando 
eles se erguiam, de mau humor.
Massia, de p junto de um alguidar cheio 
de gua quente, lavava os pratos de 
terracota 
envernizada quando Blattiev ali entrou 
emitindo sons desarticulados que 
exprimiam uma violenta 
emoo. Com um gesto apontava para os 
corredores, persignava-se, arrancava os 
cabelos.. depois 
afastou-se a correr.
Massia empalideceu e foi atrs do 
marido.
-        Que tem ele? - perguntou Trottau.
-        No sei. - Xenia aproximou-se de 
Trottau. - Nunca o vi assim. Meu Deus, 
contanto que no tenha morrido um dos 
ursos! -Juntou as mos. Ouviam ao longe 
a voz de 
Massia e o resmungar rouco de Blattiev. 
- A ltima vez que um urso morreu eu 
tinha dez anos. O 
czar chicoteou de tal maneira o paizinho 
que ele esteve oito dias sem se mexer. 
No nono dia foi 
trazido para aqui novo urso, acompanhado 
desta mensagem:
"Igor Igorovich, mandei abrir o teu 
urso. Estava bem tratado e morreu de 
velhice. A tareia ser 
levada a teu crdito. Tenta lembrar-mo!" 
O czar  assim...
Trottau foi agitado por um arrepio. 
Lembrou-se que, alm do czar, mais 
ningum saa 
vivo dos subterrneos.
-        Quem trouxe o outro urso?
-        Um streltsy.
-        Conhecia o caminho?
-        O paizinho foi esper-lo ao fundo da 
escada. Depois matou o streltsy. Foi uma 
ordem do czar.
-        Entregou-o aos ursos?
-        Oh, no. S o czar tem esse direito. 
O paizinho leva todos aqueles que no 
devem 
voltar para a superfcie para uma cela 
onde os estrangula com uma corda.
-        Meu Deus - balbuciou Trottau. - 
Fugiremos para a Alemanha antes das 
solenidades do Natal!  preciso afastar-
te daqui. Tens de esquecer o que viste!
Massia apareceu.
-        O czar! - exclamou. - O czar vem a 
com um condenado... ouvimo-lo rezar... 
eles 
estaro aqui dentro de instantes. Pela 
Virgem Me e todos os santos, fiquem 
quietos aqui. Nunca 
o czar deitou um olhar para o interior 
da nossa casa, ser o mesmo hoje.
Benzeu-se, ajoelhou diante do icone e 
rezou. Trottau quis falar, mas Xenia 
pousou a mo 
trmula sobre os seus lbios.
-J chegou...

As vozes tornavam-se mais precisas. 
Trottau ouviu gritar: "Misericrdia! 
Misericrdia!" 
Apertou as mos de Xenia sobre os seus 
ouvidos e ocultou a cabea no peito 
dela, mas ainda 
ouviu Massia murmurar do outro lado da 
porta:
-        A czarina tambm veio.
Trottau ergueu vivamente a cabea.
-        No - balbuciou -, isto no  
possvel. Ela no pode fazer isto. Diz-
me que no  
verdade! Ela no pode assistir a uma tal 
crueldade!
- A czarina j aqui veio quatro vezes 
com o Czar - respondeu Xenia.
A voz de Loumansovski quebrou-se. Viu 
Blattiev e percebeu que no haveria 
misericrdia 
nem milagre para ele.
-        Deus vos aniquilar! - rugiu o 
boiardo. - Ivan, czar da Rssia, o meu 
sangue cair 
todas as noites sobre as tuas mos!
-        Ele fala de mais, Blattiev... - Era a 
voz do czar, que Trottau to bem 
conhecia. 
Ouvira-a elevar-se entre os seus choros 
desesperados at ao auge feroz da sua 
clera. Agora era 
calma, clara, fria.
-        O futuro amaldioar-te-! - gritava 
Loumansovski. Nos ltimos minutos da sua 
existncia, no tinha medo, mas sentia-
se cheio de revolta e de acusaes. - 
Chamar-te-o Ivan, o 
Terrvel!
-         um nome que me orgulharei de usar! 
Porque no gemes tu, boiardo?
-        No vale a pena, tu s incapaz de 
compreender um sentimento. Tu s louco!
-        Deita-o aos ursos! - gritou o czar. - 
Blattiev, desamarra-o.  preciso que ele 
fuja 
diante da morte, que corra at os ursos 
o dilacerarem.
-        Apert-los-ei contra o meu corao! - 
gritou Loumansovski. - Morrer 
amaldioando-te  uma honra. V, 
Blattiev, entrega-me aos ursos. Sinto um 
grande desejo de lhes 
ser entregue.
Trottau ouviu as chicotadas. "Agora 
empurram a vtima para o fosso com 
chicotadas", 
pensou Trottau. "Depois a porta gradeada 
vai abrir-se. Os monstros de pelagem 
castanha 
erguer-se-o e os seus pequenos olhos 
astutos olharo para cima, para a 
galeria... E a czarina 
estar l, de p, inclinada para diante, 
vendo como um homem vivo  dilacerado 
pelas feras. 
Estar ali com toda a sua radiosa e 
brbara beleza, apreciando os tormentos 
inflingidos nesse 
instante a um moribundo."
Trottau escondeu de novo o rosto no 
peito de Xenia. A certeza de que nada 
podia fazer 
para se opor quele horror sem condenar 
 morte os Blattiev, Xenia e ele mesmo 
era um 
sentimento to terrvel que fez com que 
se sentisse mal.
Seguiu-se o silncio. A pesada porta de 
ferro que dava para o fosso dos ursos 
no deixava 
chegar at ali qualquer som. Trottau 
ergueu a cabea. Viu que Xenia estava de 
mos postas e 
rezava. Deixou-se cair com a cabea em 
cima da mesa.
-        Meu Deus - disse Trottau -, grande 
Deus do cu, como  que consentes isto? 
Onde ests, meu Deus? Esqueceste a 
Rssia e o seu povo, o mais crente do 
mundo? Volta para a 
Rssia, meu Deus...
Ouviram-se passos. Bateram portas. Era 
bom que Trottau no soubesse o que se 
passava 
nesse momento. Numa sala contgua, 
Blattiev estrangulava com uma corda de 
cnhamo os dois 
streltsy que tinham acompanhado o 
condenado. Era o seu dever...

De novo uma porta bateu. A voz do czar 
Ivan fez-se ouvir, um pouco rouca, 
impressionado como estava pelo 
espectculo da morte corajosa de 
Loumansovski.
-        So bons ursos, Igor Igorovich. 
Cumprimento-te, e a ti tambm, Massia, 
tu s uma 
mulher valente!
Os passos aproximaram-se, parando diante 
do quarto de Xenia.
Ouviram Massia cair de joelhos e dizer:
-        Sublime czar, somos alimentados pela 
vossa bondade...
No mesmo instante, Xenia contraiu-se e 
levou as mos  boca, tomada de um 
ataque de 
tosse irresistvel. Tentou conter a 
respirao enquanto lanava a Trottau um 
olhar que gritava a 
sua angstia. "Ajuda-me!", mendigavam os 
seus olhos. "Andrei, no posso tossir! 
Eles 
ouvir-me-o... No deixes que eu tussa, 
Andrei..."
Trottau agarrou-lhe a cabea e cobriu-a 
com o seu comprido traje de mdico, 
cruzando os 
braos por cima. Mas em vo. A tosse 
saa do peito de Xenia, a tosse terrvel 
dos tuberculosos...
-        O que  isto? - perguntou a czarina 
diante da porta. Voltou-se e olhou para 
a porta 
que separava o quarto da diviso 
central. O czar prosseguira o seu 
caminho, precedido por 
Blattiev, que lhe iluminava o caminho. - 
Vive algum convosco? - perguntou.
-        Oh, mezinha - balbuciou Massia. 
Rodeou com os braos as botas da czarina 
e 
agarrou-se a ela, implorante. -  apenas 
uma criana... doente do peito... tosse 
at morrer... Ficai 
a, mezinha... no queirais correr 
tamanho perigo...
A czarina no disse uma palavra e deu um 
pontap a Massia que a fez cair sobre o 
pavimento de pedra. A pobre mulher 
cobriu a cabea com o avental e ali 
ficou, sem se mexer, 
como um saco. Ento, com um gesto 
rpido, a czarina abriu a porta.
Maria e Trottau enfrentaram-se. Os seus 
olhares eram como dois gldios ferindo 
os seus 
coraes que nunca se curariam.
Trottau conservava ainda a cabea de 
Xenia oculta sobre a sua capa. Ela 
continuava a 
tossir convulsamente, com um ataque de 
tosse especialmente violento que a 
impediu de assistir ao 
esfacelar de um amor que fora feito de 
cu e de inferno.
-        Mariouchka - disse lentamente 
Trottau.
O nome da sua felicidade dilacerada.
A czarina encostou-se  parede. 
Procurava um apoio, porque nesse 
instante a sua alma 
morria.
O combate silencioso que Maria e Trottau 
travavam com olhares mortferos foi 
ganho por 
Trottau. A czarina baixou os olhos. Mas 
as suas mos, que sabiam acariciar to 
suavemente, 
tendo ao mesmo tempo o ardor das estepes 
de Kazan, encostaram-se  parede e 
comearam a 
bater uma cadncia montona, terrvel. 
Melodia horrorosa do aniquilamento.
-        Morte... morte... morte...
-        Urso louro - disse finalmente Maria 
num sopro apenas perceptvel -, porque 
fizeste 
isto?
Massia rastejou at ao quarto.
-        Misericrdia, mezinha, misericrdia 
- gemeu. - Tem piedade daqueles que 
foram 
banidos da vida!

-        Porque ests tu aqui? - perguntou a 
czarina, que continuava a olhar apenas 
para 
Trottau, enquanto as suas mos 
continuavam a bater na parede numa 
cadncia tal que fazia 
estremecer todo o seu corpo.
-        Sou mdico - respondeu Trottau.
-        O meu mdico, Andrei.
O ataque de tosse parou. Xenia ergueu a 
cabea e os seus olhos azuis 
reconheceram a 
czarina. Ento largou Trottau, caiu de 
joelhos e baixou a cabea de modo que a 
sua testa tocou 
no solo. Tudo isso se passou to 
depressa que Trottau no o pde evitar.
-        Grande czarina - disse com a sua voz 
doce de meigas inflexes -, o vosso 
olhar 
d-nos esperana...
-        Ela  bonita!
A czarina afastou-se da parede, 
inclinou-se para Xenia e f-la erguer-se 
puxando-lhes os 
cabelos. Trottau quis dar um salto, mas 
imobilizou-se, como que paralisado. Das 
pregas da sua 
capa de zibelina Maria retirara um 
punhal cuja extremidade apoiava na nuca 
de Xenia.
- um anjo - prosseguiu Maria -, um 
verdadeiro serafim. H quanto tempo a 
conheces, 
Andrei?
-        H perto de dez meses... - respondeu 
Trottau. A voz dele mal se ouvia. Xenia 
continuava estendida, imvel, diante da 
czarina. Massia ajoelhara e comeara a 
rezar.
-        Ama-la?
-        Sim, sublime czarina.
Maria largou a cabeleira de Xenia, que 
caiu e se ps a rezar tambm. Maria 
passou por 
cima dela e aproximou-se de Trottau. O 
seu hlito escaldante tocava-lhe no 
rosto.
-        Tu dilaceraste o meu cu - murmurou 
roucamente. - Aniquilaste-me. De dia 
estavas junto dela e  noite ias ter 
comigo. Era assim?
-        Sim, Mariouchka.
-        Eu amei-te, sabes? Foste o nico 
homem ao qual no s o meu corpo mas 
tambm 
o meu corao pertenceram. Destruste 
tudo isso. Fizeste de mim uma alma 
morta.
A sua cabea inclinou-se para a frente e 
apoiou-se no ombro de Trottau.
-        De dia com ela, de noite comigo... 
foi-me preciso partilhar-te com uma 
pequena 
puta de cabelos claros. Oh, urso, meu 
urso louro, que mulher suportaria ser 
assim tratada? 
Esperas de mim que te perdoe? Devo ser 
mais santa que os santos? Urso louro, 
que deverei fazer?
-        Concede-me a possibilidade de deixar 
a Rssia. - Trottau ps um brao em 
redor 
dos ombros de Maria, mas ela libertou-se 
com um gesto brusco. Nos seus olhos 
negros brilhava 
uma chama to violenta que parecia 
querer destruir tudo.
-        Queres afastar-te de mim?
-        Sei que um capricho do czar seria 
suficiente para eu morrer.
-        Amo-te, Andrei.
-         um amor mortal, Maria. O czar...
-        Mandarei estrangular o czar e 
governaremos os dois a Rssia!
-        Esqueces os boiardos, Basmanov, 
Godounov, os Romanov...
-        Enfeitarei as ameias do Kremlin com 
as suas cabeas.
-        Amo Xenia. Quero casar com ela!

-        De dia com ela, de noite comigo... - 
A czarina agarrou com as duas mos a 
cabea 
de Trottau e atraiu-o para si. - Estars 
tambm de noite junto dela - disse num 
murmrio. - 
Sempre, eternamente, na noite, porque as 
nossas noites foram as mais belas da 
terra. Mandar-te-ei 
furar os olhos. Ento ters a tua Xenia. 
E aparecers na minha frente com rbitas 
vazias e eu 
olhar-te-ei e direi: "Aproxima-te, 
Andrei. Estou doente, apalpa o meu 
corpo! Sente-lo? Toca-lhe 
tanto quanto queiras, urso louro, tu s 
mdico e tens o direito de tocar no 
corpo da czarina. E a 
czarina fica estendida sem se mexer... 
imvel... Como as tuas mos so 
suaves... como me fazem 
bem... Sabes ainda qual  o aspecto 
deste corpo, urso louro? E ficars 
sentado ao p de mim, 
olhando para a noite eterna, e as tuas 
mos procuraro o sol perdido. Ento 
ters tudo o que 
desejares: as noites radiosas com Xenia 
e o amor da czarina a teu bom prazer. 
Apenas no 
poders ver tudo isso..."
Dos corredores chegou o som da voz de 
Ivan. Tinha parado, admirado por Maria 
no o 
ter seguido.
-        Maria! - chamou. - Quero ainda ir  
igreja rezar.
-        H apenas duas sadas para sair deste 
tmulo
- disse a czarina deixando a cabe a de 
Trottau. Este recuou e respirou fundo. - 
a escada que vai 
do gabinete de trabalho do czar e a 
saida no meio de um arbusto do jardim. 
Postarei quatro 
streltsy diante de cada uma delas e tu 
no poders sair. Amanh, antes de o 
czar voltar a partir 
para Alexandrovskaia Sloboda, virei 
buscar os teus olhos. Meu urso branco, 
ficars junto de mim 
at ao fim dos teus dias... Esse 
invlucro vazio deix-lo-ei de boa 
vontade a essa pega tsica... - 
Ergueu a mo com a rapidez do raio e 
bateu na cara de Trottau, depois atraiu-
o novamente para 
si e cobriu-o de beijos selvagens que 
lhe tiraram a fora para se defender.
-        Porque dilaceraste o meu cu? - 
balbuciou ela.
-        E o czar? - perguntou Trottau com voz triste. - Como lhe explicars que o 
seu 
mdico e amigo cegou?
-        Os boiardos! - Maria sorriu ferozmente. - "Foram os boiardos", dir-se-. 
Para 
atingirem o czar cegaram-lhe o amigo! Skouratov e Bons Godounov gemero e 
juraro por todos 
os santos. Mas o czar no acreditar neles e eu acus-los-ei. Sero aniquilados. 
O xito ser 
triplo, meu bem-amado: o czar ficar satisfeito, eu conservar-te-ei e o poderio 
dos boiardos 
quebrar-se-a. O czar reinar, mas eu gui-lo-ei.
-        Tu s um demnio! - murmurou Trottau. - Direi a verdade ao czar!
-        No sejas idiota, Andrei - respondeu a czarina quase triste. - Deixa-me 
algo de ti. 
Pode-se tambm arrancar uma lngua, mas eu gostaria, j que no poders ver, de 
te ouvir ainda 
dizer "Mariouchka". Ningum o diz to ternamente como tu.
Voltou-se e afastou-se com passos rpidos.
-        Tens uma boa esposa, Blattiev - disse a czarina em voz alta quando chegou 
ao 
corredor -, e uma linda filha! Ho-de ser queridas para mim e eu ocupar-me-ei 
delas. Ivan, 
passmos um belo dia...

Captulo 20

Diante do alapo existente no gabinete do czar montavam guarda cinco streltsy. 
Ignoravam porqu. Tinham apenas recebido ordem para ficar ali e matar qualquer 
pessoa que 
tentasse por l sair. No jardim tambm quatro soldados estavam colocados junto 
do arbusto e a 
prpria czarina lhes dissera: "Se neste arbusto aparecer um homem e uma 
rapariga, espetem-nos 
com as vossas lanas!"
Era uma ordem estranha, pois como  que se podia acreditar que um homem e 
uma rapariga surgissem assim de um arbusto? Mas a czarina dissera-o: era intil 
raciocinar. Era 
preciso obedecer.
Assim, os outros streltsy permaneciam de p na neve, meio gelados, com os olhos 
postos no maldito arbusto, e pensavam numa chvena de ch quente num canto 
sossegado junto 
do fogo da sala da guarda bem aquecida.
O czar voltou  igreja com a czarina, que se sentou, plida como mrmore, numa 
cadeira de 
couro, contemplando fixamente os icones.
O czar fechara os olhos e ouvia piedosamente os cnticos religiosos. J no 
pensava em 
Loumansovski. Sentia-se transportado pelas vozes maravilhosas dos monges. Podia 
louvar-se 
Deus melhor do que com aqueles cnticos?
O metropolita, que se encontrava de p atrs de Ivan, inclinou-se para o czar.
-        Sublime czar, ningum sabe como isso sucedeu, mas o povo conhece a vossa 
presena em Moscovo. Querem dirigir-se em procisso junto de vs, para vos 
suplicar que volteis 
a sentar-vos no vosso trono!
-        Cale-se, pope Filipe - respondeu Ivan com os olhos fechados -, estas 
vozes... estas 
vozes celestes...
-        Amanh de manh o povo vir prestar-vos homenagem, Moscovo ser iluminada 
por milhares de tochas. A Rssia chama-vos.
-        Volto hoje mesmo para Alexandrovskaia Sloboda. - O czar olhou para o lado. 
Maria estava sentada no seu trono de ouro e o seu rosto parecia brilhar como um 
marfim oriental 
e malfico. - Encontraram Trottau? - perguntou Ivan.
-        Sim - respondeu Maria. - Espera-nos. Est justamente a tratar o boiardo 
Iouriev.
-        Iouriev encontra-se aqui e no em Alexandrovskaia Sloboda?
-        Seguiu-nos a cavalo, o Diabo sabe por que razo. - Com estas palavras a 
czarina ia 
construindo a sua mentira. Diria depois que Iouriev cegara Trottau. "Hoje 
mesmo", pensava a 
czarina. "Depois ser o regresso a Alexandrovskaia Slo
boda. Meu urso louro... tinhas uns olhos azuis to bonitos. Porque me mentiram 
to cruelmente?"
-        louriev cavalgou com uma tal velocidade que Trottau teve de lhe pr 
pomadas no 
traseiro - acrescentou. O czar riu baixinho.
-        Um fiel, esse Iouriev!
Maria calou-se. "Espera um pouco", pensava ela. "Trottau ser levado junto do 
teu tren 
e das suas rbitas vazias correr o sangue. E eu gritarei:
"Foi Iouriev! Foram os teus boiardos, os teus...

-        Dentro de trs horas partiremos - disse o czar. - Se o povo quiser ir ter 
comigo, ir 
a Alexandrovskaia Sloboda, paizinho.
-        Sim, sublime czar.
O metropolita inclinou-se sobre o ombro do czar.
-        Esper-los-ei e eles iro de ps descalos e ficaro assim, diante de mim, 
na neve. 
Decidirei ento se hei-de regressar a Moscovo.
-        Eles f-lo-o, nobre czar! - respondeu o metropolita. - E eu irei  frente 
deles!
-        Ouve! - Ivan ergueu a mo. - Eles cantam louvores ao Senhor. Estas 
vozes... estas 
vozes...
-        baixou a cabea e chorou.
Sem rudo a czarina saiu da igreja. Queria ver furar os olhos de Trottau e 
chorar perante 
esse espectculo.

Existia uma terceira sada para escapar do mundo subterrneo situado nos 
alicerces do 
Kremlin. Uma sada ignorada da czarina e que s os Blattiev conheciam. Era uma 
porta de ferro 
que dava para o interior de uma chamin de mrmore do quarto de dormir do czar.
Trottau e Xenia fugiram por essa sada. A partida deles foi um pouco 
precipitada, claro. 
Xenia levou apenas algumas roupas. Beijara os pais, lavada em lgrimas, pedindo 
para eles as 
bnos de Deus. Pela ltima vez Blattiev sentara-se no banco de pedra para 
tocar uma melodia 
de despedida na sua flauta. Depois, pegando no instrumento com as duas mos, 
quebrara-o, 
uivando como um lobo. Em seguida tirara de um bolso um pequeno icone e 
ajoelhara-se. Trottau 
e Xenia fizeram o mesmo. Blattiev abenoou a filha que no voltaria a ver. Ps o 
icone sobre as 
cabeas deles e levantou-se de um salto quando viu Massia encostar a cabea  
parede para no 
ver a filha ir-se embora.
Blattiev tirou uma tocha da parede e agitou-a sobre a cabea hirsuta.
- Mezinha - soluava Xenia -, porque no vens connosco?
- Queres despachar-te? - gritou Massia. Nem mais uma palavra. Andrei, d-lhe a 
mo e 
corram! Querem dilacerar-me o corao? Igor, expulsa-os daqui!
O adeus era horrvel, porque definitivo. Era preciso apressarem-se. A czarina 
no lhes 
dava descanso.
Trottau e Xenia correram atrs de Blattiev, seguindo corredores desconhecidos, 
subindo 
escadas nunca vistas, at que chegaram  porta de ferro que dava para a chamin. 
Blattiev abriu-a: 
o caminho para o futuro estava livre.
Blattiev empurrou-os rudemente pelos ombros e fechou a porta logo que eles 
passaram. 
No podia proceder de outro modo. Aqueles que iam para a liberdade 
compreenderam-no. Para 
Blattiev, a vida terminava ali. Vivera no seu subterrneo, com os seus ursos, 
apenas por amor da 
filha. Carrasco dos inimigos do czar e estrangulador de todas as testemunhas 
incomodativas, 
apenas sofrera esse oprbrio por causa de Xenia, essa maravilha, esse milagre 
nunca 
compreendido, acolhido como um presente imerecido.
- Dentro de meia hora teremos deixado Moscovo para trs - disse Trottau, 
ofegante. - 
Precisamos apenas de ir buscar Sabotkin.

Encontraram-no estendido numa poa de sangue, mas vivo. Ao ver o amo ergueu a 
cabea 
e sorriu. Depois voltou a deixar pender a cabea, como se quisesse morrer em 
paz.
- Nada revelei - disse a custo. - Parta, paizinho. A czarina veio aqui!
- Bem sei, Afanasi. - Trottau ajoelhou-se junto do ferido, examinou-o 
rapidamente e 
apercebeu-se de que o caso era menos grave do que pensara. Mas o sangue que o 
valente criado 
perdera tirava-lhe as foras para se levantar.
-        Cerra os dentes, idiota! - gritou Trottau. Dentro de oito dias sers um 
homem 
livre. Agarrou-o pelas axilas e ergueu-o.
-        Parte, paizinho, parte! - Sabotkin deixou tombar a cabea sobre o peito. 
Estava 
demasiado fraco. - s um bom amo. Deus te abenoar sempre.
-        Levanta-te! - gritou Trottau.
-         preciso partir, senhor! - gemeu Sabotkin. - Eu seria um peso intil...
-        Levanta-te, j te disse.
Trottau hesitou e em seguida comeou a esbofetear Sabotkin, a agredir aquele 
pobre rosto 
inchado. Era uma deciso que Sabotkin, o servo, compreenderia, e que, de resto, 
despertou as 
suas ltimas foras, pois ergueu-se sobre as pernas vacilantes. "O meu amo bate-
me, tenho de lhe 
obedecer!"
Obedeceu, deu alguns passos hesitantes, apoiou-se em Trottau e saiu caminhando 
com 
dificuldade.
Atingiram uma das pequenas portas abertas nas paredes do Kremlin, onde se 
encontrava 
de guarda um s streltsy. O homem conhecia o mdico da czarina. Abriu a porta e 
voltou a 
fech-la, pensando que Trottau conduzia dois doentes para qualquer stio.
Dez minutos depois estavam na cavalaria onde os cavalos e o tren os esperavam. 
O 
homem que os vendera a Trottau atrelou-os. Trottau estendeu Sabotkin na palha e 
escondeu 
Xenia ao seu lado, cobrindo-a com grandes mantas de pele de co. Depois sentou-
se no estreito 
assento de madeira.
O cu estava de novo coberto. Grossos flocos de neve caam como pedaos de 
algodo 
desfeito.
-        Boa viagem, vossa graa! - disse o palafreneiro, e largou as rdeas. 
Trottau deu 
um estalo com a lngua, os cavalos relincharam e partiram a galope.
-        Voltaremos a ver a Rssia? - perguntou baixinho Xenia.
-        No - respondeu Trottau. - Esta Rssia, no.
-        Ento deixa-me dizer-lhe adeus, Andrei!
Xenia ps-se de p, abriu os braos e assim saiu
de Moscovo. Dir-se-ia que Xenia abraava esse pas maravilhoso, essa cidade 
formidvel, esse 
povo crente, esse povo escravizado durante sculos e que continuava a ser, 
apesar de tudo, bom e 
alegre.

Meia hora mais tarde, a czarina descia ao subterrneo acompanhada por quatro 
streltsy. 
Um deles levava, num estojo forrado de cetim, uma comprida agulha de prata.
Maria nada disse ao verificar que chegava demasiado tarde. No quarto vazio de 
Xenia, os 
Blattiev, ajoelhados, rezavam encostados um ao outro, unidos no mesmo desgosto, 
para o qual 
no h palavras.
A czarina apoiou-se  parede e contemplou a
cama da jovem. E dilacerava-se ao pensar que

o seu louro amante a partilhara com outra mulher
e que a amara mais do que a ela, a poderosa czarina. Tambm para Maria era um 
adeus definitivo.
O seu adeus a um amor que Trottau nunca chegara a compreender inteiramente.
Quando a czarina voltou ao Kremlin aps a sua passagem pelo subterrneo, o mundo 
tinha 
mais um monstro. E durante sculos, depois disso, os historiadores foram 
incapazes de explicar o 
fenmeno que essa mulher representava com a sua metamorfose inconcebveL. Todos 
se 
lembraram de doena, de demncia hereditria, de sadismo, mas no pensaram nunca 
que isso se 
devesse  morte de um grande amor.
Blattiev permaneceria vivo. A morte dele teria inquietado Ivan. Igor e Massia 
estariam em 
segurana enquanto o czar vivesse. Era o que mais afectava Maria: j no podia 
vingar-se.
Aproximou-se de Blattiev, deu-lhe um pontap nas costas e designou com um gesto 
os 
quatro streltsy. Igor Igorovich ergueu-se docilmente e levou quatro streltsy, um 
aps outro, para 
um pequeno compartimento, onde os estrangulou com a sua corda de cnhamo, 
enquanto a 
czarina voltava sozinha para o Kremlin.
Ivan trovejou durante cinco dias, exigindo que procurassem Trottau por todos os 
lados: 
enviou soldados  procura dele, mandou chicotear at  morte os guardas do 
palcio. Mandou 
chamar
dentes e mgicos a Alexandrovskaia Sloboda e prometeu a Deus trs catedrais, as 
mais belas do 
universo, se o mdico fosse encontrado.
No sexto dia, Ivan estava sentado, a chorar, sobre os joelhos de Maria, como uma 
criana 
que procura refgio junto da me. E a czarina, acariciando o seu rosto cavado, 
disse-lhe:
- Ivanouchka, ele era semelhante  guia! Pode-se manter uma guia numa gaiola?
- Era o nico homem com quem eu podia falar - gemeu o czar.
"E era o nico homem que eu podia amar", pensou a czarina.
-        Resta-nos a Rssia, Ivan - respondeu ela.
-        Um pas que me mata, um povo que me amaldioa! Em tudo a traio... Tenho 
frio, Maria...
Rodeou-o com os seus braos e apertou-o contra o seio, para o aquecer com o 
calor do 
corpo. O czar adormeceu assim.
No primeiro dia do ano da graa de 1565, de manh, cerca das nove horas, Trottau 
passou 
com a sua trica a fronteira da Polnia em Polozk. Estava em segurana.
Atrs, no tren, Xenia e Sabotkin dormiam.
O fiel gigante, cujos ferimentos iam cicatrizando,
e Xenia, que contemplava tudo com os seus grandes olhos azuis e que perguntava 
incessantemente: "Andrei, estamos livres? Estamos verdadeiramente livres?"
Logo depois da fronteira polaca Trottau parou a trica, saltou do assento, 
correu 
parajunto dos cavalos e, abraando-os, beijou os focinhos fumegantes. Depois 
despertou os seus 
companheiros de viagem, destapando-os e tirando-os do meio da palha tpida.

-        A Polnia! - exclamou. - E mais adiante fica a Prssia! No durmam no mais 
belo 
dia da vossa vida! Encontramo-nos sobre um solo onde h liberdade!
Xenia desceu do tren, deu alguns passos para trs e parou, com o olhar perdido 
na 
brancura infinita onde se distinguiam apenas os sulcos cavados pelo tren e as 
marcas dos cascos 
dos cavalos.
- E ali encontra-se a Rssia - murmurou, apoiando-se em Trottau. Um vento 
ligeiro 
soprava a neve, que cobria j as marcas da passagem deles. - A minha Rssia... - 
Procurou a mo 
de Trottau e apertou-a contra os seus lbios. - Que Deus proteja a Rssia!
Permaneceram de p, lado a lado, at que o vento fez desaparecer todos os sinais 
da 
passagem deles sobre a neve.

Fim
